É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais. Escreve uma vez por semana.

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Cúpula do Alasca foi um sucesso retumbante para Vladimir Putin

Líder russo foi recebido com aplauso e não cedeu na exigência básica de Trump: o fim da guerra

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Foto do autor Lourival Sant'Anna

Por que encontro entre Trump e Putin no Alasca sobre a guerra na Ucrânia pode ser histórico? Entenda

Presidentes da Rússia e dos EUA terão reunião inédita em solo americano para discutir possível trégua no conflito. Crédito: Gabriella Lodi, Daniel Gateno e Carol Marins | Estadão

A cúpula do Alasca foi um retumbante sucesso. Para Vladimir Putin. O ditador russo não recuou um milímetro sequer de sua posição, subverteu a ordem estabelecida por Donald Trump para a negociação -- primeiro a Ucrânia, depois acordos econômicos -- e ainda saiu com a promessa do presidente americano de uma nova cúpula em breve.

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Plenamente ciente do que é prioritário para Trump, o líder russo começou seu pronunciamento responsabilizando Joe Biden pela guerra. Putin reclamou que nos últimos quatro anos não houve diálogo entre Rússia e Estados Unidos, embora ele tivesse tentado. E presenteou Trump com um: “Você tem razão, se você fosse o presidente a guerra não teria acontecido”.

Por trás dessa bajulação há uma constatação macabra. A guerra não teria acontecido porque Trump teria obrigado a Ucrânia a se submeter aos desígnios de Putin. Isso fica claro na fórmula da “troca de territórios” enunciada pelos americanos antes da cúpula.

Como a Ucrânia não ocupa território russo, com exceção de 10 km2, e a Rússia ocupa um quinto do território ucraniano (114.500 km2), essa troca significa: a Ucrânia cede áreas que a Rússia anexou ilegalmente mas não conseguiu ocupar militarmente e em troca os russos abrem mão de outras áreas que também não ocupam, mas gostaria.

O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o presidente russo, Vladimir Putin, na pista após a chegada à Base Conjunta Elmendorf-Richardson, em Anchorage, Alasca, em 15 de agosto de 2025. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Trump havia dito antes da cúpula que só haveria negociações de acordos econômicos se as tratativas sobre a guerra na Ucrânia progredissem na direção de um cessar-fogo.

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Tanto assim que as equipes econômicas -- Scott Bessent do Tesouro e Howard Lutnick do Comércio do lado americano -- só se reuniriam depois da discussão política, que envolveu o secretário de Estado americano Marco Rubio e o enviado Steve Witkoff, pelos EUA, e o chanceler Seguei Lavrov e o assessor de política externa Yuri Ushakov, pela Rússia.

Isso não aconteceu. Ao falar da guerra, Putin repetiu a fórmula que emprega desde antes de invadir a Ucrânia: É preciso endereçar as causas fundamentais do conflito”. Referiu-se à Ucrânia como “nação irmã”, que não é uma demonstração de afeto: na doutrina de Putin significa que ela pertence à Rússia.

O ditador disse que Rússia e Estados Unidos precisam reatar as relações econômicas, e a partir daí chegar a um acordo sobre a Ucrânia. Trump não aceitou diretamente essa inversão na ordem por ele pré-estipulada. Disse que ambos tinham discordado sobre uma questão substancial, aparentemente se referindo à guerra, e que telefonaria para o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, e governantes europeus, como havia prometido.

Entretanto, mesmo antes de consultá-los, Trump declarou que espera voltar a falar em breve com Putin, de preferência pessoalmente. O ditador russo atalhou: “Em Moscou”. Trump respondeu: “Isso seria interessante. Eu seria muito atacado por isso, mas posso ver acontecendo”.

O almoço ampliado com a equipe econômica e de defesa, seguido de reuniões à tarde, como estava previsto, não aconteceu. Ambos os presidentes embarcaram em seus aviões. Putin, trazendo na bagagem a sua consagração como o líder que colocou a Rússia de volta ao patamar dos EUA – cujo presidente o recebeu com aplauso e uma carona em sua limusine. E sem ceder na exigência básica de Trump: o fim da guerra.

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Já Trump sai de mãos abanando, mas traz consigo sua capacidade inesgotável de reconfigurar a realidade segundo a sua autoimagem de mestre da negociação e salvador da pátria.

Opinião por Lourival Sant'Anna

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais