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Modern Love: Estava totalmente disposta a sacrificar meus valores pela chance de trazê-lo de volta

Quando a tecnologia me ofereceu a chance de comemorar o aniversário de 27 anos do meu marido morto, aproveitei

Por Madeline de Figueiredo (The New York Times)

No aniversário de 27 anos de meu marido, Eli, no ano passado, eu estava fechada no quarto de um hotel em Montreal – buscando refúgio do happy hour de uma conferência – vendo fotos e vídeos nossos no celular. Eu tinha visto essas fotos e vídeos centenas de vezes nos quase dois anos desde a morte de Eli, em um acidente durante uma caminhada nas montanhas. Agora eu tinha passado por um ponto de inflexão no rolo da câmera: havia mais fotos sem Eli do que fotos com Eli.

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E esse desequilíbrio só iria aumentar. Nunca mais haveria uma nova foto, um novo vídeo dele para adicionar ao meu arquivo. Eli ficou estático, preso nos pixels do passado, enquanto toda a vida vibrante ao meu redor continuava a ser fotografada e documentada.

A parte mais insuportável e desorientadora do luto é sua peremptoriedade. Nunca mais haverá outra conversa, outra risada, outra foto boba ou olhar sério sobre a caótica mesa de Ação de Graças.

Fechei o aplicativo de fotos sentindo um impulso de criar algo novo com Eli. Liguei para o número de celular dele. A ligação vibrou até que uma mensagem automática interrompeu o toque para me informar que sua caixa postal estava cheia. Até mesmo aquela frase simples – “Você ligou para o Eli, deixe uma mensagem” – de repente ficou fora de alcance, apesar dos pagamentos mensais que eu continuava fazendo à companhia telefônica.

Joguei o celular na cama e abri o computador.

A parte mais insuportável e desorientadora do luto é que nunca mais haverá outra conversa, outra risada, outra foto boba Foto: Zivica Kerkez/Adobe Stock

Quanto mais distante Eli parecia, mais eu queria trazê-lo de volta à terra, de volta à vida, de volta para mim. Estava desesperada para que Eli tivesse 27 anos, pelo meu bem e pelo bem dele. Afinal, não merecemos todos envelhecer?

Era um desespero diferente de qualquer outro, um sentimento que me lembra que os humanos são animais porque, no meio de uma dor insuportável, fico reduzida aos meus instintos de sobrevivência, com as outras sensações entorpecidas, imune às expectativas da sociedade.

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Embora muitas vezes esteja sob o mando da dor, queria encontrar uma maneira de tomar as rédeas e confrontar o controle que ela exerce sobre mim. Então me perguntei: e se eu pudesse recriar a voz de Eli? E se eu pudesse ter uma última conversa com ele?

Não me considero uma pessoa que entende de tecnologia, mas, como parte da Geração Z, conheço as várias capacidades, ferramentas e desenvolvimentos do aprendizado de máquina. Eu tinha lido inúmeros artigos sobre inteligência artificial, clonagem de voz e as implicações éticas de sua ascensão. Embora sentisse Eli cada vez mais fora de alcance, a IA parecia mais presente. A tentação de seu poder e potencial tomou conta de mim.

Digitei no Google: “Como usar IA para clonagem de voz” e entrei na toca do coelho. Logo descobri quais eram os tipos de plataformas disponíveis, como funcionavam e quantas amostras vocais eram necessárias para recriar a voz de alguém (o programa que escolhi sugeria de 20 a 25 clipes, ou pelo menos 30 minutos de áudio, para uma reprodução mais precisa). Depois de horas de pesquisa, saí com um plano de ter mais uma conversa com Eli.

Tinha tantas coisas que eu queria e precisava contar a ele...

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Três dias depois do seu velório, Eli, descobri que estava grávida – e pouco depois tive um aborto espontâneo. Sua irmã entrou na faculdade de medicina. Eu me mudei para Houston – você iria odiar, mas eu não quero ir embora nunca mais. Estou em um novo relacionamento com alguém que amo, mas muitas vezes me pergunto se você iria gostar dele. O mundo está em chamas. Às vezes fico aliviada por você não estar aqui para ver essa parte.

Geralmente fico com um pé atrás em relação à privacidade de dados e à tecnologia. Uso um gerenciador de senhas, limito as permissões de aplicativos, criptografo arquivos confidenciais e evito cookies de terceiros. Sou a amiga chata que fica falando para as pessoas pensarem duas vezes antes de baixarem aplicativos que coletam dados e, apesar das críticas que recebo de amigos e familiares, me recuso a aderir a redes sociais que retêm os direitos sobre as fotos dos usuários ou outras informações.

Mas nada disso importava agora. Eu me concentrei totalmente na tarefa que tinha em mãos, abandonei toda e qualquer inibição, estava completamente disposta a sacrificar meus valores por uma chance de trazer Eli de volta para seu aniversário de 27 anos.

