Cientistas fazem macaco mover e sentir objeto virtual com o pensamento

Pela primeira vez, cientistas realizaram uma comunicação bidirecional entre o cérebro de um primata e uma máquina. Dois macacos com eletrodos implantados no cérebro moveram com o pensamento um cursor na tela de um computador e sentiram a textura - virtual - de objetos.

RAFAEL CABRAL, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2011 | 03h03

A descoberta abre portas para a construção de verdadeiros avatares: corpos artificiais ou vestes robóticas que sentiriam e atuariam na realidade comandados diretamente pelo cérebro.

"A ação da mente não estaria mais confinada ao organismo humano", disse ao Estado o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, líder do grupo que realizou a pesquisa, publicada na Nature.

A nova tecnologia poderá ter aplicações tão diversas quanto ajudar pessoas com paralisia nos membros, explorar lugares distantes e realizar operações em áreas perigosas.

Origem. Em 1999, a macaca Belle, do laboratório de Nicolelis, moveu um braço robótico com o pensamento. O cientista registrou os sinais de 90 neurônios com eletrodos no cérebro da primata. Em 2001, o experimento foi considerado pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês) uma das dez descobertas que influenciarão de forma profunda o destino da humanidade.

Mas algo importante faltava. Para que dispositivos eletrônicos fossem compreendidos como uma extensão genuína do corpo, deveriam "sentir" a realidade e enviar as informações obtidas para o cérebro.

Na recente pesquisa, os macacos foram capazes de discernir a textura de objetos virtuais (mais informações nesta página). O experimento abre caminho para que outras informações, como temperatura, possam ser captadas por máquinas e reproduzidas no cérebro humano.

"Esse estudo confirma que o cérebro reconhece as ferramentas como uma extensão do próprio corpo", diz Nicolelis. "Os animais passaram a dispor do corpo virtual como se ele realmente fosse natural, criando uma nova identidade."

As interfaces cérebro-máquina fomentam a esperança de um futuro em que será possível restabelecer os movimentos de pessoas com paralisia e, ao mesmo tempo, recriar a sensibilidade perdida do tato.

Ambição. Não é à toa que o experimento faz parte do plano do consórcio internacional Walk Again. Realizado com a ajuda de outros quatro cientistas do Centro de Neurociência da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e outros dois da Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça, o projeto pretende desenvolver e demonstrar um exoesqueleto externo para devolver o movimento a pacientes quadriplégicos até a Copa de 2014, no Brasil, data marcada para a demonstração mais ambiciosa da tecnologia.

"O pontapé inicial da competição será dado por um jovem tetraplégico. Temos um projeto de seis anos amarrado com o governo federal e outras instituições para divulgar o projeto Walk Again aos demais países", afirma. "Naturalmente, a estratégia envolve a Copa do Mundo e as Olimpíadas do Brasil."

Nicolelis pretende anunciar em breve uma parceria com o governo federal para trazer a última fase do projeto Walk Again para o Câmpus do Cérebro, em Natal (RN), onde está sendo desenvolvido um programa para que tetraplégicos possam treinar com um avatar que imita o corpo humano.

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