Foto: Michael Milshtein/ReproduçO momento é de apreensão e cautela no Oriente Médio. Israel e o grupo terrorista Hamas iniciaram discussões para o fim da guerra em Gaza nesta segunda-feira, 6, no Egito, mas muitas questões estão em aberto, como o desarmamento do Hamas, a governança do território palestino e a retirada do Exército israelense.
Em entrevista ao Estadão, o especialista em Estudos Palestinos Michael Milshtein, que é chefe do Fórum de Estudos Palestinos no Centro Moshe Dayan de Estudos do Oriente Médio e da África na Universidade de Tel-Aviv, compartilha uma visão realista sobre o futuro do conflito na Faixa de Gaza.
Com contatos dentro do Hamas e da Autoridade Palestina, o analista aponta que o grupo terrorista não vai se desarmar e tem uma visão de longo prazo sobre a luta palestina. “O Hamas diz que Deus está com aqueles que são pacientes. Eles sabem que agora é um momento de contenção, mas vão voltar no futuro”.
Para Milshtein, o futuro do grupo pode ser disputar a liderança da Autoridade Palestina (AP) após a morte de Mahmoud Abbas, o presidente da entidade, que tem 89 anos.
O especialista também diz que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é o único que pode obrigar Netanyahu a acabar com a guerra, independente das condições. “Trump aceitou a resposta do Hamas, mesmo sem uma aceitação completa do acordo. Ele quer o fim da guerra, para ganhar o Prêmio Nobel da Paz e também por conta de uma forte pressão do Catar”.
Confira os principais trechos da entrevista:
O senhor está otimista em relação ao plano de Trump para acabar com a guerra?
Eu te digo francamente, não estou otimista nem pessimista, estou tentando ser realista.
Hoje as negociações entre o Hamas e Israel começaram e sobre isso estou pessimista porque não dá para fechar as lacunas entre os dois lados.
Netanyahu disse que a negociação será muito curta e Israel apenas falará sobre os reféns. Mas a posição do Hamas é que é preciso ter uma discussão bem ampla sobre o fim da guerra, sobre a retirada de Gaza e a questão do desarmamento está fora de cogitação.
Só estou otimista sobre uma parte desta equação: Donald Trump.
Ele quer o Prêmio Nobel da Paz e o ganhador do prêmio será anunciado no dia 10 de outubro. Então o presidente quer resolver tudo antes de sexta-feira.
É muito difícil de prever o que vai acontecer, mas quando eu falo com pessoas de Gaza ou do resto do mundo árabe, elas colocam a esperança de que Trump possa dizer a Netanyahu para acabar com a guerra nos próximos dias.

Por que o Hamas aceitou o acordo, mesmo com ressalvas?
Sabe, é incrível, porque se verificarmos os detalhes cuidadosamente, você vê que não há diferença entre a resposta do Hamas de dois dias atrás com todas as outras respostas do Hamas para a iniciativa de Biden, a iniciativa egípcia e o plano de Steve Wittkoff.
Eles disseram: “Nós concordamos em acabar com a guerra. Concordamos até em não fazer parte do próximo regime em Gaza. Mas estaremos por trás das cenas e exigimos o fim da guerra e não vamos nos desarmar”.
A resposta deles na sexta-feira não foi diferente disso.
E o mais incrível é que Trump aceitou essa resposta do Hamas. Isso chocou o governo israelense, porque não foi o que o mesmo Trump e Netanyahu disseram três dias antes disso, quando afirmaram que o plano que anunciaram seria a proposta final ao Hamas.
O Hamas não mudou muito sua posição.

Por que Trump concordaria com o Hamas existindo? Ele quer encerrar a guerra a todo custo? Me parece que Netanyahu não concordaria com isso
Claro, mas ele não tem outra opção.
Netanyahu pode dizer não ao próprio público, que quer que a guerra acabe, assim como ele pode dizer não a qualquer político israelense, mas se Donald Trump diz algo a ele, ele vai ouvir e obedecer.
No começo do ano, Donald Trump foi quem pressionou Netanyahu a aceitar o cessar-fogo, antes mesmo de tomar posse como presidente. Agora pode acontecer a mesma coisa.
Trump tem muitas motivações para querer este cessar-fogo, mesmo sem o desarmamento do Hamas. Além do Nobel da Paz, também existe a questão Catar.
O Catar tem um impacto muito amplo e profundo em Donald Trump.

