Dá para dizer que a ONU nasceu das cinzas de uma guerra que quase destruiu o planeta. Criada como um gesto de esperança, em 1945, também foi concebida como um símbolo do desespero – uma tentativa coletiva de impedir que a humanidade voltasse a mergulhar no abismo da autodestruição.
No início, a organização foi pensada como uma estrutura que transcendesse os interesses particulares dos países, uma mesa onde povos de diferente origens pudessem dialogar antes de recorrer às armas. Mais do que isso: foi desenhada como um instrumento da ideia de que a paz não é só a ausência da guerra, mas a presença da justiça e da dignidade.
A geração de líderes que projetaram a ONU não estava apenas interessada em reconstruir o que havia sido destruído, mas em reinventar a maneira como as nações conviviam. E não é preciso muito esforço para reconhecer o mérito nessa execução. Basta dizer que, desde 1945, o mundo não experimenta uma guerra direta entre grandes potências – o que já é, por si só, uma anomalia.

Antes da criação da ONU, os conflitos entre impérios, reinos e estados poderosos era quase uma constante cíclica. Grandes nações se enfrentavam em recorrência, como se a guerra fosse parte inevitável das suas relações.
É claro que isso não significa que o mundo repousou sereno, em berço esplêndido, nos últimos 80 anos. Com a ONU, a humanidade também registrou genocídios, guerras por procuração, conflitos e intervenções militares brutais. Mas nos 80 anos anteriores a 1945, as guerras (sobretudo as mundiais), com seus efeitos diretos e indiretos, mataram 5 vezes mais seres humanos do que nos 80 anos seguintes. E se é verdade que a ONU não foi a única responsável por esse feito, tampouco dá pra dizer que ela é um asterisco nessa história.
Mas esse não é o único retrato possível da organização. Ao longo do tempo, a ONU também foi repetidas vezes vítima das suas próprias estruturas, idiossincrasias e contradições.
Há inúmeras críticas possíveis à organização: falta de eficiência em prevenir conflitos e massacres, hipocrisia, ausência de verdadeira representatividade entre países, burocracia, corrupção, viés ideológico.

O seu maior trunfo – o Conselho de Segurança – é também a sua maior fraqueza. Basta um veto de um dos cinco membros permanentes para paralisar qualquer resolução. Na prática, isso inviabiliza qualquer ação contra Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.
A ONU age com frequência de forma impotente em momentos em que o mundo precisa dela. Em parte porque carece de mecanismos de enforcement. Em parte por covardia.
Ruanda, por exemplo, viveu em 1994 uma das maiores tragédias do século 20. Por 100 dias, 800 mil pessoas foram massacradas a sangue frio no país, muitas com facões. Mas enquanto os corpos se acumulavam nas ruas e nos rios, a comunidade internacional desviou os olhos.
A ONU estava em Ruanda, numa missão de paz liderada pelo general Roméo Dallaire – que pediu autorização para agir. E o que ele recebeu foi silêncio. Mais do que isso: ordens para não interferir. A missão chegou a ser reduzida quando os primeiros massacres começaram.
Um ano depois, na cidade bósnia de Srebrenica, milhares de muçulmanos bósnios buscaram abrigo numa área declarada segura pela ONU. A proteção, no entanto, era ilusória. As tropas de paz estavam mal armadas, sem reforços, sem autonomia para usar a força, presas a regras sem sentido e a uma cadeia de comando covarde.
Leia também
80 anos da ONU: reunião ocorre em meio a guerras, crise e desconfiança
Trump volta à ONU colocando em xeque as regras que criaram a entidade
As opções da ONU em seu futuro sombrio: uma revolução, decadência ou ‘trumpificação’
Quando os sérvios avançaram sobre a cidade, os soldados ficaram de mãos atadas, assistindo impotentes aos trens que levavam meninos e adultos para os campos de execução. Em poucos dias, mais de 8 mil pessoas foram assassinadas – enterradas em valas comuns, muitas ainda vivas.
As missões de paz, criadas para proteger civis e garantir cessar-fogos, também costumam enfrentar outra mazela: denúncias de abusos sexuais, muitas vezes contra as mesmas populações que elas deveriam proteger. Histórias de estupros, exploração e coerção não são incomuns.
No Congo, em 2004, soldados em missão de paz se envolveram em uma rede de exploração sexual que incluía menores de idade e transações em que meninas eram abusadas em troca de ovos e leite em pó.
No Haiti, onde a presença da ONU durou mais de uma década, um relatório da Associated Press revelou que centenas de mulheres e meninas foram exploradas sexualmente pela missão de paz. Muitas engravidaram e foram abandonadas.
Há também corrupção em larga escala. Um dos casos mais emblemáticos é o do Petróleo por Alimentos. Criado em 1996, o programa tinha uma proposta nobre: permitir que o Iraque, enterrado sob sanções econômicas após a Guerra do Golfo, vendesse petróleo em troca de alimentos, remédios e outros bens humanitários. Na prática, porém, o programa se tornou uma máquina de desvio de recursos.
Em primeiro lugar, Saddam Hussein explorou as suas brechas como pode, em manobras que lhe garantiram quase US$ 2 bilhões em receitas ilícitas. Mas além dele, investigadores descobriram que funcionários da ONU – como Benon Sevan, que coordenava o programa –, políticos estrangeiros e empresas privadas estavam envolvidos em esquemas de propina e contratos superfaturados. Até Kojo Annan, filho do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, estava envolvido no escândalo.
Também há os casos de má gestão nas agências da ONU. Nas últimas décadas, instituições como o UNOPS, a UNICEF e o ACNUR estiveram envolvidas em diferentes casos de contratos obscuros, propina, favorecimento de fornecedores e fraude.

