Acusações de judeus contra Pio XII são ultrajantes, diz Vaticano

Segundo Secretário de Estado, ninguém pode dizer ao Vaticano se pontífice deveria ou não ser santificado

Phili Pullella, Reuters

06 Novembro 2008 | 13h34

As acusações feitas por judeus de que o papa Pio XII, que comandou a Igreja Católica na época do nazismo, fechou os olhos para o Holocausto são "ultrajantes" e ninguém pode dizer ao Vaticano se ele deveria ou não ser santificado, afirmou nesta quinta-feira, 6, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.     Veja também: Arquivos de Pio XII devem continuar secretos por até 7 anos  Vaticano rejeita abertura de arquivos do Holocausto  Papa defende atuação de Pio XII diante do Holocausto  Bento XVI defende beatificação e canonização de Pio XII  Pio XII ordenou que judeus fossem salvos, diz Vaticano  No Vaticano, rabino diz que Pio XII traiu os judeus  Pio XII 'não poupou esforços' para ajudar judeus, diz Bento XVI Alguns judeus acusam Pio XII, que ocupou o cargo de 1939 a 1958, de haver sido indiferente ao Holocausto. O Vaticano afirma que o pontífice trabalhou nos bastidores e ajudou a salvar muitos judeus da morte certa durante a 2ª Guerra Mundial. "A descrição de Pio XII como alguém indiferente ao destino das vítimas do nazismo - os poloneses e, acima de tudo, todos os judeus -, chegando até mesmo a tratá-lo como o 'papa de Hitler', é ultrajante", afirmou o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano. Bertone afirmou em uma conferência que tais acusações "não podem ser suportadas de um ponto de vista histórico". A polêmica em torno do que Pio XII fez ou não fez durante a guerra assombra há décadas as relações entre católicos e judeus, e o conflito ganhou novas cores com a discussão sobre se aquele papa deveria ser canonizado. O Vaticano deu sinais de irritação e agastamento quando alguns católicos conclamaram Bento XVI a acelerar o processo de santificação de Pio XII e alguns judeus defenderam o congelamento desse procedimento até que a Santa Sé abra, dentro de sete anos, seus arquivos sobre aquele período. Na semana passada, um líder judeu pediu ao papa que paralisasse a canonização de Pio XII. Bento XVI teria dito estar "considerando seriamente" essa possibilidade. Em compasso de espera Líderes judeus conclamaram o Vaticano a não tornar Pio XII um santo até que se esclareçam todas as dúvidas sobre seu suposto silêncio. Um desses líderes disse que a canonização abrira uma "ferida difícil de ser cicatrizada". Bertone, no entanto, foi curto e grosso a respeito de tais apelos. Segundo o secretário de Estado, o processo de canonização era uma "questão religiosa que deve ser respeitada por todo mundo e era algo da alçada exclusiva da Santa Sé". Discute-se atualmente se Bento XVI deveria fazer avançar o processo de santificação - que conta com defensores católicos - por meio da assinatura de um decreto reconhecendo as "virtudes heróicas" dele. O decreto abriria caminho para a beatificação, o último passo antes da canonização. O papa ainda não assinou o documento - aprovado no ano passado pelo departamento do Vaticano encarregado desses processos. Bento XVI optou, ao invés disso, por observar um período de reflexão, segundo as palavras do Vaticano. A Igreja Católica diz que, apesar de não ter criticado o Holocausto, Pio XII trabalhou nos bastidores para ajudar os judeus porque sua intervenção direta acabaria por agravar a situação ao gerar uma retaliação da parte de Hitler. Na conferência realizada na Universidade Gregoriana, em Roma, Bertone defendeu Pio XII, afirmando que nos anos de 1939 e 1940 ele deu apoio a um plano britânico-alemão para depor Hitler. O Vaticano diz que Pio XII salvou centenas de milhares de judeus ao mandar que igrejas e conventos de toda a Itália escondessem judeus e ao determinar que os diplomatas do Vaticano na Europa concedessem passaportes falsos a judeus. Bertone tentou justificar, por exemplo, o silêncio de Pio XII depois de os nazistas, que ocupavam Roma, terem assassinado 335 homens e meninos em retaliação a uma ataque da resistência que matou 33 soldados alemães. O secretário de Estado disse que os conventos de Roma estavam cheios de refugiados, entre os quais judeus, e que uma condenação pública da parte de Pio XII em relação ao massacre nazista teria provocado ataques "catastróficos" contra os conventos.

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