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Plataformas de crowdfunding crescem e tornam-se opção de investimento para startups no Brasil

Modelo ganha força após a pandemia e norma da CVM, que regulamentou as ‘vaquinhas online’ para investidores no Brasil

Foto do author Guilherme Guerra
Por Guilherme Guerra

Na última década, os sites de “vaquinhas online”, como Catarse e Vakinha, popularizaram-se com intuito de reunir diferentes indivíduos para bancar projetos pessoais, como viagens dos sonhos e causas sociais. Agora, uma versão “2.0″ desse modelo ganha impulso: plataformas de “crowdfunding” (financiamento coletivo, em inglês) dedicadas a startups em busca de capital.

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O objetivo dessas plataformas de crowdfunding é o mesmo das tradicionais “vaquinhas”: reunir o maior número possível de pessoas para bancar ideias de empreendedores que usam tecnologia para ter escala no negócio. Em retorno, os financiadores recebem parte do investimento no longo prazo, da mesma forma que fundos de investimento tradicionais. No processo, quem cuida de tudo é a plataforma, simplificando as tarefas ao cuidar de contratos e das transações (e, claro, “mordendo” uma taxa do valor levantado).

No Brasil, a plataforma Captable é uma das mais conhecidas no universo “startupeiro”. O site nasceu em julho de 2019 e, desde então, já movimentou quase R$ 100 milhões em 50 projetos, com especial aumento na procura durante a pandemia, quando o mercado de capitais dedicou as atenções ao setor de tecnologia. Agora, a firma projeta movimentar outros R$ 40 milhões somente em 2023.

“A pandemia quebrou várias barreiras, principalmente no mundo financeiro. Antes, fazer um investimento em uma plataforma de crowdfunding poderia assustar essas pessoas”, explica o empresário Paulo Deitos, CEO e cofundador da Captable, propriedade da escola de inovação StartSe desde fevereiro de 2022. “Passado o susto inicial, os meses seguintes foram um sucesso para nós”, diz.

Paulo Deitos é cofundador e CEO da startup de crowdfunding Captable Foto: CARLOS MACEDO/CAPTABLE-17/8/2022

O cenário de baixa mundial dos juros, mais o impulso do setor de tecnologia durante o biênio pandêmico, turbinaram os investimentos de crowdfunding. Além disso, a instrução 588 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de julho de 2017, foi essencial para regularizar o setor, impondo limites sobre as plataformas de “investimento participativo”.

A popularização de investimentos via crowdfunding no exterior também foi um empurrão para o segmento no País. Nomes como a californiana Wefunder, a israelense OurCrowd e a britânica CrowdCube ganharam mercado ao se dedicar a negócios de startups, mas é possível encontrar plataformas especializadas em diversos nichos, como empreendedoras mulheres (IFundWomen).

“Aos poucos, essa cultura de diversificação de investimentos foi sendo replicada no Brasil”, diz Antonio Patrus, diretor da Bossanova, fundo brasileiro de investimentos dedicado a startups que, em agosto de 2022, comprou a plataforma de crowdfunding Platta Investimentos. Desde então, foram lançados dois projetos para captação, totalizando R$ 863 mil em volume e mais de 200 investidores.

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Embora o setor de investimento em crowdfunding (ou equity crowdfunding) esteja crescendo, o mundo da tecnologia navega em um momento de ventos contrários, com o mercado desacelerando em meio à alta global dos juros e ameaça de recessão econômica nos EUA. Isso significa que investidores tradicionais de startups repensam seus cheques e buscam negócios mais sustentáveis, portanto, com menos riscos.

“Houve uma queda de 2021 para 2022 no valor total captado e no número de startups que captaram. Mas, ainda assim, o número de plataformas especializadas subiu de 15 para 21. Ou seja, essa queda foi um engasgo e estamos esperando por uma estabilização econômica para ter o crescimento desse tipo de investimento no Brasil”, explica Patrus.

Vantagens para startups

Para a maior parte das startups, o modelo de crowdfunding é uma forma de buscar não só os investidores, mas também de apresentar seus produtos para mercado e público em geral - o que ajuda a fisgar clientes já durante o processo de busca de capital.

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É o caso da Food to Save, que levantou R$ 1,3 milhão com 272 pessoas em maio de 2022 pela plataforma da Captable. Nascida em maio de 2021 com o intuito de combater o desperdício de alimentos, a startup levou menos de 24 horas para fechar a captação. Nesse período, o negócio de sacolas-surpresa da startup ganhou a capital paulista e se tornou um dos aplicativos mais baixados nas lojas da Apple e Google.

“Em alguns casos, startups feitas para o mercado consumidor (B2C) acabam se alavancando com essa rede de investidores”, explica Cassio Spina, fundador e presidente executivo da Anjos do Brasil, organização dedicada a investimento-anjo. “Essa popularização do negócio é um benefício indireto do modelo de crowdfunding.”

A popularização do negócio é um benefício indireto do modelo de crowdfunding

Cassio Spina, presidente da Anjos do Brasil

Outro ponto é a agilidade: no crowdfunding, as startups conseguem levantar cheques de maneira mais rápida, já que o modelo é menos burocrático que rodadas de investimento com fundos, o que pode levar até 12 meses — o que pode ser fatal para o negócio.

“O tempo de um ano para uma startup é uma eternidade e isso pode ser uma oportunidade perdida”, diz Deitos, da Captable. Segundo o executivo, a janela de captação pelo modelo de crowdfunding vai de 60 a 80 dias.

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Encaixe no ecossistema

Claro, o equity crowdfunding é uma forma de diversificar a carteira, é claro. Mas, sobretudo, pode significar uma entrada no mercado de investimento em startups, já que o modelo exige investimento mínimo de R$ 1 mil por startup investida.

Para Patrus, da Bossanova, o modelo é a “democratização” do que já fazem fundos de investimento tradicionais, mas com as pessoas físicas à frente do aporte. “O crowdfunding é a primeira ferramenta de varejo para ter acesso ao universo de startups”, diz ele — na Platta, todas as startups prontas para captar são avaliadas pelos especialistas da Bossanova, que dá a “validação”.

Cassio Spina concorda com a democratização. “O modelo participativo abre potencial para a existência de muitos investidores, uma vez que dá acesso a pessoas que não teriam o montante para fazer um investimento-anjo”, diz, citando os cheques de R$ 15 mil por pessoa nessa etapa.

Além disso, há a vantagem de não exigir que o investidor esteja tão próximo do negócio, papel que fica para investidores-anjo e fundos de investimento, que atuam como conselheiros para garantir o bom funcionamento do negócio da startup. “Já o investidor de crowdfunding não vai ter esse trabalho”.

O que não muda é o risco do investimento para o investidor, seja no mercado privado ou público de ações — inclusive no crowdfunding.

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