Há alguns anos, um funcionário da rede de hotéis Marriott estava de plantão em Omaha, no Nebraska, no meio dos Estados Unidos. O trabalho dele era cuidar das redes sociais da empresa. Numa madrugada, ele curtiu um tweet, de um grupo pró-Tibete, agradecendo a Marriott por listar o Tibete como “país” num questionário enviado a clientes.
Só isso.
O governo chinês mandou a Marriott tirar do ar seus sites e aplicativos na China por uma semana. A empresa pediu desculpas públicas – em chinês. E demitiu o funcionário, Roy Jones, de49 anos.
Corta para maio de 2026. Longos oito anos depois. A Lululemon, marca canadense de roupa de ginástica, organiza um festival de ioga na Muralha da China para celebrar dez anos no país. Com direito a duas mil pessoas e uma apresentação de tambores.

Dias depois, um percussionista chinês repara num detalhe: o tambor usado no evento parecia um taiko – um tambor japonês –, e não um tambor tradicional chinês.
A Lululemon teve que pedir desculpas públicas, apagar todo o material promocional e prometer tomar mais cuidado.
Por um tambor.
Há uma expressão em chinês para isso: “ferir os sentimentos do povo chinês”. 伤害 了 中国 人民 的. Há décadas, Pequim utiliza dessa tática como intimidação diplomática. É um instrumento político poderoso. Há até verbete na Wikipedia a respeito.
Segundo o pesquisador David Bandurski, entre 1959 e 2015, o Diário do Povo utilizou 143 vezes da tática “ferir os sentimentos do povo chinês”. O Japão lidera a corrida de ofensas, com 51 acusações. Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com 35.
Até 2009, 42 países haviam sido acusados de ofensa à China. E não apenas nações desenvolvidas, mas também Guatemala, Malawi, Honduras e Nicarágua.
Durante as Olimpíadas de Pequim, em 2008, a expressão foi usada tantas vezes que provocou uma onda de posts e artigos nos veículos ocidentais tentando entender por que o governo chinês ficava magoado com absolutamente qualquer coisa.
Só o Diário do Povo utilizou a expressão “ferir os sentimentos do povo chinês”, acusando nações e organizações de desrespeitar a China, 88 vezes nos meses que antecederam as Olimpíadas de 2008.
Em 2023, o Congresso chinês propôs uma emenda à lei de segurança pública punindo com até 15 dias de detenção, sem julgamento, quem usasse em público roupas ou símbolos que “ferissem os sentimentos da nação chinesa”. Aconteceu o inesperado: a própria sociedade chinesa reagiu. Em uma semana, cerca de cem mil pessoas mandaram críticas ao projeto pelo site do Congresso Nacional do Povo. Juristas chineses perguntaram, publicamente: quem define o que fere os sentimentos da nação? Um policial de esquina?
Na coluna em vídeo acima, no programa Fronteiras, Rodrigo da Silva explica melhor essa história.
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Cortes do programa são distribuídos ao longo da semana nas redes sociais e na coluna semanal de Rodrigo da Silva, publicada às segundas-feiras, às 20h.
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