Na França, um filme leva mulheres a compartilhar histórias de aborto

‘O Acontecimento’ ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado

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Por Laura Cappelle
5 min de leitura

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - PARIS - O Acontecimento, o novo filme de Audrey Diwan sobre um aborto ilegal feito na França dos anos 1960, não é para os fracos de coração. De fato, houve espectadores que desmaiaram em várias exibições, inclusive no Festival de Veneza em setembro, em que o filme ganhou o Leão de Ouro. “Muitas vezes, os homens dizem que a experiência os levou ao limite do que podiam suportar, porque nunca tinham imaginado como seria”, disse Diwan em entrevista recente.

Embora O Acontecimento tenha impressionado espectadores do mundo inteiro, também tem alimentado debates mais amplos na França em torno da percepção do aborto. O filme é baseado em uma experiência da vida real - a da célebre autora francesa Annie Ernaux, que narrou seu aborto de 1963 no livro de mesmo título, publicado em 2000. Na época, interromper a gravidez era ilegal na França, e assim permaneceria até 1975.

Diwan, que tem 41 anos, nasceu depois da legalização do aborto. Ao contrário dos Estados Unidos, a lei atual não está sob ameaça imediata na França. No entanto, O Acontecimento, que visa a um senso de imediatismo na tela, levou artistas e ativistas a falar no tabu que ainda cerca o procedimento.

O prazo para as mulheres francesas que optam por interromper uma gravidez por uma razão não médica é bastante restrito. O presidente francês Emmanuel Macron se opôs inicialmente a um novo limite de 14 semanas (duas a mais que as atuais 12 semanas) aprovado pelo Parlamento francês em fevereiro. Embora ele tenha dito que aceitaria a nova lei, comentou durante a campanha, em março, que o aborto era “sempre uma tragédia para a mulher”. “Existe essa vergonha social construída que as mulheres devem sentir, e a sensação de que, se falarmos nisso, corremos o risco de questionar esse direito, que no fim nunca é garantido”, disse Diwan.

Audrey Diwan, diretora de 'O Acontecimento', filme que fala do aborto ilegal na França dos anos 60 e vem causando comoção no mundo inteiro. Foto: Amy Lombard/The New York Times

Em resposta a O Acontecimento, em dezembro a revista feminista francesa Causette dedicou uma matéria de capa a testemunhos de 13 celebridades, sob o título: “Sim, fiz um aborto”. A autora Pauline Harmange, que ganhou destaque internacional no ano passado com seu livro de estreia Eu Odeio os Homens, também publicou um ensaio em março sobre a própria experiência: Avortée (Abortada).

Segundo Harmange, o ensaio foi “muito mais difícil de escrever do que Eu Odeio os Homens”. No artigo, ela descreve a dor e a solidão que sentiu depois de seu aborto, em 2018 - menos por causa do procedimento médico e mais por causa da expectativa social de que as mulheres têm de ir em frente de imediato. No entanto, Harmange, que apoia firmemente o direito das mulheres ao aborto, temia que o compartilhamento de sua experiência alimentasse o discurso antiaborto. (Minutos depois que ela compartilhou o ensaio no Instagram, uma organização contrária ao aborto o republicou, distorcendo as palavras que ela havia escrito, contou Harmange.)

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Diwan se sentiu atraída pelo livro O Acontecimento, de Ernaux, depois que interrompeu uma gravidez. Inicialmente, lutou para encontrar histórias que a ajudassem a processar a experiência, e até começou a escrever um livro como uma maneira de preencher essa lacuna. Quando Harmange encontrou um vazio semelhante depois de ter feito um aborto em 2018, acabou lendo obras de autoras americanas: “Como o aborto é relativamente mais acessível na França, aqui as pessoas têm a impressão de que o problema foi resolvido.”

Isso está longe da realidade, segundo os pesquisadores. A socióloga Marie Mathieu, que estudou o aborto na França, declarou em entrevista que “desigualdades regionais e sociais” restringem o acesso das mulheres ao procedimento, acrescentando que as restrições significam que também é relativamente comum que as mulheres efetuem um aborto tardio na Holanda ou na Espanha - viagem que tem um custo financeiro e pode ser traumática. Essa realidade mal é discutida na mídia francesa, de acordo com Mathieu: “O aborto é sempre um problema no exterior, ou no passado. Nós nos alegramos com a legalização na Irlanda e criticamos o retrocesso em outros países, mas, na França, essa é uma questão menor.”

Diwan contou que não foi fácil conseguir financiamento para fazer um filme como O Acontecimento: “Sempre me perguntavam: ‘Por que fazer isso agora? A lei foi aprovada na França.’ Conseguimos só o suficiente para recriar aquele período na tela.”

A atriz principal, Anamaria Vartolomei, era desconhecida, e os produtores estavam preocupados com o potencial de bilheteria do filme. Havia, no entanto, outras razões para a falta de interesse, segundo Diwan: “Em vários casos, sentimos claramente que algumas pessoas eram contra o aborto.”

Mesmo depois de ter trabalhado em O Acontecimento durante três anos, Diwan não tinha certeza de que estivesse pronta para falar publicamente no próprio aborto. Só foi convencida a fazê-lo depois que Anna Mouglalis, que interpreta uma mulher severa que efetua abortos no filme, mencionou, durante uma entrevista coletiva no Festival de Veneza, que fizera um. Diwan disse que percebeu que “os vestígios dessa vergonha ainda tinham um efeito sobre mim”.

Mouglalis, conhecida atriz francesa e ativista dos direitos das mulheres, que foi uma das colaboradoras da matéria de capa da revista Causette, declarou em uma entrevista que o papel do abortista em O Acontecimento era muito importante para ela. O aborto sempre foi um tópico de discussão em sua família, porque seu avô materno, que era enfermeiro, fizera abortos ilegais para ajudar mulheres.

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Mouglalis fez uma extensa pesquisa antes das filmagens. Contou que trouxe “uma coleção de espéculos” para o set, depois de ter procurado por instrumentos de época. Determinar quais eram os mais comuns e como eram usados na época tomou “uma quantidade ridícula de tempo”, revelou Diwan, já que um aborto ilegal é raramente representado na mídia e nunca foi gravado.

A cena que aparece em O Acontecimento, filmada em um take de quatro minutos, não é exatamente realista, mas os gestos de Mouglalis são cuidadosamente coreografados para se aproximar de um procedimento real. “Eu queria homenagear essas mulheres que ainda existem, em todo lugar”, disse ela, destacando que o aborto ainda é praticado mesmo nos muitos países em que o procedimento é ilegal.

O suspense e o sentimento de medo do filme derivam de uma pergunta central: as pessoas que a personagem principal encontra, de médicos a colegas estudantes universitários, a ajudarão ou a denunciarão? “A lei francesa na época era horrível. Se ajudasse uma mulher que queria fazer um aborto ilegal, você poderia ir para a cadeia. Quando li sobre os desafios de Roe contra Wade nos Estados Unidos, eu me lembrei muito dessa história, porque estamos falando nos mesmos mecanismos legais”, observou Diwan.

Compartilhar suas histórias de aborto tem sido uma experiência libertadora, segundo Diwan e Harmange. “Quando você diz ‘fiz um aborto’, abre a porta para que essa frase seja repetida”, comentou Diwan.

Desde a publicação de Avortée, Harmange recebeu muitas mensagens - algumas delas anônimas - de mulheres que querem compartilhar sua experiência. “O efeito é de cuidado, e é isso que está faltando”, afirmou Harmange.

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