O presidente da Argentina, Javier Milei, ainda tenta recalcular a rota após a derrota contundente que sofreu nas eleições da província de Buenos Aires há mais de uma semana. Na segunda-feira, 15, à noite, ele foi em rede nacional anunciar o plano de Orçamento para 2026, com aumento para os setores até então mais impactados pela sua política de ajuste fiscal. O pequeno freio na motosserra visa evitar uma nova derrota, agora nas eleições legislativas nacionais de 26 de outubro.
Um Milei muito diferente apareceu na televisão dos argentinos ontem. O tom estava mais controlado, tanto em voz quanto em palavras. Não houve uma menção sequer às tradicionais ofensas do presidente libertário à “casta”, os “degenerados fiscais” ou até mesmo “kirchnerismo”. Milei falou em diálogo, disse reconhecer “os esforços dos argentinos” nos últimos dois anos e pediu um pouco mais de paciência. “O pior já passou”, garantiu.
O presidente anunciou, embora sem detalhar, o plano de Orçamento para 2026 que enviará ao Congresso. É o primeiro Orçamento de seu governo que em breve completará dois anos. Até o momento, o governo vem trabalhando com um Orçamento de 2023 congelado, em uma economia que sofreu enormes flutuações inflacionárias e cambiais.

O projeto prevê o envio de 4,8 trilhões de pesos argentinos (R$ 17 bilhões) para as universidades federais, aumenta em 5% acima da inflação o gasto com aposentadorias, 17% em saúde, 8% em educação e 5% para as pessoas para as pessoas com deficiência, todos acima da inflação.
“É por isso que quero dizer a todos os argentinos: além do sucesso que nossa administração teve em corrigir o desastre que durou décadas, entendemos que muitos ainda não o percebem em sua realidade material”, afirmou Milei, reconhecendo que, apesar da melhora dos dados econômicos, especialmente a inflação, os argentinos têm reclamado de não sentir essa melhora no dia a dia.
Gostaria de ressaltar que, dada a forma como o plano de governo foi configurado, os anos mais difíceis de enfrentar foram os primeiros, e é por isso que podemos afirmar, como já fizemos tantas vezes, e apesar da turbulência atual, que o pior já passou.
Javier Milei em discurso no dia 15 de setembro
“Acho que a mudança mais importante foi em termos discursivos. O que se viu ontem foi um Milei bastante mais moderado e, além disso, reconhecendo a derrota”, observa o economista argentino Juan Manuel Telechea. “De certa forma fazendo uma espécie de autocrítica, dizendo que ‘às vezes nos deixamos levar pela emoção e isso pode nos levar a cometer erros’ e, acima de tudo, reconhecendo que a população está dizendo que o ajuste tem limites”.
Parece-me que se trata mais de uma mudança no discurso para tentar atrair votos após a derrota nas eleições provinciais e pensando em outubro, mas em termos da sua política econômica, não vejo grandes mudanças.
Juan Manuel Telechea, economista e autor do livro ‘Inflação! Por que a Argentina não consegue superá-la?’
Em 7 de outubro, a coalizão libertária ficou quase 14 pontos percentuais atrás dos peronistas nas eleições da província de Buenos Aires. A derrota foi muito maior do que qualquer pesquisa pôde prever. O resultado dá um recado sombrio para o governo que precisa aumentar seu apoio até as eleições legislativas de outubro, quando se renovam metade do Congresso e um terço do Senado.
Os setores mais beneficiados
Educação, saúde, aposentados e pessoas com deficiência são exatamente os setores sociais mais afetados pelo ajuste fiscal de Milei e talvez os que castigaram o governo com a derrota eleitoral em Buenos Aires.
Sem Orçamento, as universidades públicas argentinas não conseguiam pagar nem mesmo suas contas básicas. Em um episódio emblemático, a prestigiosa UBA (Universidade de Buenos Aires) apagou suas luzes para economizar energia no começo de 2024. O governo então enviou dinheiro suficiente para sustentar as contas, mas não para pagar os funcionários, o maior custo das instituições. Um projeto de lei que pretendia revisar o orçamento das universidades foi aprovado pelo Congresso, mas vetado pelo presidente em 10 de setembro.
Leia mais
Derrota de Milei em Buenos Aires ameaça plano econômico e pressiona fim de mandato do argentino
Peronismo triunfa na província de Buenos Aires, em derrota amarga para Milei
Escândalo de corrupção desgasta imagem de Milei antes de eleições na Argentina
Um caso semelhante é o dos hospitais públicos, especialmente os universitários, nos quais médicos e residentes estão com salários defasados.
No mesmo barco estão os idosos, cujas aposentadorias foram congeladas nos primeiros meses do governo libertário e agora as correções não cobrem o salto inflacionário do passado. Com isso, os aposentados passaram a viver no limiar da linha da pobreza, com muitos retornando ao trabalho para complementar a renda.
As pessoas com deficiência vivem uma situação semelhante aos aposentados, com o agravo do escândalo de corrupção que supostamente envolve a irmã do presidente, Karina Milei. Áudios vazados por um ex-funcionário da agência de deficiência - que era amigo e advogado pessoal de Milei - acusam Karina de receber 3% de propina na compra de medicamentos para pessoas com deficiência.
São justamente esses os setores que protagonizaram as maiores manifestações contra o governo em 2024 e seguem até hoje com marchas pontuais. Aposentados e familiares de pessoas com deficiência se manifestam todas as quartas-feiras em frente ao Congresso Nacional pedindo reajustes. Já os universitários e docentes convocaram uma nova grande marcha para amanhã após o veto presidencial ao Orçamento.
Nesta terça-feira, 16, os setores reagiram aos anúncios dos presidente, considerando-os insuficientes. Primeiro pelos valores, muito abaixo do necessário; segundo pelo tempo, já que o Orçamento proposto só entra em vigor ano que vem.