Se você se lembrar, há apenas três dias, Donald Trump anunciou que os portões do inferno seriam abertos sobre o Hamas se o grupo insistisse em continuar armado. E várias horas depois disso, Donald Trump concordou com a resposta do Hamas.
E não foi uma coincidência. Não foi mágica. Foi resultado da pressão do Catar sobre Donald Trump.
O impacto do Catar sobre Trump é muito maior do que era antes do ataque israelense em Doha. Existem muitas questões envolvendo negócios e investimentos entre Doha e Washington.
Acredito que Thani e o Emir Tamim disseram a Trump de maneira muito clara: “Escute, nós exigimos que você coloque muito mais pressão sobre Netanyahu”.
O senhor avalia que o Hamas pode ter concordado com o plano de Trump para que, em 20 anos, possa tentar retornar ao poder em Gaza, com mais força do que neste momento?
Claro. Eu tive muitas conversas com líderes do Hamas. E quando conversamos sobre estratégia, eles são muito claros e dizem que Deus está com aqueles que são pacientes. De acordo com eles, o plano de governança de Gaza é uma fachada.
A Autoridade Palestina ou um outro regime pode governar Gaza, mas por trás das cenas, o Hamas irá tentar manter o seu impacto em Gaza. E isso não significa apenas se manter armado, mas também a sua infraestrutura civil, as mesquitas e o seu fundo de caridade. Eles sempre pensarão no próximo passo.
Isso significa que, agora, eles sentem que precisam ser contidos. Eles acreditam que precisam transmitir uma imagem pacífica. Mas no longo prazo, eles querem competir pela liderança da Autoridade Palestina depois que Mahmoud Abbas morrer. Sem dúvida, essa é uma das missões do Hamas para o futuro.
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Existe alguma realidade em que o Hamas acabe como organização?
Não
Mesmo que o Hamas dissesse que está se desarmando, é claro que vão continuar existindo. O coração do Hamas, que seria a sua infraestrutura civil, continuará existindo.
Mas eu converso com pessoas do Hamas e acredito que é muito difícil que eles desistam das armas. O nome do Hamas em árabe é Harakat al-Muqawama al-Islamiya, o Movimento de Resistência Islâmica.
E eles sempre me dizem, ouça, se você tirar o M, o muqawama, a resistência do Hamas, é como tirar o coração de um corpo humano. É a identidade deles.
Então isso não vai acontecer. Eles podem dizer que podem desistir de armas ofensivas como foguetes, drones e comando naval, mas não irão abandonar a chamada resistência, o Muqawama.
O senhor acredita que a Autoridade Palestina conseguirá governar Gaza no futuro?
A resposta é não.
Há dois meses, visitei o campo de refugiados de Jenin. Este campo é exatamente igual a Gaza. E é incrível porque você percebe que a Autoridade Palestina realmente não controla este lugar.
Eles mal controlam a cidade de Jenin e eles não controlam Tulkarem, então você espera que eles controlem uma área totalmente destruída com 2 milhões de palestinos que realmente os consideram, ou foram educados para considerá-los, como colaboradores de Israel? Eles não são capazes de governar Gaza.
Se eles fizerem parte de um novo regime, então é possível. Mas precisa ser um regime local, estabelecido por pessoas de Gaza: prefeitos, chefes de clãs, líderes de tribos, figuras acadêmicas proeminentes que teriam uma conexão com a Autoridade Palestina.

Neste caso, tudo bem.
Mas se Mahmoud Abbas for o líder que irá governar Gaza, então ele vai fracassar. A AP precisa passar por reformas profundas para, quem sabe, estar pronta para essa missão.
Trump tem falado sobre a primeira fase de seu plano, que incluiria a libertação de reféns israelenses e prisioneiros palestinos e a retirada parcial e gradual do Exército israelense em Gaza. É possível que só essa fase aconteça?
O Hamas não é estúpido.
Existem ministros aqui em Israel que dizem: “Ah, sem problemas. Vamos pegar os reféns e depois de 72 horas vamos esmagar o Hamas.”
Mas isso não é possível. O Hamas surpreendeu Israel no dia 7 de outubro e provaram que eles conhecem mais Israel do que Israel conhece eles.
Então se alguém acha que eles só vão devolver os reféns sem garantias, isso não vai acontecer.
O próprio Trump teria que garantir ao grupo que a guerra não continuará. Eles não vão dar a barganha deles a Israel por nada.
O senhor acredita na criação de um Estado palestino?
Agora, não.
Existem muitas alas em Israel que não querem isso e não acreditam nisso. O outro obstáculo são os próprios palestinos.
Eu conversei com membros da Autoridade Palestina e eles falam extraoficialmente que não estão prontos para um Estado palestino. Eles dizem que se um Estado fosse criado amanhã, com soberania e independência, não teria como prometer que tudo ficaria bem.
Essa visão de dois Estados não é muito razoável. Precisamos de uma separação física.
O próximo governo israelense deve pensar seriamente sobre o futuro e sobre como traçar uma fronteira que divida Gaza e a Cisjordânia do resto de Israel.
Precisamos de fronteiras entre nós. E Israel deve controlar essas fronteiras entre o que seria uma entidade palestina com o mundo. Isso significa que Israel precisa controlar a fronteira entre Jordânia e Cisjordânia e entre Gaza e o Sinai.
Só assim podemos garantir nossa segurança. É muito ingênuo pensar em dois Estados nesse momento. Eles não conseguem.
Eu espero que no futuro a próxima liderança palestina possa ser mais flexível e razoável em relação a questões como refugiados, fronteiras e outras coisas. É com essa próxima liderança que poderemos negociar um futuro Estado palestino.
Mas no momento atual, vejo essa separação possível, com Israel controlando as fronteiras.





