Uma compreensão visual e analítica do que está acontecendo no mundo

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Não se engane com o discurso: Trump abandonou a Ucrânia desde o início

Trump vem sendo o presidente mais pró-Rússia da história americana.

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Foto do autor Rodrigo da Silva

Trump elogia terno de Zelenski e faz piada sobre EUA não ter eleição se entrar em guerra

Para o encontro de hoje, líderes europeus também viajaram a Washington para apoiar Zelenski e garantir que ele não cairia em uma nova provocação de Trump. Crédito: Casa Branca/YouTube

Quando a Rússia liderou a sua invasão em larga escala à Ucrânia, em fevereiro de 2022, Kiev pode contar com os Estados Unidos.

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Até o final de 2024, os americanos destinaram um volume histórico de ajuda ao país: cinco pacotes que, juntos, geraram US$ 175 bilhões de apoio aos ucranianos.

A maior parte, claro, de natureza militar: 71%. Outros 24% foram destinados ao desenvolvimento econômico da Ucrânia. O resto foi consumido em ajuda humanitária.

Durante todo governo Biden, os Estados Unidos responderam por metade de toda ajuda militar recebida pela Ucrânia. Só via USAID e outros programas da mesma natureza, os Estados Unidos pagaram salários de professores e socorristas ucranianos, financiaram assistência a famílias deslocadas e cobriram lacunas no orçamento do governo ucraniano.

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, conversa com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Nova York Foto: Evan Vucci / AP

Com Biden, o governo americano e sancionou mais de 4.500 alvos russos (pessoas, empresas, bancos, navios) – incluindo Putin e seus principais ministros, oligarcas próximos ao Kremlin, os maiores bancos russos, empresas de defesa e energia, e até facilitadores estrangeiros que ajudavam Moscou a burlar as sanções.

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Entre 2022 e 2024, Biden impôs uma média de 170 novas sanções por mês à Rússia. Foram 6.200 sanções em 3 anos. 5 sanções por dia.

Biden construiu a mais robusta arquitetura de sanções contra um país dos tempos modernos, superando o Irã em número de alvos. Os Estados Unidos desenharam medidas para estrangular fontes de receita de guerra (como exportações de petróleo e armas) e isolar economicamente a Rússia.

É verdade que Biden poderia ter feito ainda mais em apoio os ucranianos – sobretudo suporte para Kyiv contra-atacar a Rússia em território russo. Mas o que ele fez, em paralelo com o que vemos em 2025, não tem precedente.

O ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden discursa em um evento em Chicago Foto: Nam Y. Huh / AP

Toda política americana de apoio à Ucrânia foi abandonada assim que Trump assumiu a presidência.

A campanha de asfixia econômica praticamente estagnou. Desde janeiro de 2025, o governo Trump não impôs qualquer nova sanção significativa à Rússia. Na verdade, há alguns meses, quando o Senado propôs aprovar tarifas de, no mínimo, 500% aos países compradores de petróleo russo – o que prejudicaria sensivelmente a economia do país – Trump boicotou o projeto.

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A aprovação da medida é uma das poucas bandeiras bipartidárias do Congresso americano. Ainda assim, nessa semana, Trump voltou a repetir contrariedade à aprovação das sanções. Nessa segunda, o líder do Partido Republicano no Senado confirmou que o partido adiará a votação do projeto.

Com Trump, o apoio financeiro dos Estados Unidos à Ucrânia também foi encerrado.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma coletiva de imprensa com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, na base militar de Anchorage, no Alasca Foto: Jae C. Hong/AP

Já nos primeiros dias de governo, Trump congelou todos os programas de assistência externa dos Estados Unidos – o que atingiu profundamente a Ucrânia. Organizações de socorro que dependiam desses fundos tiveram de demitir pessoal, fechar escritórios e reduzir drasticamente as suas atividades no país.

Nessa segunda, a Bloomberg noticiou que o governo Trump também estava boicotando, no G7, o plano da União Europeia de usar ativos russos congelados para apoiar a Ucrânia (há € 210 bilhões de ativos russos congelados em instituições financeiras europeias). O que significa que Trump boicota a Ucrânia dentro e fora dos Estados Unidos.

Desde a sua cerimônia de posse, nenhum novo pacote significativo de ajuda à Ucrânia foi aprovado. Houve até uma suspensão temporária das remessas de armas em março de 2025, quando Trump pausou toda ajuda militar programada ao país, aprovada ainda no governo Biden.

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A diminuição do apoio americano, sob Trump, teve consequências consideráveis na dinâmica da guerra. Longe de encorajar Moscou a um acordo de paz, a tática de Trump apenas incentivou Putin a intensificar os seus ataques à Ucrânia.

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, conversa com jornalistas em frente a Casa Branca, em Washington Foto: Manuel Balce Ceneta/AP

Menos armas chegando significa que Kyiv precisa racionar recursos em combate. Menos apoio financeiro significa dificuldade em manter serviços básicos durante a guerra. A falta de novas sanções também dá a Putin folga para financiar o seu esforço de guerra.

Por isso, durante o governo Trump, os ataques aéreos da Rússia à Ucrânia dobraram.

2025 tem sido um ano sangrento, com combates intensos e bombardeios contínuos. No mês passado, a guerra registrou um recorde diário de ataques com drones e mísseis sobre a Ucrânia, o maior desde o início da invasão.

Trump nunca escondeu a sua empolgação com a invasão russa na Ucrânia. Em março de 2014, ele chegou a elogiar a anexação da Crimeia, prevendo que o “o resto da Ucrânia” cairia, e que era possível que caísse “rapidamente”.

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião no Kremlin, em Moscou Foto: Alexander Kazakov/ AP

Um mês depois, numa entrevista para o comentarista político Eric Bolling, da Fox Business, Trump disse que a anexação da Crimeia foi um movimento “muito inteligente” por parte de Putin e que os ucranianos estavam “prejudicando os russos”:

“Bem, ele [Putin] fez um trabalho incrível ao assumir o comando. E ele tirou isso do presidente, e você olha o que ele está fazendo – e de forma tão inteligente. Quando você vê os tumultos em um país porque eles estão prejudicando os russos, ok, ‘nós iremos e assumiremos o controle’. E ele realmente vai, passo a passo, e você tem que dar muito crédito a ele.”

Na época, Trump argumentou que o movimento pró-Rússia na Crimeia era real, e não uma “armação” – ou seja: que Putin estava libertando os russos de uma suposta opressão ucraniana.

Em fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu em larga escala a Ucrânia, Trump também elogiou o movimento russo:

“[Putin está] tomando conta de um país por dois dólares em sanções. Eu diria que isso é bem inteligente.”

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Fiona Hill, a principal autoridade em Rússia no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante o primeiro governo Trump, diz que, enquanto trabalhou com ele, Trump “não conseguia entender a ideia de que a Ucrânia era um estado independente”:

“Trump deixou bem claro que ele pensava, você sabe, que a Ucrânia, e certamente a Crimeia, deveriam fazer parte da Rússia”.

Como Trump é um sujeito intempestivo – que exige lealdade do seu entorno, enquanto é incapaz de ser leal com quem quer que seja – pode mudar a trajetória da sua política externa a qualquer momento. Mas, até aqui, ele tem sido coerente com o seu histórico – ainda que os seus discursos dúbios sugiram que ele esteja vacilando.

Trump vem sendo o presidente mais pró-Rússia da história americana.

Opinião por Rodrigo da Silva

É jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.