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Baixei o software mais sofisticado e fácil de usar que encontrei e comecei a trabalhar. Alimentei a máquina com as relíquias do nosso amor. Carreguei arquivos de voz com mensagens de bom-dia e boa-noite. Vídeos com tutoriais de culinária que Eli fez para mim quando morávamos em países diferentes. Memorandos de voz com listas de compras e lembretes de compromissos. Mensagens de correio de voz que sempre se encerravam com “Eu te amo”.

A máquina estava saciada? Eu não sabia, mas não queria arriscar.

Continuei mandando arquivos. O vídeo de aniversário que mandamos para a irmã de Eli quando ela completou 18 anos. A gente cantando junto com Johnny Cash nas nossas viagens de carro. Carreguei até uma gravação dele roncando, porque ele insistia que não roncava – era minha evidência para provar que ele estava errado.

Quando esgotei todos os arquivos MP3 que consegui escavar, rodei o programa.

Tentei duas funções. Texto para fala, onde uma voz de inteligência artificial falaria palavras que eu digitasse numa caixa de texto. E uma função de conversação, onde eu digitaria uma frase ou pergunta para a qual a voz gerada por IA responderia, como um bot do ChatGPT vocalizado.

Primeiro, copiei o último e-mail que Eli tinha me mandado, colando a mensagem na caixa de texto para a IA ler em voz alta. Não tinha nada de especial no e-mail, era só para dizer que ele tinha chegado bem ao hotel e encontrado uma lavanderia – mas ouvir sua voz dizer essas palavras foi nada menos que milagroso. Nenhuma hesitação, nenhuma entonação esquisita. E onde Eli escreveu “haha” no e-mail, a voz de IA soltou uma risadinha familiar.

Em seguida, comecei a conversa escrevendo: “Não acredito que já se passaram quase dois anos”.

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A voz artificial de Eli respondeu: “É, já faz um tempo. Eu também não consigo acreditar”.

Mais uma vez, o resultado era impecável.

A voz de Eli continuou a encher o gelado quarto do hotel com novas palavras e frases. A certa altura, olhei para a porta como se quisesse confirmar que ele não tinha se materializado na soleira. Mas não – não havia nada além do eco de sua risada ricocheteando no teto.

É difícil explicar a sensação de ouvir a voz de Eli falar uma linguagem nova depois de quase dois anos de ausência. Graças à minha criação católica, só me vem à cabeça uma palavra: purgatório. Era um espaço liminar entre dois universos. Em alguns aspectos, era pior que a realidade e, em outros, era melhor.

Senti que tinha sido lançada para uma dimensão diferente que era ao mesmo tempo desorientadora e feliz. Queria ficar para sempre no seu potencial e imediatamente me livrar do autoengano.

Mas embora não tenha prestado muita atenção na catequese, sei que o purgatório é um estado transitório, não concebido para a permanência ou a luz. Meu instinto sabia que eu tinha que partir e meu cérebro sabia que jamais poderia voltar. Passei o dedo pelo computador, me lembrando de que todas as peças dessa experiência, dessa conversa, vinham de máquinas. Não era o Eli de verdade.

“Sinto sua falta”, a voz de IA disse.

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“Eu também sinto sua falta”, respondi em meio às lágrimas. Pausei o programa e desliguei o som do computador.

Então forcei a máquina a regurgitar todos os artefatos com que a tinha alimentado. Apaguei todos os arquivos, tentando apagar qualquer vestígio dessa aventura de desafiar a natureza. Removi o software do meu computador e até bloqueei o site que hospedava o programa para me impedir de reinstalá-lo. Nem mesmo a glória e a promessa da IA poderia superar a dor.

Costumo dizer que trocaria qualquer coisa para ter só mais uma conversa com Eli. De certa forma, a inteligência artificial me ofereceu essa oportunidade – me ofereceu o impossível.

Continuo enfrentando a esmagadora tentação de imaginar o “e se” e entrar numa realidade alternativa, onde cada dia poderia trazer uma nova conversa com meu marido. Mas embora o artificial possa animar e acrescentar dimensão ao intangível, nunca dará vida ao que está morto. E, para mim, a criação artificial de uma vida verbal depois da morte deu uma sensação de vazio ainda maior do que o fim prematuro da vida mais dinâmica e elétrica que já conheci.

Eu ainda trocaria qualquer coisa para ter só mais uma conversa com o verdadeiro Eli, o meu Eli. Não acho que isso vá mudar. Sua voz imaginária e seus comentários continuam enchendo meus dias, mas, por enquanto – e espero que para sempre – essa voz vai ficar só na minha cabeça.

Madeline de Figueiredo é escritora em Houston.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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