Dos faltosos no Enem, 86% são da rede pública

Recorte inédito revela que 82% ganham até 3 salários mínimos; alta abstenção intriga MEC

DAVI LIRA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h07

Do total de candidatos que faltaram ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2010, 86% estudaram integralmente em escolas públicas. O porcentual representa 1,1 milhão de participantes ausentes, quase um terço do total de inscritos nesse grupo. A identificação do perfil dos faltosos é o passo inicial para atacar o alto índice de abstenção no exame - próximo a 30% nas três últimas edições -, que teve um custo de R$ 90,4 milhões somente em 2012. Em outros vestibulares, a ausência costuma ser inferior a 10%.

O levantamento, feito pela Meritt Informação Educacional a pedido do Estado, analisou os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Educação (MEC). O recorte inédito se antecipa ao estudo encomendado pela pasta ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão que organiza o Enem.

A previsão inicial do MEC era de que o perfil dos ausentes nas três últimas edições, de 2010 a 2012, ficasse pronto amanhã, mas a finalização do estudo foi prorrogado para a segunda quinzena de dezembro.

O cruzamento de dados dos faltosos mostra ainda que do perfil padrão dos 1,3 milhão de participantes que se inscreveram no teste em 2010, mas não compareceram às provas, 82% recebem até três salários mínimos.

Além disso, dos ausentes, quase 70% já concluíram o ensino médio, a grande maioria integralmente em escola pública. O porcentual é superior à representatividade do grupo dos concluintes quando observado o quantitativo geral de inscritos, 59%.

Consultado, o MEC, afirmou que a pasta não previa esse perfil, mas que o quadro traçado dos faltosos é "coerente". O ministério ainda considera "lógico" o estudo de medidas para punir os estudantes isentos de taxa de inscrição - a maioria dos que não compareceram às provas. Para o candidato que não precisou pagar a inscrição e faltou à prova, a isenção na próxima edição do exame poderia ser vetada.

Para o professor da Faculdade de Educação da UFRJ Marcio da Costa, seria mais adequado pensar em políticas de estímulo do que punição. "Muitos estudantes do ensino médio nem sequer sabem que com o Enem é possível ganhar bolsas nas faculdades privadas e entrar na universidade pública." Na avaliação do docente, com esse índice de abstenção de 30%, a possibilidade de o Enem se tornar uma avaliação nacional ampla dos estudantes fica comprometida.

A paulista Débora Soares, de 23 anos, se encaixa no perfil dos faltosos. Ela tem uma renda menor do que três salários mínimos e cursou todo o ensino médio na rede pública. Ela se inscreveu no Enem do passado mas faltou às provas. "Comecei a cursar uma faculdade de enfermagem em São Paulo, eu mesmo pagava, mas no final do ano passado tive de sair da faculdade porque já não podia mais pagar", diz, arrependida.

Números. Analisando ainda mais os números, observa-se que mais de 1 milhão dos faltantes trabalham. Enquanto esse número representa apenas 37% dos inscritos, quando analisado o quadro dos ausentes, o porcentual dos empregados chega aos 73%.

Segundo Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o MEC deve prestar atenção a esse grupo. "Os candidatos sabem que entrar na universidade é essencial para melhor se colocar profissionalmente, mas eles se desalentam em fazer o exame e acabam começando a trabalhar em subempregos", diz.

A ação contra a abstenção deve ser realizada em conjunto com a melhoria do próprio ensino médio, afirma Belivaldo Chagas Silva, vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).

"Há problemas que o Ministério da Educação precisa identificar e trabalhar em cima. A definição de uma nova referência curricular é um dos pontos", diz Silva, que também é secretário de Estado da Educação de Sergipe. / COLABOROU PAULO SALDAÑA

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