Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Centro de SP ganha 63 mil habitantes

Dez distritos inverteram tendência de queda registrada desde os anos 1990 e agora população cresce mais que a média de toda a cidade

Daniel Trielli, Rodrigo Brancatelli e William Cardoso, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

O centro de São Paulo inverteu a tendência de queda dos anos 1990 e viu o número de moradores aumentar acima da média entre 2000 e 2010. Enquanto a população paulistana cresceu 7,9% na última década, a do centro aumentou 15,4%, um ganho de 63.774 habitantes. Boa infraestrutura, facilidade nos deslocamentos e uma rede de serviços foram redescobertos por quem escolheu, na última década, morar em locais como Sé, República, Santa Cecília ou Bela Vista.

Entre os dez distritos centrais da capital paulista, apenas um, a Consolação, teve um aumento de população menor que a média da cidade. Mesmo assim, cresceu 5,2% - mais que Pinheiros, na zona oeste, por exemplo (3,8%). De 1991 a 2000, a Sé assistiu à fuga de 26% de seus habitantes. Nos últimos dez anos, reverteu a tendência de queda com um aumento de 17,6% no número de moradores. O Bom Retiro teve um crescimento populacional de 27,4%, entre 2000 e 2010, depois de ter perdido 26,4% nos anos 1990.

Embora diferentes, dados da Secretaria Municipal de Habitação divulgados nesta semana já apontavam a volta do crescimento do centro paulistano. Segundo a prefeitura, oito distritos do centro ganharam 12 mil habitantes entre 2000 e 2010, e a população chegou a 411 mil    

 

O auxiliar administrativo Osmar Pereira, de 22 anos, chegou à Bela Vista há três anos. Ele morava a cerca de 70 quilômetros dali, em Juquitiba, no sudoeste na Região Metropolitana, e optou por ficar mais próximo dos estudos e do serviço, na República. Ele diz que, fora a economia de tempo em relação aos deslocamentos, ganhou também com a infraestrutura do centro. "Tenho tudo o que preciso por perto: farmácia, shopping, teatro, cinema, mercado. Por isso se tornou uma excelente opção."

Arrancada. Segundo a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo Heliana Comin Vargas, a mudança dos prédios da administração pública para o centro, no fim dos anos 1990, foi o pontapé para o redescobrimento da região. "Deram a grande arrancada, porque trouxeram funcionários com renda fixa mais elevada e alguns acabaram optando por ficar mais próximo do trabalho."

Para Heliana, existe uma parcela da população que se opõe ao estilo de vida proposto pelos grandes condomínios de alto padrão, semelhantes aos clubes, e que encontra justamente nos imóveis da região central a tranquilidade que procura. "Eles preferem apartamentos confortáveis, sem muito barulho e outros incômodos."

O urbanista Nabil Bonduki afirma que esse processo poderia ter ocorrido de forma mais intensa nos últimos anos, com mais investimentos e uma política de estímulo à ocupação por parte do poder público. O especialista também ressalta que o centro deve servir também como opção de moradia para a população de baixa renda. "Não deve se tornar uma área de exclusão social."

O mercado imobiliário, porém, projeta outro destino para o centro de São Paulo. Segundo o vice-presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP), Claudio Bernardes, a tendência é que os bairros centrais se tornem cada vez mais o destino de famílias com alto poder aquisitivo, que trabalham nas proximidades da região.

"Hoje, os moradores do centro são os que já trabalham ali, estudantes, ou quem vem de fora de São Paulo", explica Bernardes. "No futuro, vai voltar a ter o charme das regiões centrais de outras cidades, com um aumento no valor dos imóveis. É um indutor desenvolvimento para o comércio local também."

Segurança. Em vários aspectos, todos os especialistas concordam: a presença de mais pessoas no centro deve aumentar a sensação de segurança de quem pretende caminhar pelas ruas. Apesar do crescimento populacional da última década, o centro ainda é visto como um local formado principalmente por estabelecimentos comerciais. Por isso, passa 12 horas por dia e dois dias por semana sem fluxo de pessoas. "Onde não se tem o olhar humano, há abertura para atividades ilícitas", diz a professora da FAU.

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