JB Neto/AE
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Aluno diz que foi atacado mais de 50 vezes

Estudante da USP de Piracicaba afirma ter ficado marcado entre veteranos após reagir durante trote

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

Felipe Yarid, de 31 anos, aluno do 5.º ano de Agronomia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, não tem boas lembranças de sua recepção na instituição. Após se recusar a obedecer a ordens de um veterano no trote e reagir a um tapa, ele diz que ficou marcado pelos colegas - e paga um preço por isso até hoje.

 

Há cerca de dois anos, o estudante alega ser vítima de ataques com pesticidas, atirados com pequenas pipetas. "O veneno bate na pele, arde e deixa uma mancha. Em uma hora e meia me sinto fraco e acabo ficando dois dias de cama."

 

O estudante afirma que os ataques já se repetiram mais de 50 vezes, sempre pelas costas. "Tenho vestido três camisas e duas calças, assim o veneno não atravessa", diz.

 

Yarid relata ter procurado a comissão de integração, mas afirma que o grupo é conivente com os veteranos. "Nas instituições onde o trote é um evento recorrente e intenso, os trotistas formam um grupo político. O aluno ingressante é o soldado raso de uma hierarquia que possui generais", explica o professor Antonio Almeida Júnior, autor de uma tese sobre o trote universitário.

 

Nas faculdades espalhadas pelo interior, o trote ainda é entendido como parte de uma importante tradição e acontece dentro do câmpus e nas repúblicas, onde se torna ainda mais difícil combatê-lo.

 

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Suspensão. Em julho de 2010, após sentir gotas arderem no pescoço durante uma aula do então diretor da Esalq, Antonio Roque Dechen, Yarid agrediu um colega. O caso foi parar na polícia. "Reagiu a uma situação que para o declarante está insuportável", consta no boletim de ocorrência. Yarid foi suspenso por uma semana.

 

O presidente da comissão de integração da Esalq, Quirino Carmello, afirma que já sabia das supostas agressões antes do incidente. "Ele conversou comigo dizendo que alguns colegas estavam jogando coisas nele. A possibilidade sempre existe, mas ele teria de conseguir provas disso e não conseguiu", disse Carmello. Um laudo psiquiátrico solicitado pela comissão indicou que Yarid "aparentemente não tem problemas psicológicos".

 

Em agosto, Yarid fez exames no Instituto de Toxicologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os valores normais para a enzima colinisterase, presente nas terminações nervosas e músculos, indicariam de 75% a 100%. A coleta no sangue do estudante, no entanto, apontou 62,5%, o que pode indicar que ele foi atacado com um tipo de substância de uso comum contra pragas na lavoura.

 

"Os sintomas podem aparecer em poucos minutos ou em até 12 horas após a exposição. A intensidade depende da toxicidade, da quantidade, da absorção", diz o professor de toxicologia da Unicamp, Fábio Bucaretchi.

 

Investigação. Em 2009, a procuradora do Ministério Público Federal em Piracicaba Heloísa Barreto ouviu professores e alunos e constatou indícios para investigar a prática do trote na Esalq. Por se tratar de uma universidade estadual, precisaria de uma atuação conjunta com o Ministério Público do Estado. No entanto, o promotor Fábio Carvalho entendeu que a atribuição para a investigação era apenas estadual, e o caso ficou sob sua responsabilidade. No ano seguinte, o processo foi arquivado.

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