Redes sociais deixam adolescentes infelizes? Isso pode depender da idade deles, diz estudo

Uma pesquisa na Grã-Bretanha encontrou duas janelas específicas da adolescência, quando alguns dos jovens são mais sensíveis às mídias sociais

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Por Virginia Hughes
Atualização:

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Nos últimos anos, à medida que o brilho frio de um smartphone seguiu mais e mais adolescentes do quarto para a escola e vice-versa, os pais começaram a se preocupar com a influência da tecnologia. E não é de admirar, com pesquisadores do Facebook estudando secretamente como seus aplicativos corroem a imagem corporal das meninas, médicos descrevendo distúrbios de tiques induzidos pelo TikTok e promotores e legisladores se comprometendo a responsabilizar as empresas de mídia social por prejudicar crianças.

Mas em segundo plano, uma discussão científica mais silenciosa tem questionado se as redes sociais estão causando algum prejuízo. Enquanto alguns pesquisadores afirmam que a tecnologia digital é um poderoso fator causal nas taxas crescentes de problemas de saúde mental, outros acham que o risco de danos para a maioria dos adolescentes é pequeno - uma influência no bem-estar equivalente a usar óculos ou comer batatas regularmente, calculou um grupo.

Uma pesquisa britânica aponta que redes sociais podem não ser tão influentes na saúde mental de adolescentes. Foto: Pixabay

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Agora, os autores do artigo sobre o uso de óculos publicaram um grande estudo de vários anos fornecendo o que especialistas independentes disseram ser uma visão excepcionalmente detalhada e rigorosa da relação entre as redes sociais e os sentimentos dos adolescentes sobre a vida.

Analisando as respostas da pesquisa de mais de 84.000 pessoas de todas as idades na Grã-Bretanha, os pesquisadores identificaram dois períodos distintos da adolescência, quando o uso intenso das redes sociais estimulou classificações mais baixas de “satisfação com a vida”: o primeiro em torno da puberdade - idades de 11 a 13 anos para meninas e 14 a 15 para meninos - e depois novamente para ambos os sexos por volta dos 19 anos.

Como muitos estudos anteriores, este descobriu que a relação entre as redes sociais e o bem-estar de um adolescente era bastante fraca. Ainda assim, o estudo sugeriu que houve certos períodos em que os adolescentes podem ser mais sensíveis à tecnologia.

“Na verdade, consideramos que as ligações entre mídia social e bem-estar podem ser diferentes em diferentes idades - e descobrimos que esse é realmente o caso”, disse Amy Orben, psicóloga experimental da Universidade de Cambridge, que conduziu o estudo.

Para a maioria dos adolescentes nos Estados Unidos, as telas são uma grande parte da vida. Nove em cada 10 adolescentes americanos têm um smartphone e passam muitas horas por dia olhando para ele - assistindo a vídeos, jogando e se comunicando por meio das redes sociais, mostram pesquisas recentes.

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À medida que o uso das redes sociais entre os adolescentes explodiu nas últimas duas décadas, também aumentaram as taxas de depressão, ansiedade e suicídio, levando os cientistas a se perguntarem se essas tendências marcantes podem estar relacionadas.

Alguns sugeriram que as redes sociais podem ter um efeito indireto na felicidade, substituindo outras atividades, como interações pessoais, exercícios ou sono, que são fundamentais para a saúde mental e física. O uso intenso de redes sociais parece perturbar os padrões de sono dos adolescentes, por exemplo.

Ainda assim, pesquisas que buscam uma relação direta entre redes sociais e bem-estar não encontraram muita coisa.

“Houve absolutamente centenas desses estudos, quase todos mostrando efeitos muito pequenos”, disse Jeff Hancock, psicólogo comportamental da Universidade de Stanford, que realizou uma meta-análise de 226 desses estudos.

