Donos de offshores se concentram nos bairros mais ricos

Cinco distritos de alta renda na cidade de São Paulo reúnem mais da metade dos endereços citados em documentos da panamenha Mossack Fonseca

Daniel Bramatti, Rodrigo Burgarelli, José Roberto de Toledo e Guilherme Duarte, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2016 | 05h00

Se você é dono de uma empresa offshore, é bem provável que algum vizinho também o seja. O mapeamento dos dados dos Panama Papers revela que os controladores de companhias abertas em paraísos fiscais não estão distribuídos de maneira uniforme ou aleatória pelas cidades, mas se concentram fortemente em determinados bairros - quase sempre os mais ricos.

Em São Paulo, por exemplo, mais da metade dos donos de offshores mora em apenas cinco distritos de alta renda: Jardim Paulista, Itaim Bibi, Moema, Consolação e Pinheiros. No Rio, 60% dos endereços relacionados a empresas em paraísos fiscais estão no Leblon, na Barra da Tijuca, no Centro, em Ipanema e em São Conrado.

Os Panama Papers são os 11,5 milhões de documentos da empresa Mossack Fonseca que, em 2015, foram entregues por uma fonte anônima ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que posteriormente os compartilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês). Com atuação internacional e especializada na abertura de empresas de fachada em paraísos fiscais, a panamenha Mossack Fonseca tinha em seus arquivos digitais dados relacionados a mais de 200 mil companhias e fundações, cujos detentores são originários de cerca de 200 países. O vazamento dos dados expôs a atuação da empresa nas últimas quatro décadas - há documentos datados desde o final dos anos 70 até recentemente.

São chamadas de “offshores” as empresas instaladas em países ou estados que permitem, em maior ou menor grau, a ocultação da identidade de seus detentores. Além disso, esses locais oferecem isenção de impostos ou alíquotas baixas como forma de atrair capitais de investidores de outros países.

Mapeamento. Nos documentos, há informações sobre 1.399 empresas relacionadas ao Brasil. Elas estão ligadas a quase 2 mil pessoas, que aparecem como beneficiários, procuradores ou acionistas.

Na maior parte dos casos, os endereços dos donos ou beneficiários das empresas aparecem nas correspondências eletrônicas dos funcionários da Mossack Fonseca. Com softwares especializados na análise e extração de dados, a equipe do ICIJ conseguiu tabular esses endereços em planilhas. A partir daí, o Estadão Dados aplicou técnicas de georreferenciamento para localizar em mapas as concentrações dos donos de offshores.

Na cidade de São Paulo, foi possível mapear 848 endereços relacionados a empresas offshore. Destes, quase um quarto se concentra em apenas 2 dos 96 distritos da cidade: Jardim Paulista e Itaim Bibi. Ambos estão entre os cinco com renda média mais alta do município, segundo os dados do Censo de 2010.

A concentração é tão alta que, em 78 dos distritos paulistanos (81% do total), há apenas cinco endereços ou menos de detentores de offshores, sendo que em 41 (43% do total) não há nenhum deles.

No ranking de número de offshores por 100 mil moradores, quem salta à frente é o Alto de Pinheiros, com taxa de 153, seguido por Consolação (138), Morumbi (137), Jardim Paulista (129), Itaim Bibi (124).

Na cidade do Rio de Janeiro, o Estadão Dados identificou a localização de 326 donos ou beneficiários de companhias instaladas em paraísos fiscais. Desse total, 16% se encontram no Leblon, bairro nobre da zona sul, e 14% na Barra da Tijuca, região de alta renda na zona oeste da cidade.

O fenômeno da alta concentração não se restringe ao Brasil. Em Londres, ele se também se revela, ainda que de forma menos acentuada: em 5 dos 625 wards (uma das áreas administrativas em que a cidade se divide) se concentram 28% dos donos de offshores. Na chamada City londrina, o centro financeiro da cidade, estão 11% dos 1.757 endereços londrinos que aparecem nos Panama Papers.

A abertura de uma empresa offshore não é, em si, um ato ilícito - no Brasil, a lei exige que sua existência seja declarada à Receita Federal. Reportagens publicadas pelo consórcio liderado pelo ICIJ, porém, revelaram vários casos em que essas empresas foram usadas para ocultar patrimônio, sonegar impostos ou esconder dinheiro proveniente de corrupção. Após a revelação dos Panama Papers, diversos governos anunciaram a intenção de combater ou restringir essa modalidade de empresa.

A investigação jornalística coordenada pelo ICIJ envolveu, durante mais de um ano, 376 profissionais de 76 países e 109 órgãos de mídia. No Brasil, participam do trabalho o UOL, o Estado e a Rede TV!. A partir de amanhã, por iniciativa do ICIJ, dados de cerca de 200 mil empresas offshore e das pessoas ligadas a elas serão colocados na internet para consulta pública.

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