Jimmy Kimmel teve seu programa suspenso por uma razão - e não se trata de censura

É possível defender a punição ao comediante com um argumento cívico. O risco é isso virar uma justificativa para Trump perseguir seus críticos

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Por Ross Douthat (The New York Times)
Atualização:

Trump diz que emissoras de TV deveriam perder licença por criticá-lo

Comentário ocorre após a ABC suspender o talk show de Jimmy Kimmel por comentar a morte de Charlie Kirk. Crédito: US Network Pool

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Jimmy Kimmel foi suspenso de seu programa noturno, gerando comparações com a pressão da Casa Branca de Biden sobre mídias sociais para censurar conteúdos da pandemia. O escritor Derek Thompson argumenta que a suspensão de Kimmel é partidária, enquanto conservadores veem um propósito cívico. A mudança cultural progressista nas instituições americanas é criticada, e a guerra cultural de Trump busca pressionar por reformas. No entanto, há preocupações sobre a lealdade exigida a Trump, destacando tensões políticas nos EUA.

Ao ver Jimmy Kimmel suspenso de seu programa noturno com, digamos, o forte incentivo do presidente da Comissão Federal de Comunicações, alguns conservadores fizeram uma analogia com a “pressão” que a Casa Branca de Joe Biden usou para incentivar as empresas de mídia social a praticar várias formas de censura de conteúdos relacionados à pandemia de covid-19.

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Isso, por sua vez, suscitou uma questão interessante do escritor progressista Derek Thompson. Mesmo admitindo que os “Bidenistas” possam ter agido de forma inadequada, escreveu ele, a vontade de policiar o discurso sobre a pandemia refletia um desejo de servir o interesse público, evitando mortes desnecessárias. Já a suspensão de Kimmel, argumentou ele, parece puro partidarismo: “Não ouvi ninguém sequer fingir que há um princípio mais profundo em jogo aqui”.

Acho que muitos conservadores veem nessa suspensão um propósito cívico, e vou aceitar o desafio de Thompson e tentar articulá-lo. O argumento parte do pressuposto de que as principais instituições culturais dos Estados Unidos — redes de televisão, estúdios de cinema, grandes universidades — são empresas privadas, mas também carregam uma espécie de confiança pública, com obrigações cívicas e comerciais. (Pelo menos neste ponto, muitos progressistas concordariam.)

O apresentador Jimmy Kimmel participa de um evento na calçada da fama de Hollywood, em Los Angeles Foto: Valerie Macon/AFP

É possível ser um bom administrador com consciência cívica sem ser perfeitamente neutro politicamente. A maioria das instituições culturais tem sido composta principalmente por progressistas desde tempos imemoriais (ou pelo menos desde a década de 1960) e, embora isso sempre tenha sido motivo de reclamação dos conservadores, é algo com que a direita aprendeu a conviver e trabalhar — e até mesmo lucrar, por meio dos programas de rádio e das alternativas da Fox News.

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Da perspectiva conservadora, porém, a natureza dessa administração das redes de TV mudou na década de 2010. Houve uma mudança na cultura progressista, uma crescente politização, uma guinada para a esquerda. Essa mudança foi mediada por conflitos geracionais e novas forças tecnológicas e, em seguida, abraçada por uma série de instituições, da academia a Hollywood e ao Vale do Silício, que decidiram coletivamente impor uma ortodoxia de esquerda emergente — por meio de demissões de altos funcionários, novos códigos de conduta e declarações de lealdade ideológica como requisito para o emprego.

Programas noturnos de TV foram um indicador interessante. Escrevi sobre isso na campanha eleitoral de 2016, descrevendo a estranheza de assistir a uma zona cultural que costumava ser bastante apolítica, repentinamente povoada por uma série de comediantes cada vez mais partidários, entre eles Kimmel, cada um oferecendo uma variação diferente de um progressismo intimidador.

Os apresentadores Stephen Colbert e Jimmy Kimmel participam do Emmy Awards, em Los Angeles Foto: Frederic J. Brown/AFP

Não foi o mercado de ideias ou os imperativos do comércio que impulsionaram essa mudança: foi a dinâmica interna da elite cultural e uma falha de gestão por parte das pessoas nas direções das empresas. E essa falha levou primeiro a um longo período de censura branda na vida americana e, em seguida, à revolta política contra o progressismo cultural. A vitória surpreendente do presidente Trump em 2016 foi um prenúncio; seu retorno ao poder em 2024 foi o seu ápice.

Na sequência disso, minha impressão é que muitos diretores de grupos de mídia e instituições culturais estão cientes de que têm um problema: perderam a confiança do público ou participação no mercado, ou ambos. Os líderes das maiores universidades americanas gostariam de ter mais diversidade ideológica e credibilidade nacional. Os líderes das grandes redes gostariam de se livrar do modelo falido de programas de TV noturnos. Os líderes da Disney gostariam de descobrir como voltar a produzir entretenimento unificador.

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Mas eles ainda estão lidando com pressões ideológicas internas — então, para poderem fazer reformas, precisam de pressão externa para fazer a coisa certa.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa no memorial de Charlie Kirk, ativista conservador assassinado no dia 10 de setembro Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP

Esse é o discutível propósito cívico da guerra cultural do governo Trump. Às vezes, ela assume uma forma sistemática, como os esforços para induzir as universidades a mudar a forma como admitem, contratam e lidam com questões de liberdade de expressão. Às vezes, aproveita-se de alvos de oportunidade, como um apresentador de programa noturno atacando de forma bizarra e ofensiva a “gangue MAGA” por reconhecer corretamente que assassino de um ícone conservador era provavelmente de esquerda. Mas, em cada caso, o objetivo é dar às instituições culturais uma razão ou uma desculpa para voltar ao grande centro americano.

Essa perspectiva tem mérito, mas também tem um problema crucial: o presidente dos Estados Unidos não compartilha dela. Ou melhor, ele ficaria feliz em ir além, em direção a um mundo onde a maioria das instituições culturais fosse simplesmente subserviente aos seus interesses pessoais, à sua reputação, ao seu amor-próprio. Onde os jornalistas fossem culpados de “discurso de ódio” se fossem maldosos com ele. Onde um jornal como o The New York Times tivesse de pagar a ele uma indenização altíssima por subestimar sua celebridade e genialidade. Onde a guerra cultural fosse uma forma de empoderar e enriquecer seus amigos.

Certos argumentos conservadores atualmente giram em torno dessa realidade — em torno das coisas que o próprio Trump diz, dos processos judiciais mais bizarros que ele move, das ameaças mais grosseiras que ele profere.

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Os conservadores criticarão os subordinados da Casa Branca, como Pam Bondi, por serem demasiado hostis à liberdade de expressão. Mas Trump é o líder, o instigador, o rei — ainda não aposentado, na verdade mais poderoso do que nunca.

Portanto, por mais que a direita justifique sua contraofensiva cultural para si mesma, para o país como um todo isso pode parecer uma repetição do auge do politicamente correto — mas, em vez de lealdade a uma nova ideologia estranha, a exigência indesejada é lealdade ao próprio Trump.

Opinião por Ross Douthat