Ter um namorado é brega? Nova trend da geração Z nas redes questiona relacionamentos

Postagens com humor e críticas à perda de identidade em relacionamentos impulsionam viralização de vídeos sobre o tema no TikTok

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Foto do autor Alice Labate
Atualização:

Um artigo de opinião publicado na edição britânica da revista Vogue, intitulado “Is having a boyfriend embarrassing now?” (“Ter um namorado é vergonhoso agora?”, em português), se tornou combustível para uma das trends mais populares da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) nas últimas semanas.

O texto, da colunista Chanté Joseph, propõe que, para mulheres jovens, assumir ou exibir um relacionamento heterossexual está cada vez menos associado a status e mais a vulnerabilidade ou perda de autonomia e, com isso, nas redes sociais, criadoras de conteúdo transformaram a provocação em memes, vídeos de humor e desabafos pessoais, ampliando o debate muito além da proposta original.

Nicole Sena diz que a vergonha no namoro surge quando a relação ocupa o espaço da própria identidade Foto: tiago queiroz

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No TikTok, vídeos que brincam com a ideia de “namorar ser brega” se multiplicaram, alcançando milhões de visualizações. A atriz, empresária e influenciadora Sarah Uliano, 20, tem 143,7 mil seguidores e viralizou ao publicar um vídeo encenando a comemoração de que “namorar virou cafona” e o vídeo alcançou 648,9 mil visualizações.

No entanto, ela reforçou que a matéria é mais profunda do que a trend sugere. “O pessoal levou muito ao pé da letra o título, muitos nem leram o texto todo”, explicou, “O meu vídeo também é bem literal, para ser engraçado, mas o artigo é bem mais interessante que isso”.

Já Nicole Sena, 24, influenciadora digital com 49,2 mil seguidores, cujo vídeo sobre o tema alcançou 20,4 mil visualizações, explicou que, para ela, a questão não é o relacionamento em si, mas a transformação que ele pode causar (exatamente o ponto central do texto da Vogue). “Eu não acho que namorar seja vergonhoso, mas sim quando a mulher se transforma por causa disso, perde sua personalidade e vira somente a ‘namorada de fulano’”, disse.

Nos comentários dos vídeos, as duas criadoras relataram que a reação do público foi polarizada, mas majoritariamente de identificação. Muitos usuários celebraram a “moda” da solteirice, com frases como “finalmente estou na moda” e “é brega mesmo”, enquanto outros afirmaram querer “pagar esse mico” e entrar em um relacionamento.

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A especialista em ciberpsicologia Angelica Mari vê o movimento como expressão de um esgotamento diante do modelo tradicional de relacionamento exibido online. “Estamos diante de uma fadiga de curadoria romântica; após anos observando relacionamentos editados nas redes sociais, há uma exaustão coletiva”, explicou, “Dizer que ter namorado é vergonhoso funciona como um mecanismo de defesa coletivo contra essa pressão de performar felicidade romântica constantemente e, por isso, as pessoas se identificam tanto”.

“Não é tanto sobre estar em um relacionamento, mas mais sobre como você performa esse relacionamento nas redes”, completou.

A especialista também vê na geração Z a força principal por trás desse movimento digital. “Essa geração cresceu num ambiente onde a intimidade é hiperexposta e simultaneamente performática. Então, estamos vendo uma espécie de contracultura digital, que é uma reação à etiqueta romântica online”, explicou Angelica. Ela ainda traçou um paralelo geracional: “A geração Z está confrontando essa “sombra dos millennials” (nascidos entre 1981 e 1996), que é a geração que romantizou o amor, que criou a cultura de encontrar a sua metade da laranja e depois enfrentou taxas de divórcio altíssimas”.

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Apesar do tom de deboche que dominou a trend, o fenômeno revelou uma mudança na forma como jovens enxergam relacionamentos e autonomia. Angelica Mari explicou que a cultura digital é uma “colcha de retalhos”, e este momento é um “retalho” bem importante. “Essa trend pode ser vista como um sintoma: é a geração Z expressando que esses modelos de relacionamento que se dão na cultura digital não servem, mas ainda não têm novos modelos formados. É um momento de transição”, concluiu. A discussão, longe de ser apenas um surto passageiro, de acordo com a especialista, espelha uma reavaliação sobre o lugar do romance na era digital.

Afinal, ter um namorado realmente é brega?

A viralização trouxe a pergunta central: existe mesmo uma sensação de “vergonha” associada a namorar? Entre as influenciadoras, a resposta aponta menos para o sentimento em si e mais para o peso que o relacionamento assume na identidade social.

Angelica Mari acrescentou que, para a geração Z, “é muito mais seguro dizer que namorar é vergonhoso do que admitir medo de intimidade real ou decepção”. Para ela, essa dinâmica ajuda a explicar a força da trend e a adesão de jovens que tratam o discurso como uma forma de proteção emocional.

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A escritora Luciana do Rocio Mallon relacionou o debate ao cenário de violência no País. Ela afirmou que o problema não está no namoro em si, mas no risco que ele representa hoje e diz que “ter um namorado está perigoso, pois o número de feminicídio aumenta cada vez mais no Brasil”. Segundo Luciana, esse medo aparece nas reações das jovens nas redes sociais, muitas delas marcadas por experiências negativas e por um sentimento permanente de alerta.

A romantização exagerada também molda esse comportamento, sobretudo entre jovens que cresceram consumindo histórias de amores intensos, como as fanfics (histórias fictícias criadas por fãs), que muitas vezes alimentam expectativas difíceis de sustentar. “Hoje em dia está bem difícil achar um bom parceiro”, disse Sarah, “Minha geração cresceu com essas histórias de amor que nos gerou expectativas altas, e, junto disso, tem muitos homens que mal conseguem preencher requisitos básicos para um relacionamento, o que gera uma frustração”.

Para Nicole, “a nossa geração está mais seletiva, analisando mais as situações para não se relacionar com qualquer um”. A escritora Luciana complementou que essa mudança inclui romper com normas sociais antigas e diz que “desde os primórdios dizem que a mulher só se realiza se tiver um namorado ou marido, mas hoje sabemos que não é bem assim”.

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