Isso acontece porque a ONU não está acima das patologias comuns ao poder – favoritismo, má gestão, filhotismo. Mas ao contrário de um governo nacional, ela não responde a uma população com direito de voto – nem tem a imprensa no seu calcanhar diário. A sua prestação de contas depende de um sistema interno muitas vezes fragmentado, lento e politicamente sensível. As agências possuem autonomia operacional, mas podem operar sem mecanismos de controle que garantam integridade.
É claro que esses escândalos não invalidam o trabalho que essas organizações realizam em contextos de guerra, fome e colapso social. Há muitas coisas positivas a respeito delas. Mas a ONU vive da confiança que representa. E quando essa confiança é quebrada – especialmente em nome da proteção das crianças e da paz – o que se perde não é apenas dinheiro. É a crença de que o multilateralismo pode ajudar o planeta a ser um lugar mais seguro.
Outro problema é a hipocrisia. Enquanto a ONU é acusada de ser excessivamente progressista e politicamente correta, também cede espaço para diplomatas de regimes autoritários debaterem os méritos da liberdade de expressão, da independência do judiciário e do direito à manifestação política.
No Conselho de Direitos Humanos, composto por 47 Estados-membros, a presença de ditaduras e regimes autoritários é frequente – e eleitos por seus pares, não apenas sentando à mesa para o diálogo, mas ditando regras. Com frequência, só 30% dos membros do conselho são países considerados livres.
E a hipocrisia não é apenas estética. Ela tem efeitos reais: bloqueia resoluções, enfraquece investigações, relativiza abusos. Quando a Síria foi julgada por crimes contra civis, quando a China foi acusada de repressão sistemática contra uigures, quando o Irã foi pressionado pelas suas execuções públicas, houve resistência dentro do próprio conselho. E resistência gera inação.
A participação de funcionários da ONU em escândalos envolvendo grupos terroristas (como acusações de pessoal do UNRWA colaborando com o Hamas) só ajudam a enfraquecer a imagem de que a organização é comprometida com os valores da sua carta fundadora.
Todos os anos, no mês de setembro, líderes do mundo inteiro se reúnem na sede da ONU, em Nova York, para debater as questões mais importantes da humanidade. É o que está acontecendo nessa semana.
No último século, se o mundo muito mudou, a ONU pouco fez para acompanhar esse ritmo. E sem reformas profundas, o risco de irrelevância da organização é uma ameaça ao próprio modelo institucional que, paradoxalmente, ajudou a tornar o planeta mais seguro nesses 80 anos. O déficit de confiança do público é perfeitamente compreensível.
Em última instância, a relevância da ONU no século 21 será determinada pela capacidade da comunidade internacional reinventar o multilateralismo. Como fez a geração de 1945. Esse deveria ser o debate mais urgente da Assembleia Geral.
Afinal, pra que serve a ONU?









