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Artista reinventa sua relação com a vergonha para criar cápsula do tempo de resistência à violência

Com moldes de corpos de mulheres paquistanesas anônimas que se assemelham a estátuas de cobre oxidado, Misha Japanwala discute como a vergonha corporal é obra do patriarcado

Por Aamina Inayat Khan
Atualização:

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Misha Japanwala olhou ao redor de seu estúdio na semana que antecedeu sua exposição em uma galeria e se perguntou se havia “mamilos demais”.

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Ela estava falando, é claro, dos mamilos que moldou em gesso a partir dos corpos de 70 paquistanesas anônimas. Eles fazem parte da nova coleção de Japanwala, Beghairati Ki Nishaani: Traces of Shamelessness (Beghairati Ki Nishaani: Traços de falta de vergonha, em tradução livre), em exposição na Hannah Traore Gallery em Nova York até 30 de julho.

Japanwala, uma artista visual que mora em Jersey City, Nova Jersey, passou vários meses do ano passado em Carachi, no Paquistão, onde cresceu, fazendo moldes corporais de mulheres locais e pessoas LGBTQ. A sua obra pretende ser um registro histórico de uma população regida pelas leis da vergonha.

Um projeto anônimo onde os mamilos servem como impressões digitais únicas dos sujeitos. Foto: Misha Japanwala via The New York Times

Em um país onde a violência contra as mulheres, incluindo “assassinatos por honra”, é galopante, desafiar as convenções sociais e ser tachada de “sem vergonha” pode colocar a vida de uma pessoa em risco. A participação numa Marcha Aurat (das mulheres), uma manifestação pelos direitos das mulheres, levou a ameaças de assassinato e estupro. Líderes conservadores e religiosos até fizeram campanha para proibir legalmente as Marchas Aurat, enquanto comentaristas gritam obscenidades na televisão nacional para as mulheres que marcham com cartazes como “Mera Jism Meri Marzi” (Meu Corpo, Minha Escolha).

“Quando grande parte de nossa existência foi sujeita a uma campanha de desaparecimento, esta coleção é um lembrete físico e atual de que nossas vidas e histórias fazem parte do tecido de nosso povo e continuarão a fazer, mesmo daqui a centenas de anos”, disse ela.

O projeto Beghairati nasceu após as críticas que Japanwala, 27 anos, recebeu por seu trabalho de tese na Parsons em 2018: uma série de peças moldadas de seu próprio corpo refletindo e explorando sua relação pessoal com a vergonha, aquela que ela herdou no Paquistão. “Minha tese foi a primeira vez que fui realmente capaz de refletir sobre minha identidade e entender que meu corpo e minha atitude eram uma dádiva”, disse ela.

À medida que seu trabalho ganhou visibilidade em editoriais como a Vogue Espanha e para celebridades como Cardi B, Julia Fox e Joy Crookes, ela se viu no centro de uma nova tempestade. Os comentários sob as fotos de seu trabalho no Instagram estavam repletos de estranhos chamando-a de sem vergonha, doente e obscena, tanto em inglês quanto em urdu.

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Como resultado, Japanwala desenvolveu uma obsessão pelo conceito de vergonha, transformando a falta de vergonha em uma área de estudo. Trabalhar neste projeto deu a ela “o entendimento de que vergonha e modéstia são duas categorias totalmente diferentes que não têm nada a ver uma com a outra”, e que a vergonha é um pilar do patriarcado e uma ferramenta de controle, disse ela.

Na época em que a ideia para este projeto começou a germinar, sua avó morreu. Japanwala passava por lojas de mármore fora do cemitério e observava os trabalhadores esculpindo estatuetas de mármore e inscrições em lápides. Ela também já observava sua cidade desmoronar há muito tempo: fachadas de prédios em ruínas, ruas destruídas e nenhuma infraestrutura para consertá-las.

As peças são projetadas para parecer danificadas pelos elementos e pelo tempo. Foto: Aleena Naqvi/The New York Times

Foi nessa encruzilhada que ela vislumbrou algo que lembrava o fim do mundo. Vertentes da morte, desintegração, legado e ação formaram uma trança. A coleção - uma série de partes do corpo de resina com revestimentos de metal com o objetivo de parecer estátuas de cobre oxidado - é uma cápsula do tempo fictícia de como a luta atual pela igualdade de gênero parecerá um dia, daqui a centenas de anos.

A coleção é dividida em três partes: o núcleo, uma série de moldes corporais de artistas e pintores paquistaneses que abraçam a falta de vergonha nas imagens que criam; uma colagem de esculturas de mãos de artistas, cineastas, escritores e educadores que estão trilhando caminhos para uma sociedade mais livre com relação a gênero intitulada “Mãos de uma Revolução”; e um projeto anônimo no qual os mamilos servem como impressões digitais únicas das pessoas, algumas das quais são recém divorciadas, em transição ou sobreviventes de câncer de mama.

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Entre suas musas estão Sharmeen Obaid-Chinoy, uma documentarista vencedora do Oscar, e Dua Mangi, uma mulher que sobreviveu a um sequestro que lançou um debate nacional sobre a culpabilização das vítimas.

As peças parecem danificadas pelos elementos e pelo tempo. Eles são artefatos de Japanwala, objetos encontrados no futuro e de alta fidelidade que oferecem evidências inequívocas da resistência dos habitantes de Carachi à violência de gênero.

Meetra Javed, uma cineasta que fez um curta-metragem de moda sobre a coleção de Japanwala, disse: “Ela não tem medo de ultrapassar limites, questionar o status quo e criar conversas sobre a libertação do corpo”. O filme traz uma música inédita de Ali Sethi, um músico paquistanês que recentemente se apresentou no Coachella, e Gregory Rogove.

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“Fico impressionado com a poesia da obra de Misha, que transforma a nudez em um paradoxo da existência: quando vestimos seus peitorais, ficamos expostos e blindados, nus e entrincheirados”, disse Sethi em um e-mail. “Quando ela me pediu para emprestar uma música para o vídeo, enviei minha composição mais vaga, vazia e ‘nua’ até agora.”

Após as devastadoras inundações no Paquistão no ano passado, os desastres naturais também se tornaram parte da linguagem visual de Japanwala para o futuro imaginário que ela criou nesta coleção. Ela queria resquícios da velha vida sendo arrastados para a costa de Carachi no final de uma civilização e no início de uma nova: “Quando o mundo acabar, aquele vai ser um marco zero, entende o que quero dizer?” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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