Por que encontro entre Trump e Putin no Alasca sobre a guerra na Ucrânia pode ser histórico? Entenda
Presidentes da Rússia e dos EUA terão reunião inédita em solo americano para discutir possível trégua no conflito. Crédito: Gabriella Lodi, Daniel Gateno e Carol Marins | Estadão
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Nos dias que antecederam a reunião com o presidente russo Vladimir Putin no Alasca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retomou a proposta de trocas territoriais como um acordo possível para alcançar o fim da guerra na Ucrânia. O plano tem chances baixas de ir adiante - o líder ucraniano Volodmir Zelenski o rejeita -, mas leva a atenção até o campo de batalha e seus últimos acontecimentos.
Apesar de ter conquistado cerca de 30% do território ucraniano no início da invasão, em 2022, a Rússia perdeu uma parte desta área e consolidou o domínio nas regiões do leste ucraniano, em especial Luhansk e Donetsk. A Rússia voltou a conquistar território há um ano, mas em um ritmo lento e instável.

Os avanços russos na Ucrânia, no entanto, foram acompanhados por derrotas. Em um ataque surpresa no ano passado, a Ucrânia invadiu a região russa de Kursk e chegou a ter controle de 1.270 km². Foi o único momento da guerra em que Zelenski falou sobre trocas de terras. A Rússia, no entanto, recuperou grande parte do território. As tropas ucranianas continuam na região, mas hoje detém apenas 10 km² - área pequena para o que propõe Trump.
Segundo analistas, a situação no campo de batalha reflete diretamente nas negociações entre Trump e Putin desta sexta-feira.
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Território dividido
A Ucrânia é um país com cerca de 603.700 km², incluindo a Crimeia - tamanho próximo ao estado de Minas Gerais. Hoje, cerca de 114.500 km² desta área são controlados pela Rússia, sobretudo no leste.
A área sob controle russo corresponde a 19% do país, segundo os mapas do Instituto para o Estudo da Guerra, sediado nos EUA. Ela engloba toda a região de Luhansk, cerca de três quartos das regiões de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia e uma fatia pequena de terra em Kharkiv e Sumi, no norte.

Hoje, a campanha russa tenta consolidar o controle em Donetsk, Zaporizhzhia (onde está localizada a maior usina nuclear da Europa, hoje sob controle russo) e Kherson. A Rússia realizou referendos no início da guerra para anexar todas essas regiões - assim como fez na Crimeia em 2014 -, mas nunca obteve o controle total.
Acredita-se que uma das exigências de Putin para o fim da guerra seja a entrega destes territórios por parte da Ucrânia. Historicamente, a região concentra russos étnicos e há pelo menos uma década está em conflito. Grupos pró-Rússia buscavam estabelecer uma república independente de Luhansk e Donetsk até a invasão russa em 2022.
Avanços no leste e no norte
Na última semana, analistas militares disseram que a Rússia avançou cerca de 15 km no leste ucraniano através de um corredor paralelo a Dobropillia, uma cidade com mineração de carvão importante para a logística da Ucrânia. Isso acontece em um momento crítico para a Ucrânia, cujo exército lida com escassez de mão de obra e munição.
Os ucranianos tem uma linha defensiva na região, o que dificulta os avanços russos, de acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra.
No norte, a Rússia avança em direção a Kupiansk, na região de Kharkiv, para consolidar o controle de Luhansk e cercar o norte de Donetsk. Próximo à fronteira com a Rússia, as tropas de Putin também avançaram na intenção de criar uma zona de proteção de suas fronteiras, após os ataques ucranianos em Kursk. Eles também tentam se aproximar de Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia - e que a Rússia controlou por um tempo.

Na semana passada, Zelenski minimizou esses avanços, com o argumento de que Moscou quer criar propaganda para barganhar na negociação desta sexta-feira.
De acordo com o analista ucraniano Oleksandr Slivchuk, coordenador no Transatlantic Dialogue Center, um centro de estudos com sede em Kiev, os avanços não são sólidos como parecem. “A Rússia, de vez em quando, captura algumas vilas, e a Ucrânia depois retoma o controle sobre algumas. É uma frente em movimento”, declarou.
Existência de terras raras
A disputa por território também é uma disputa pelos recursos minerais. Os EUA fecharam um acordo com a Ucrânia em abril para ter acesso a minerais essenciais para a indústria bélica, mas uma parte deles - em especial, os chamados minerais raros - estão em áreas hoje sob controle da Rússia.

O acesso a esses minerais é uma das principais agendas de Trump e deve estar na mesa de negociações desta sexta. O acordo entre Washington e Kiev estabelece um “fundo de investimento para reconstrução” para a Ucrânia e foi alcançado após os EUA associarem ele à continuidade do apoio americano, embora não haja garantias explícitas disso. Kiev está vinculada a ele independentemente de um acordo de paz ser firmado com a Rússia.
Para Carlos Gustavo Poggio, professor de ciência política do Berea College, o acesso a esses minerais é um dos maiores interesses de Trump no encontro com Putin. O outro grande interesse, acrescentou Poggio, é um acordo que o faça parecer pacificador. “Se os EUA conseguirem acesso a esses recursos, certamente seria um elemento a mais que faria Trump forçar algum tipo de acordo”, declarou.
Ofensiva ucraniana em Kursk
Com os ataques em território russo no ano passado, a Ucrânia também chegou a ter o controle de 1.270 km² da região russa de Kursk. A área poderia ter sido utilizada como moeda de negociação, mas a Rússia conseguiu recuperar a maior parte do território ao longo deste ano. Segundo os informes do Instituto para o Estudo da Guerra, o controle ucraniano atual em Kursk é de apenas 10 km².
A Rússia mobilizou uma força de cerca de 50 mil soldados, incluindo pelo menos cerca de 10 mil da Coreia do Norte, para expulsar os ucranianos. A retomada foi seguida por um avanço russo no norte da Ucrânia, mas as batalhas ficaram restritas a pequenas aldeias na fronteira.

A ofensiva ucraniana em Kursk foi o único momento do conflito em que o presidente ucraniano Volodmir Zelenski falou em troca de território. Desde que recuperou a terra, Putin tenta estabelecer uma zona de proteção na região.