“É uma iniciativa direta que consolida os ajustes no sistema universitário”, classificou em nota o Conselho Interuniversitário Nacional, que reúne os reitores das universidades federais do país. “Os 4,8 trilhões de pesos [...] estão muito aquém dos 7,3 trilhões de pesos necessários para o sistema funcionar normalmente.”
“Em outras palavras, o Orçamento para 2026 é praticamente o mesmo que para 2025, um ano em que enfrentamos perigos. Portanto, está sendo apresentado um projeto que consolida a perda e aprofunda os ajustes no sistema universitário e científico”, completa.
“Após dois anos sem Orçamento aprovado, com prorrogações desatualizadas e após registrar em 2025 o menor investimento em educação superior dos últimos 20 anos, a proposta orçamentária de 2026 consolida todos os cortes implementados no último ano e meio e ameaça levar o sistema universitário a um nível de deterioração sem precedentes”, endossa a UBA em comunicado.
“Quando se olha para os números, não se vê [mudança], por isso digo que é mais discursivo do que na realidade, porque os aumentos que, pelo menos até agora, os especialistas preveem, tanto em termos de educação como de aposentadorias, são muito pequenos ou estão abaixo da inflação, pelo que não se veem aumentos reais, como foi referido ontem”, afirma Telechea.
O que Milei fez foi passar a motosserra no início de seu mandato, diminuindo drasticamente os gastos públicos e depois manteve-os assim. E o que ele está fazendo agora é mantê-los congelados nesses níveis. Por isso esses aumentos que são muito pequenos ou até mesmo estão abaixo da inflação. Parecem mostrar que ele ratifica o rumo de manter os gastos públicos congelados, sem concessões em termos de aposentadorias, salários públicos, educação, etc..
Juan Manuel Telechea, economista e autor do livro ‘Inflação! Por que a Argentina não consegue superá-la?’
Apaziguamento
Já no dia da derrota em Buenos Aires, Milei mostrou moderação no discurso, reconhecendo o resultado quase imediatamente. Também fez uma autocrítica. No discurso de ontem o libertário quase parecia pedir desculpas aos argentinos pela situação econômica que ele havia prometido que iria melhorar depois do primeiro ano.
“A última vez que a Argentina teve superávit fiscal, sem estar em default, foi há mais de 120 anos. Nenhum argentino vivo jamais experimentou a Argentina que estamos construindo. É justamente por isso que às vezes ficamos excessivamente entusiasmados, porque estamos emocionados com o futuro que vemos no horizonte. Mas é justamente por isso que, desta vez, o esforço que todos os argentinos estão fazendo vale a pena”, afirmou.

O presidente tentou responder a um sentimento de pessimismo que as últimas pesquisas capturaram nos argentinos. Passados os dois primeiros anos do primeiro governo libertário do mundo, a população se diz agora sem esperanças para o futuro.
Milei também tenta arrumar a bagunça que fez em seu relacionamento com deputados, senadores e os governadores das províncias. Depois de chamá-los de degenerados fiscais por pedir o retorno dos repasses federais, Milei agora fala em “trabalhar lado a lado”.
Os governadores são peça essencial de atração de votos nas eleições legislativas. O partido libertário não possui nenhum governador eleito, dependendo dos líderes dos partidos de direita e até de alguns peronistas não-kirchneristas.
“O que estamos propondo não é uma utopia. É o que podemos alcançar se construirmos o consenso necessário para implementar as reformas fundamentais de que o país precisa. Tenho certeza de que, trabalhando lado a lado com os governadores, deputados e senadores que querem uma Argentina diferente, conseguiremos”, disse.






