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Trump afasta proibição nacional do aborto, diz que decisão cabe a Estados e frustra conservadores

Republicano tenta satisfazer base sem deixar de lado os eleitores de centro; campanha de Biden à reeleição o acusa de ‘mentir’

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Por Redação
Atualização:

O ex-presidente Donald Trump disse que a decisão sobre o aborto deve ser deixada nas mãos dos Estados, desapontando conservadores que pressionavam o líder do Partido Republicano a apoiar a proibição em nível nacional. A mensagem em vídeo divulgada nesta segunda-feira, 8, pareceu ser uma tentativa de superar o tema controvertido antes das eleições, sem deixar de lado os eleitores de centro, após meses de mensagens confusas.

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“Muitas pessoas tem perguntado qual é a minha posição sobre o aborto”, disse na gravação de cerca de quatro minutos publicada em sua rede, a Truth Social. “Minha opinião é que agora, no que diz respeito ao aborto, estamos onde todos queriam estar do ponto de vista legal. Os estados determinarão por voto ou legislação, ou talvez ambos, e o que eles decidirem será a lei”, acrescentou.

Grupos religiosos conservadores e políticos do Partido Republicano expressaram desapontamento com Donald Trump. Democratas, por ouro lado, o acusaram de mentir.

Na mensagem, Trump tomou o crédito pela decisão da Suprema Corte que reverteu a garantia do aborto legal nos Estados Unidos e se disse “orgulhosamente responsável” por derrubar Roe versus Wade — caso de 1973 que deu origem a jurisprudência sobre o tema.

As leis estaduais agora abrangem toda a gama de abortos. Alguns locais praticamente não têm acesso ao procedimento, exceto nas emergências médicas mais graves — cerca de 20 dos 50 Estados americanos proibiram ou ampliaram as restrições para as mulheres que buscam interromper a gravidez. Enquanto outros locais têm acesso ao aborto protegido até às últimas semanas de gravidez.

Na Flórida, onde Trump vive, a Justiça deu aval para a lei que proíbe o aborto a partir de seis semanas de gravidez, o que aumentou a pressão para que ele se posicionasse.

Ex-presidente Donald Trump se diz orgulhoso pela decisão da Suprema Corte que reverteu Roe versus Wade em discurso na Carolina do Sul, 10 de fevereiro de 2024. Foto: Manuel Balce Ceneta/ Associeted Press

O tema é visto com preocupação na campanha porque o Partido Republicano sofreu repetidas derrotas nas urnas depois da decisão da Suprema Corte. Foi o que se viu nas eleições de meio de mandato, em 2022, quando a mobilização de eleitores democratas, em especial as mulheres, em torno do aborto contribuiu para frustrar a “onda vermelha” esperada por Trump.

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Um em cada oito americanos considera que esse será um tema prioritário na eleição presidencial e 55% defende que o acesso ao aborto deve ser garantido nacionalmente, segundo o instituto independente de pesquisas em saúde KFF.

No vídeo Trump reforçou que apoia exceções em três casos: estupro, incesto e risco para a vida da mãe, mas não disse a partir de quantas semanas de gestação acredita que o aborto deveria ser proibido. “Muitos estados serão diferentes, muitos terão um número diferente de semanas ou alguns serão mais conservadores do que outros”, disse. “No fim das contas, tudo depende da vontade do povo”, acrescentou.

Grupos ativistas o pressionavam para apoiar a proibição do aborto a partir de 15 semanas em todo país. Em fevereiro, Trump admitiu em conversas reservadas que gostava da ideia salvas essas três exceções e disse a assessores que pretendia esperar até que as primárias do Partido Republicano fossem liquidadas, antes de expressar publicamente a sua opinião.

A campanha tachou os relatos da imprensa americana como “fake news”, mas o próprio Donald Trump disse que considerava apoiar a proibição a partir das 15 semanas. A reação negativa teria contribuído para o recuo, disseram pessoas próximas a Trump ao The New York Times.

Conservadores se dizem ‘decepcionados’

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O posicionamento foi alvo de críticas contundentes de Mike Pence, vice de Trump na Casa Branca, que decidiu não apoiá-lo este ano. “O recuo do presidente Trump em relação ao direito à vida é um tapa na cara dos milhões de americanos pró-vida que votaram nele em 2016 e 2020″, escreveu no X (antigo Twitter)

“Por mais que nosso candidato republicano ou outros candidatos tentem marginalizar a causa da vida, sei que os americanos pró-vida nunca cederão até que vejamos a santidade da vida restaurada no centro da lei americana em todos os estados deste país”, acrescentou Pence, um crítico ferrenho do aborto.

A fala também foi rebatida pelo senador Lindsey Graham, aliado de Trump. “Eu respeitosamente discordo”, disse ele. “Continuarei a defender que deve haver um padrão mínimo nacional que limite o aborto em 15 semanas”, enfatizou.

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“Muitos bons republicanos perderam eleições por causa dessa questão, e pessoas como Lindsey Graham, que são implacáveis, estão entregando aos democratas o sonho de ter a Câmara, o Senado e talvez até a Presidência”, rebateu Trump.

Marjorie Dannenfelser, presidente do grupo antiaborto Susan B. Anthony Pro-Life America, se disse profundamente desapontada. “As crianças não nascidas e suas mães merecem proteções nacionais e defesa nacional contra a brutalidade da indústria do aborto”, afirmou. “Dizer que a questão está ‘de volta aos estados’ cede o debate nacional aos democratas”, concluiu. Apesar da frustração, no entanto, o grupo afirma que vai “trabalhar incansavelmente” para derrotar Biden.

Campanha democrata culpa Trump por restrições ao aborto

Os democratas vinham aproveitando a especulação para criticar o líder republicano. “Em 2016, Donald Trump concorreu para derrubar Roe vs. Wade. Agora, em 2024, ele está concorrendo para aprovar uma proibição nacional do direito de escolha das mulheres”, disse o presidente e candidato à reeleição Joe Biden, em vídeo de campanha na semana passada.

Em nova peça divulgada hoje, a campanha de Biden traz o relato de Amanda Zurawski, uma texana que afirma ter quase morrido com uma infecção por ter o procedimento negado após sofrer uma aborto espontâneo com 18 semanas de gestação. O vídeo termina com a mensagem “Trump fez isso”.

Depois do recuo, Joe Biden disse em comunicado que Donald Trump “mente” e que, se pudesse, proibiria o aborto em todo país. “Ele, mais do que ninguém nos Estados Unidos, é responsável por criar a crueldade e o caos que tomaram o país”, declarou./Com NY Times, W. Post, AFP, AP e Dow Jones

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