Convenção Batista do Sul acobertou casos de abuso sexual nos EUA, aponta relatório

Foto: Mark Humphrey/ AP

Líderes da maior congregação religiosa protestante do país teriam ignorado denúncias de vítimas de abusos e até mesmo mantido uma lista de ministros supostamente envolvidos em casos de violência sexual

Por Redação

Líderes da Convenção Batista do Sul (SBC, na sigla em inglês), a maior denominação protestante dos Estados Unidos, esconderam denúncias de crimes sexuais, com membros do alto clero muitas vezes ignorando, minimizando e até difamando sobreviventes dos abusos, de acordo uma investigação independente apresentada no domingo, 22.

As descobertas foram compiladas em um relatório de quase 300 páginas, encomendado pela própria congregação religiosa a uma organização chamada Guidepost Solutions, e revelam detalhes chocantes sobre casos de abuso abrangendo relatos de mulheres e crianças sobre pastores e funcionários da igreja entre 2000 e 2021. O texto também aponta que líderes batistas resistiram ativamente, por décadas, a pedidos de reparação e a medidas que prevenissem futuros casos.

“Sabíamos que estava chegando, mas ainda é muito desafiador e surpreendente, chocante, ter que encarar essa realidade”, afirmou o presidente da denominação protestante, Ed Litton, em entrevista na noite de domingo. O presidente, cujo mandato termina em junho e que não está concorrendo à reeleição, disse que o que leu no relatório foi “muito pior” do que qualquer coisa que ele havia previsto.

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Membros da Convenção Batista do Sul durante reunião do comitê executivo, em Nashville, em 2001.
Membros da Convenção Batista do Sul durante reunião do comitê executivo, em Nashville, em 2001. Foto: George Walker IV/USA Today Network via REUTERS

Embora se concentre principalmente em como lideranças da igreja trataram as questões de abuso quando os sobreviventes se apresentaram --- apontando que houve proteção e até apoio de supostos agressores por três ex-presidentes, um ex-vice-presidente e o ex-chefe do braço administrativo da SBC --, o relatório aponta que um grande líder batista do sul foi acusado de agredir sexualmente uma mulher apenas um mês depois de completar seu mandato.

A investigação concluiu que Johnny Hunt, um celebrado pastor da Geórgia que foi vice-presidente sênior do braço de missões da SBC, foi acusado de agredir uma mulher durante férias em Panama City Beach, na Flórida, em 2010.

O relatório afirma que Hunt, em entrevista aos investigadores, negou qualquer contato físico com a mulher, mas reconheceu que teve interações com ela. Depois que o relatório foi divulgado, Hunt, que não foi acusado pelo suposto incidente, postou uma declaração no Twitter, dizendo: “Nego vigorosamente as circunstâncias e caracterizações estabelecidas no relatório do Guidepost. Nunca abusei de ninguém”.

Hunt renunciou em 13 de maio do Conselho de Missões da América do Norte, de acordo com uma declaração do presidente do conselho, Kevin Ezell. Ezell disse que antes de 13 de maio não estava ciente da suposta má conduta de Hunt. Ele chamou os detalhes do relatório de “notórios e profundamente perturbadores”.

Acobertamento e difamação

Alegações de abuso sexual e a forma como a igreja as recebe abalam a SBC há anos. Mas a investigação atual só foi possível com o aumento da pressão de grupos de sobreviventes em ambientes batistas no sul, que fez com que delegados votassem a favor da abertura da apuração durante a reunião anual da convenção em 2021.

Durante o encontro, ficou determinado que o comitê executivo da entidade, formado por 86 membros, entregaria documentos confidenciais em cooperação com investigação.

O trabalho ficou concentrado em ações do comitê executivo, que trata das funções financeiras e administrativas. Embora as igrejas batistas do sul operem independentemente umas das outras -- fato que foi ressaltado ao longo dos anos para justificar uma capacidade limitada em forçar as igrejas a tomar qualquer ação --, apenas o comitê executivo com sede em Nashville distribui mais de US$ 190 milhões (R$ 910 milhões) em programas cooperativos em seu orçamento anual, que financia suas missões, seminários e ministérios.

Influente líder do comitê, August Boto é um dos principais líderes sênior citados no relatório. Em um e-mail interno mencionado no documento, Boto descreveu os esforços dos grupos de sobreviventes dos abusos como um “esquema satânico para nos distrair completamente da evangelização”, referindo-se ao trabalho de Christa Brown, uma sobrevivente, e a advogada Rachael Denhollander, que trabalhou contra a denominação, como “o diabo sendo temporariamente bem sucedido”.

