Análise - Ódio como cortina de fumaça

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Rafael Alcadipani*, O Estado de S.Paulo

18 Março 2016 | 21h06

Durante a Copa das Confederações de 2013, o Brasil eclodiu em manifestações. Dizia-se que o "gigante havia acordado”. Chamou a atenção dos analistas a falta de uma agenda clara e precisa das manifestações. As pessoas seguravam cartazes com demandas variadas e múltiplas: da aprovação de PECs até mais saúde e educação. Pessoas com bandeiras e camisas de partidos políticos eram escorraçadas das manifestações. Era, já, evidente a intolerância com a política tradicional. Ou seja, naquele momento de 2013, havia no ar um claríssimo movimento contra os políticos pela melhoria de serviços públicos e pela mudança do Brasil. A Reforma Política surgia como algo fundamental a ser feito. A semente do que assistimos hoje já estava ali em 2013. E, acredito, se manifesta em um completo 'saco cheio' da população com a maneira que se faz política no Brasil. A mobilidade de nossos centros urbanos é abaixo da crítica. Os serviços públicos são de baixíssima qualidade, as pessoas sentem que pagam muito imposto para nada. Muita gente se sente roubada pelos políticos. 

Vieram as eleições, que foram marcadas por ataques fortes da campanha de Dilma contra seus adversários. João Santana comandou uma campanha de medo, ofensa e mentira por parte da presidente Dilma. Do outro lado, Aécio Neves tocava na mesma toada. A guerra fratricida entre PT e anti-PT ganhou corpo e forma. Para piorar a situação, a vitória de Dilma foi no limite. Saímos da eleição com um país dividido. Por outro lado, nada objetivo foi feito para reverter o esgarçamento que já estava manifesto com a política tradicional. A crise econômica, a publicização dos escândalos de corrupção investigados pela Lava Jato foram aprofundando no País a noção de que não dá mais. A inabilidade política e econômica do governo Dilma, a sua incapacidade de construir uma base sólida no Congresso, fez com que o seu governo ficasse cada vez mais vulnerável. O PMDB, fiel da balança da governabilidade do País desde a redemocratização, seguiu a sua receita fisiológica de querer tudo e mais um pouco. Mas, desta vez, não entregou a governabilidade. Mais uma vez, nada foi feito para mudar um sistema político que sempre garantiu a seus políticos esquemas e mais esquemas.

O escândalo da corrupção foi ficando mais claro aos olhos do público. Empreiteiros foram presos, a casa de políticos foi vistoriada pela Polícia Federal. O ápice foi a controversa condução de Lula para depor. A mídia tradicional e alternativa, em conjunto com as redes sociais, produziram 'mocinhos' e 'bandidos'. O 'japonês da Federal' virou hit de sucesso até mesmo no carnaval. Ao bom estilo do herói brasileiro, o tal japonês apareceu envolvido em tenebrosas transações. Lula, por outro lado, usou e abusou do discurso de vítima e jogando fumaça na necessidade de dar explicações à Justiça e ao País. A intolerância com os políticos ganhou ainda mais destaque e o PT passou a personificar o lado do mal. Sedes do partido estão sendo apedrejadas, pessoas com camisetas vermelhas estão apanhando nas ruas. Do outro lado, incentivado pelo ex-presidente Lula, ganha corpo um discurso de que haveria no Brasil um golpe à democracia em curso. Golpe organizado por um conluio entre a grande imprensa mancomunada com o  Judiciário a favor da elite. Poucos governos ajudaram a mídia tradicional e as elites como os governos do PT. 

Empreiteiras, bancos e empresas de comunicação à beira do colapso financeiro receberam rios de dinheiro público. Os dois lados da disputa procuram vilões e orquestrações maquiavélicas para justificar seu ódio mútuo. O Judiciário começou a despontar como ator principal. Mas o Brasil descobriu que muitos de nossos juízes e promotores deixam o ego e a empáfia falar mais forte do que as suas funções. Começou a ficar claro o que muita gente do andar de baixo da pirâmide social sente na pele: nossos sistema de justiça criminal é lotado de problemas, e precisa ser reformado. 

O debate vai se radicalizando cada vez mais, com os dois lados se sentindo ameaçado. Enquanto a atitude prevalente é de colocar fogo no circo, nada de concreto é oferecido para o País para que aconteça uma mudança verdadeira na forma de se fazer política. Apesar dos percalços, a democracia brasileira vai avançando e apreendendo com os seus próprios erros. Resta a esperança de que o verdadeiro problema seja enfrentado e não fique escondido por detrás de discursos vazios e de ódio mútuo.

* Rafael Alcadipani é professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP

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