Análise - Brasil estuprador

Dados do Anuário do Brasileiro de Segurança Pública de 2015 revelam que ocorreram quase 48 mil estupros no País, o que equivale a 1 caso a cada 11 minutos

Rafael Alcadipani e Samira Bueno*, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2016 | 17h44

Revolta, dor, indignação, nojo, asco. Não há adjetivos suficientes para qualificar o horror e a revolta que o estupro coletivo gerou na grande maioria daqueles que souberam dos fatos que se passaram dias atrás no Rio de Janeiro. Uma jovem foi estuprada por 33 homens. As redes sociais se revoltaram e de todos os lados surgiram comentários indignados. A violência contra a mulher no Brasil é um verdadeiro escândalo.

Dados do Anuário do Brasileiro de Segurança Pública de 2015 revelam que ocorreram quase 48 mil estupros no País - o que equivale a 1 caso a cada 11 minutos (isso mesmo, um caso a cada 11 minutos). Considerando que apenas 35% dos crimes sexuais são reportados à polícia, imagina-se que a quantidade de estupros no Brasil seja ainda maior. O mesmo anuário indica que cerca de 90% das mulheres entre 16 e 24 anos temem sofrer violência sexual. Além disso, em mais de 80% dos casos a violência contra a mulher foi cometida por homens com quem a vítima possui ou já possuiu relação afetiva. A violência contra a mulher é democrática, atinge todas as raças, todas as classes sociais, todas as idades. É um erro absoluto achar que apenas as mulheres em situação de vulnerabilidade de renda são vítimas. Se você for homem, pergunte a sua volta e logo encontrará um caso. 

Há ao menos duas outras facetas repugnantes que aparecem nesse tipo de violência. A primeira delas é responsabilizar a vítima pelo ocorrido. O absurdo indica que a pessoa "fez por merecer", devido às suas atitudes. Uma lógica simplória e cruel que iguala vítimas e criminosos. A segunda faceta repugnante é apresentar soluções simplórias como se fossem resolver o problema. Surgem as ideias de "castração química" contra estupradores e liberação de porte de armas. Sobre essa última ideia, há farta evidência científica que mostra que mais armas significam mais mortes e que a pessoa que está armada, paradoxalmente, está mais vulnerável do que a pessoa sem arma. A "castração química" é proposta por deputados que dizem coisas a respeito de uma deputada "ela é tão feia que não mercê ser estuprada". 

Para explicar casos de violência, o mais comum é usarmos a "lógica da maçã podre", ou seja, que crimes são cometidos por sujeitos desajustados que precisam ser extirpados da sociedade.  Se por um lado existe a necessidade da punição e correção legal, por outro é urgente perceber que se tantos estupros ocorrem no Brasil, há uma lógica cotidiana que sustenta a sua prática. 

A violência contra a mulher está alicerçada em uma lógica de funcionamento de sociedades que percebem a mulher como submissa e praticamente como propriedade do homem. A existência da mulher é vista e considerada como objeto de posse, condicionada às exigências masculinas e ao bel-prazer do homem. Assim, se o homem acha que deve bater, ele simplesmente se sente autorizado a bater. Se o homem está com desejo, ele simplesmente acha que pode exercer o seu desejo sexual à força. 

A reprodução dessa forma de ver a mulher é praticada cotidianamente por homens em seu dia a dia, das piadinhas que fazem até a escolha de Ministérios que não incluem nenhuma mulher sequer. A existência de tantos estupros e tanta violência no Brasil é o sinal de uma sociedade completamente tomada por um machismo atávico. Ironicamente, um dos estupradores da jovem carioca tem o sobrenome Brasil. Nada mais simbólico. 

* Rafael Alcadipani, professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e visiting scholar no Boston College, EUA, e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Samira Bueno, diretora Executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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