Despedida: última noite da Help! lota

Público lamenta decisão de fechar casa de Copacabana

Felipe Werneck, RIO, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

À meia-noite em ponto de quarta-feira, o DJ toca o hino da discoteca, escrito em 1965 por Lennon e McCartney: "Socorro! Eu preciso de alguém." É o começo do fim da Help!, a possível última noite de funcionamento da casa, inaugurada 25 anos atrás na orla de Copacabana como boate de classe média, que na década de 1990 se consolidou como uma das mais famosas casas de diversão adulta do Rio.

Quinze minutos após o início dos trabalhos, com a pista ainda quase vazia, o telão mostra um close da ministra da Casa Civil e pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Ela dá uma entrevista para o Jornal da Globo, que, em seguida, exibiria reportagem sobre o iminente fechamento da discoteca. Quando apareceu a imagem do projeto de arquitetos americanos para o novo Museu da Imagem e do Som (MIS) que o governo do Estado pretende construir no lugar da Help!, um grupo de prostitutas começou a vaiar, em coro.

Pela primeira vez um telejornal foi exibido naquele lugar, ao som de Beep Beep, de Bobby Valentino. "Acho a desapropriação injusta. A Help! é uma discoteca normal, tranquila, como qualquer outra da Europa. Não acontece nada aqui dentro", diz o DJ Paulo Abib, há quatro anos no posto. "O governador e o prefeito nunca pisaram aqui. Fizeram um julgamento errado."

Uma loira de 22 anos, nome de guerra Belinha, recém-formada em Radiologia, conta que frequenta o lugar desde os 16, quando chegou de Pernambuco. "Eu trabalho honestamente. Tudo o que tenho eu tirei daqui. Minha casa no Meier, o apartamento que alugo em Copa e o meu carro", diz. "Conheci um francês que me ajudou muito. Aqui não é puteiro, é discoteca. Pago para entrar."

O ingresso custa R$ 30 até a meia-noite (depois, R$ 40). Ela cobra R$ 300 por programa, no mínimo, e acha o fechamento "uma covardia". Do lado de fora, um morador do segundo andar do prédio vizinho à boate aparece na janela: "Já vai tarde! Esse puteiro deveria ter sido fechado há muito tempo." Porteiro da Help! há sete anos, Aírton Guimarães, de 30 anos, discorda: "Falam muito sem saber, sem conhecer", diz ele, um dos 150 funcionários preocupados com a perda do emprego.

O pintor americano Claude Arango, de 63 anos, no Rio desde 2007, é um frequentador assíduo. Para ele, o fechamento é "uma hipocrisia". "É muita ingenuidade achar que, com isso, a prostituição vá diminuir." O empresário Khalid Elhassan define a Help! como um lugar para encontros, que ele, casado com uma brasileira, frequenta para rever amigos. "Gosto de dançar, estou triste, mas, por outro lado, haverá uma valorização dos imóveis nesta região", diz Elhassan, dono de agência que aluga casas para estrangeiros.

DESOCUPAÇÃO

O espanhol dono do pedaço não deu entrevista. Na entrada, um representante da casa declara: "Vai procurar matéria no Palácio Guanabara (sede do governo)." Decisão da 2ª Câmara do Tribunal de Justiça determinou a desocupação "voluntária" do imóvel até a meia-noite de ontem, após o pagamento, pelo Estado, de R$ 18 milhões pela desapropriação do terreno de 1.600 metros quadrados. Se o imóvel não for desocupado, o Estado "terá de informar o ocorrido ao juízo, solicitando as providências cabíveis".

O casal de antropólogos Ana Paula da Silva e Thaddeus Blanchette, americano radicado no Rio, foi conferir a noitada derradeira. "As pessoas falam como se a Help! fosse o quinto dos infernos, mas o que chama a atenção é como isso aqui é careta", diz Blanchette. Ele e a mulher são autores do estudo Nossa Senhora da Help!: Sexo, Turismo e Deslocamento Transnacional em Copacabana.

Segundo Thaddeus, a Help! reúne de 200 a 600 prostitutas por noite no verão. Na madrugada de ontem, a pista ficou lotada. "Em vez de ser fechada como "antro", a discoteca deveria ser premiada como modelar por seu tratamento ético e legal da prostituição", diz o antropólogo. "Ironicamente, o fechamento tenderá a espalhar o fenômeno por boa parte da orla e sujeitará as trabalhadoras sexuais aos perigos e vulnerabilidades de rua ou do controle por exploradores."

Para Ana Carolina, de 24 anos, trata-se de uma "casa de respeito". "Aqui só entra quem tá arrumado. Minha mãe está doente, preciso ajudar em casa e uma amiga me indicou. É seguro e mais reservado." Andréia, de 23 anos, diz que a Help! "pode ser prostíbulo, mas já tirou muita menina da favela". Ela morava no Complexo do Alemão, hoje vive em Copa. "Sempre me dei muito bem aqui. Agora vai todo mundo pra pista."

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