Foto de 2019 mostra Christa Brown, uma das vítimas que relata ter sofrido abuso sexual dentro da Congregação Batista do Sul.
Foto de 2019 mostra Christa Brown, uma das vítimas que relata ter sofrido abuso sexual dentro da Congregação Batista do Sul. Foto: Julie Bennett/ AP

O relatório também revelou que um funcionário de Boto no comitê executivo manteve, por mais de 10 anos, uma lista detalhada de ministros acusados de abuso, mas que ninguém “tomou qualquer ação para garantir que os ministros acusados não estivessem mais em posições de poder nas igrejas”, detalha o documento. A lista mais recente, acrescentou, continha os nomes de centenas de supostos abusadores afiliados à denominação em algum momento. Os investigadores revisaram a mesma lista e relataram que nove pessoas aparentemente permanecem pelo menos conectadas ao trabalho em um ministério.

Ex-presidentes da denominação também estariam ligados diretamente ao acobertamento, como Steve Gaines, Jack Graham e Paige Patterson, segundo a investigação. Um porta-voz da Prestonwood Baptist Church, onde Graham é pastor, disse que a igreja “nega categoricamente” a forma como o relatório caracteriza um incidente sob sua liderança, no qual alega que Graham discretamente demitiu um acusado de abuso em sua equipe, em vez de entrar em contato com a polícia.

A investigação também apontou que ligações e e-mails de sobreviventes de abuso eram “apenas para serem atendidos, repetidamente, com resistência, bloqueio e até hostilidade total” por líderes que estavam mais preocupados em proteger a instituição da responsabilidade do que em proteger a comunidade batista. “Enquanto as histórias de abuso foram minimizadas e os sobreviventes foram ignorados ou até vilipendiados, surgiram revelações nos últimos anos de que alguns líderes seniores da SBC protegeram ou até apoiaram supostos agressores”, afirma o relatório.

Quando o braço de políticas públicas da denominação, a Comissão de Ética e Liberdade Religiosa, compilou um relatório sobre abuso sexual, os líderes do comitê executivo e advogados externos “sugeriram mudanças no relatório para evitar possíveis responsabilidades, incluindo a remoção da palavra ‘crise’ ao se referir a abuso sexual”, afirmou o relatório.

Reação da comunidade

Sobreviventes de abuso sexual, muitos dos quais compartilham suas histórias há anos, anteciparam que o lançamento de domingo confirmaria os fatos em torno de muitas das histórias que já haviam contado, mas muitos ainda ficaram surpresos ao ver o padrão de encobrimentos pelos mais altos níveis de liderança.

“Eu sabia que era podre, mas é surpreendente e enfurecedor”, disse Jennifer Lyell, uma sobrevivente que já foi a executiva mais bem paga da SBC e cuja história de abuso sexual em um seminário batista do sul é detalhada no relatório. “Esta é uma denominação que é completamente sobre poder. É um poder desviado. Não reflete de forma alguma o Jesus que vejo nas escrituras. Estou arrasada”.

“Este relatório é horrível. O número de vidas dizimadas por aqueles que afirmam seguir Jesus está quase além da compreensão”, disse Boz Tchividjian, advogado especializado em representar sobreviventes de abuso em contextos religiosos. “Talvez seja hora de a SBC não existir mais”.

“A vida das pessoas foi absolutamente dizimada”, disse Christa Brown, uma defensora de longa data da reforma na denominação que disse ter passado a tarde de domingo lendo e processando o relatório. “Essa parte simplesmente parte meu coração”.

Brown disse que foi abusada sexualmente por um jovem ministro em sua igreja batista do sul quando ela tinha 16 anos. Mais tarde, ele se mudou para outra igreja na denominação. Brown começou a alertar os líderes da denominação sobre o ocorrido em 2004, mas eles não tomaram nenhuma atitude, disse ela. Em uma reunião do comitê executivo em 2007, observada por ela, um membro a classificou de “uma pessoa sem integridade”.

Brown disse que ficou feliz em ver a publicação do relatório, que valida tantas alegações de sobreviventes. Mas, acrescentou, “tudo isso poderia ter sido evitado”.

Líderes do comitê executivo disseram em comunicado que realizarão uma reunião na terça-feira para discutir o relatório.

“Para os membros da comunidade de sobreviventes, estamos tristes com as descobertas desta investigação”, disseram Rolland Slade, presidente do grupo, e Willie McLaurin, presidente interino do grupo. “Este é o início de uma temporada de ouvir, lamentar e aprender como lidar com o abuso sexual na Convenção Batista do Sul”.

O relatório recomendou ações para futuras reformas na SBC, com etapas que incluíram a criação de um sistema de informação sobre infratores “para alertar a comunidade sobre infratores conhecidos” que poderia ser disponibilizado às igrejas “de forma voluntária”, e a criação de um programa de prevenção de abusos para igrejas e outras entidades batistas, que também seria voluntária.

O relatório também recomendou que os Batistas do Sul eventualmente criassem um novo grupo administrativo que supervisionaria “reformas abrangentes de longo prazo sobre abuso sexual e má conduta relacionada”, e que as entidades da igreja deveriam restringir o uso de acordos de confidencialidade e acordos civis que exigem confidencialidade, a menos que solicitado pelo sobrevivente. Também sugeriu que o comitê que atualmente trata das alegações de abuso melhore seus procedimentos para se tornar mais transparente./ NYT E WPOST

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