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O que chama a atenção no novo estudo, disse Hancock, que não esteve envolvido no trabalho, é seu alcance. Incluiu duas pesquisas na Grã-Bretanha, totalizando 84.000 pessoas. Uma dessas pesquisas acompanhou mais de 17.000 adolescentes de 10 a 21 anos ao longo do tempo, mostrando como seu consumo de mídia social e índices de satisfação com a vida mudaram de um ano para o outro.

“Em termos de escala, é fantástico”, disse Hancock. A rica análise baseada na idade, acrescentou, é uma grande melhoria em relação aos estudos anteriores, que tendiam a agrupar todos os adolescentes. “Os anos da adolescência não são como um período constante de desenvolvimento da vida - eles trazem mudanças rápidas”, ele disse.

O estudo descobriu que, durante o início da adolescência, o uso intenso de redes sociais previa índices mais baixos de satisfação com a vida um ano depois. Para as meninas, esse período sensível foi entre as idades de 11 e 13 anos, enquanto para os meninos foi de 14 a 15 anos. Orben disse que essa diferença de sexo pode ser simplesmente porque as meninas tendem a atingir a puberdade mais cedo do que os meninos.

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“Sabemos que as meninas adolescentes passam por muitos desenvolvimentos mais cedo do que os meninos”, disse Orben. “Há muitas coisas que podem impulsionar em potencial, sejam elas sociais, cognitivas ou biológicas”.

Tanto os meninos quanto as meninas do estudo atingiram um segundo período de sensibilidade às redes sociais por volta dos 19 anos. “Isso foi bastante surpreendente porque foi tão consistente entre os sexos”, disse Orben. Por volta dessa idade, ela disse, muitas pessoas passam por grandes turbulências sociais - como começar a faculdade, arrumar um novo emprego ou viver de forma independente pela primeira vez - que podem mudar a maneira como interagem com as redes sociais, ela disse.

Embora o novo relatório tenha se baseado em conjuntos de dados mais ricos do que os estudos anteriores, ainda assim faltavam algumas informações que seriam úteis na interpretação dos resultados, disseram especialistas. Esperar um ano inteiro entre as respostas não é o ideal, por exemplo. E embora as pesquisas perguntassem quanto tempo os participantes passavam se comunicando nas redes sociais, elas não perguntavam como elas eram utilizadas; falar com estranhos ao mesmo tempo em que se joga um videogame pode levar a efeitos diferentes do que enviar mensagens de texto para um grupo de amigos da escola.

Em conjunto com trabalhos anteriores, os resultados sugerem que, embora a maioria dos adolescentes não seja muito afetada pelas redes sociais, um pequeno subconjunto pode ser significativamente prejudicado por seus efeitos. Mas é impossível prever os riscos para uma criança individualmente.

“Para seu filho de 12 anos, o que isso significa? É difícil saber”, disse Michaeline Jensen, psicóloga clínica da Universidade da Carolina do Norte em Greensboro. Dado o pequeno efeito observado no estudo, “muito poucas dessas crianças passariam do funcionamento normal para níveis clínicos de depressão”, disse ela. Mas “isso não quer dizer que nenhuma delas passaria”.

Jensen apontou que o estudo também encontrou uma ligação na direção oposta: para todas as idades, os participantes que se sentiram mal com suas vidas acabaram passando mais tempo nas redes sociais um ano depois. Isso sugere que, para algumas pessoas, a tecnologia pode ser um mecanismo de enfrentamento e não a causa de sua tristeza.

Todos esses especialistas disseram que muitas vezes ficaram frustrados com os debates públicos sobre redes sociais e crianças, que muitas vezes inflacionam os danos das plataformas e ignoram os benefícios.

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“Há riscos - influência de colegas, contágio, uso de substâncias”, disse Jensen. “Mas também existem muitas coisas positivas”, como apoio, conexão, criatividade e domínio de habilidades, acrescentou. “Acho que muitas vezes isso é esquecido porque estamos muito focados nos riscos.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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