Má gestão da pandemia abala imagem política de ultraortodoxos em Israel 

A crise de saúde gerou tensões com os ultraortodoxos, acusados por parte da população de serem parcialmente responsáveis pela circulação do vírus no país

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Por Redação
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JERUSALÉM - Pela primeira vez em sua vida, Aharon não votará em um partido ultraortodoxo nas eleições legislativas de Israel. Por quê? Ele considera que os líderes de sua comunidade se revelaram incapazes de enfrentar a pandemia de coronavírus.

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Este pai de três filhos, que prefere não revelar o sobrenome, não votará, na próxima terça-feira, 23, no Judaísmo Unificado da Torá (JUT), o partido ultraortodoxo ashkenazi. "Pensava que (diante da pandemia) reagiriam de maneira imediata, claramente. Em vez disso, eles foram 'cinzas', o que em hebraico significa que não fizeram nada", lamenta Aharon, que votará em um candidato da direita radical, Bezalel Smotrich.

A crise de saúde gerou tensões com os ultraortodoxos, acusados por parte da população de serem parcialmente responsáveis pela circulação do vírus no país.

Judeu ultraortodoxo caminha por uma estação de trem vazia, em Jerusalém Foto: Abir Sultan / EFE

As imagens de uma multidão de "haredim" ("tementes a Deus" em hebraico) no funeral de um rabino, no fim de janeiro em um bairro de Jerusalém, enquanto Israel estava no terceiro confinamento rígido, circularam por todas as redes sociais. E a própria comunidade ultraortodoxa acabou dividida, segundo os analistas.

Alguns "haredim" tiveram uma reação "clássica" e denunciaram uma "caça às bruxas" por parte do restante do país e da imprensa, afirma o rabino Yehoshua Pfeffer, diretor de redação do site ultraortodoxo Tzarich Iyun.

Outros reagiram de maneira mais "reflexiva", questionando como uma comunidade que se considera moralmente mais elevada ao respeitar a interpretação estrita do judaísmo tornou-se a mais criticada na crise de saúde, completou Pfeffer. "Se fôssemos tão retos, tão moralmente irrepreensíveis deveríamos ter administrado tudo isso tão bem quanto os outros, ou melhor", disse.

Aharon já pensou em abandonar o mundo ultraortodoxo, que vive voltado para si mesmo, mas sua família e amigos haredim o convenceram a desistir da ideia.

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Quando a pandemia começou, Aharon esperava que seu partido - que tem como líder o rabino Yaakov Litzman, que era o ministro da Saúde do país - destacasse a importância do respeito às normas de saúde, mesmo que isso afetasse a vida religiosa, assim como os encontros nas sinagogas, funerais e casamentos.

Quando os rabinos influentes insistiram em que as escolas deveriam permanecer abertas, e os deputados do JUT não falaram nada, isso demonstrou a influência das autoridades religiosas sobre a política e o bem-estar da comunidade, avalia Aharon.

'Cético'

O eleitorado ultraortodoxo "é cada vez mais cético" a respeito de seus líderes, opina Benjamin Brown, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e especialista do tema. A tendência ainda é minoritária, mas "pode ser cada vez mais importante".

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Pnina Pfeuffer admite que é uma exceção na sociedade ultraortodoxa. Esta mulher de 42 anos, divorciada e mãe de dois filhos, fundou o grupo "Novos haredim", que promove os valores progressistas em sua comunidade.

Ela afirma que a pandemia revelou os problemas de liderança política dentro da minoria ultraortodoxa. "Os haredim não consideram os líderes políticos como chefes (...) A liderança continua sendo a dos rabinos", apontou.

Essa comunidade passou em poucos anos de uma "pequena minoria para uma grande minoria", pois agora representa 12% da população de Israel e, sobretudo, gera 40% dos nascimentos do país.

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Pnina Pfeuffer fundou grupo para promover valores progressistas em sua comunidade ultraortodoxa Foto: Emmanuel Dunand/AFP

Um elevado índice de desemprego, a rejeição a introduzir matemática na educação e a intransigência de seus líderes diante da pandemia são realidades da vida dos haredim que impactam o restante de Israel, segundo Pfeuffer.

Para ela, a gestão da pandemia pelos rabinos ortodoxos permitiu uma "tomada de consciência" entre os ultraortodoxos, que devem agora decidir "o que vão fazer no futuro"./AFP

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