Análise - As incertezas políticas para o PSDB

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2016 | 21h33

Foram os movimentos anti-PT que, impulsionados pela suspeita de manipulação dos resultados das eleições lançadas por Aécio Neves logo ao final do segundo turno, organizaram as primeiras manifestações públicas pedindo o afastamento da presidente Dilma Rousseff. A declaração do tucano, ainda no final de 2014, afirmando que tinha perdido a "eleição para uma organização criminosa”, o avanço da Lava Jato e a rápida deterioração da economia contribuíram para aumentar o tamanho das mobilizações e levar milhares de pessoas às ruas em março de 2015 para protestar contra o governo.

Entretanto, a oposição, capitaneada pelo PSDB, se dividia entre apoiar os movimentos no pedido de impeachment, mesmo sendo rechaçado por eles, ou pressionar por novas eleições - além de asfixiar o governo bloqueando ou votando contra as medidas do então chamado ajuste fiscal. O segundo governo Dilma Rousseff já nasceu sitiado. Ao longo desses quase 15 meses de mandato, o isolamento sempre foi se acentuando em função da incapacidade de coordenar uma base de apoio sólida e pela dificuldade de enfrentar a crise econômica que se agudizava cada vez mais. 

Esses fatores, associados aos intermináveis desgastes oriundos da Lava Jato, criaram o ambiente para que o pedido de impeachment, de base jurídica ainda controversa, fosse protocolado no final de 2015 sob a liderança de quadros ligados ao PSDB e de um ex-petista que havia apoiado o candidato tucano. Com isso, a oposição entrou formalmente na briga pela interrupção do mandato de Dilma mesmo sem que tenha protagonizado as manifestações públicas contra ela. A condução coercitiva de Lula o trouxe de volta ao cenário político com uma retórica de guerra e culminou com a fracassada tentativa de nomeá-lo ministro. Isso serviu para intensificar a crise política e deu ao PMDB o motivo que, talvez, esperava para abandonar formalmente o governo e passar, agora à luz do dia, a ocupar o lugar de protagonista, que seria da oposição, na condução da batalha pelo impeachment. Até então, o PSDB ainda apostava em novas eleições, o que acabou possibilitando que o vazio político na condução do impeachment passasse a ser ocupado pelo PMDB, além do fato de, naturalmente, Michel Temer, ser herdeiro do governo. Onde os tucanos perderam o chamado trem da história? Provavelmente por acreditar que o PSDB seria viável eleitoralmente numa eleição fora de época em função do recall eleitoral de Aécio Neves. 

Entretanto, o próprio PSDB não tinha consenso sobre essa hipótese. Um grupo trabalhava pelo impeachment por imaginar que seria protagonista num eventual governo Temer, como FHC tinha sido na era Itamar Franco. Outro preferia levar Dilma até 2018 e disputar as eleições em outras condições: com o PT e Lula sem capacidade de reação.

Ao não encontrar consenso, presencia-se agora uma cena política inimaginável e paradoxal: o PMDB, que também frequenta a Lava jato e que é corresponsável pela tragédia do governo Dilma, virou o principal protagonista de um possível governo de 'salvação nacional'. Se o impeachment for confirmado, o PSDB ficará diante de duas opções: participar do governo ou, então, se juntar ao PT e fazer oposição, mesmo que seja uma oposição em que pontualmente demonstre algum grau de colaboração em temas de interesse nacional. A razão é simples: se não colaborar, o PSDB pode fortalecer uma imagem que possivelmente ajudou o declínio de seus prováveis presidenciáveis na última pesquisa do Datafolha, de que faz oposição sistemática por apenas estar interessado em chegar ao poder. Se participar do governo, pode ter que abrir mão de 2018 caso o novo governo seja exitoso. Temer e o PMDB não vão perder a chance de, pela primeira vez, ver um peemedebista em condições de ser eleito pelo voto direto chegar ao Palácio do Planalto. Todavia, essa crise política, que pode levar ao impedimento de Dilma Rousseff, fortaleceu, mesmo diante das adversidades, a liderança de Lula. Ele deve ocupar o papel de líder da oposição num eventual governo Temer e também tomar um espaço crítico que o PSDB ocuparia. Ou seja, se a Lava Jato e a Justiça não tirarem Lula de 2018, o cenário pode ser o seguinte: Lula e o PMDB disputando a Presidência da República caso o governo Temer, que os tucanos não podem abandonar, retome o controle da economia e não enfrente instabilidades políticas que possam desestabilizá-lo. Nesse contexto, o PSDB corre o risco de assumir um papel que não está mais acostumado em eleições presidenciais: o de coadjuvante.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

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