E estava começando a revolução

Em Dzi Croquettes, a história da trupe que tinha o escracho como bandeira

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Eles estrearam em 1971, no Rio. O show era de Miele e o local, a boate Pujol. No elenco, estavam Lennie Dale, Wagner Ribeiro, Cláudio Tovar, Cláudio Gaya, Ciro Barcelos e Rogério de Poli. Algo se passou naquela noite, mas a estreia talvez tenha sido mais importante pelo comportamento. Estava começando uma revolução. Os Dzi Croquettes traziam sua visão andrógina para as artes cênicas. Inspiraram os Secos e Molhados e até grupos internacionais. Com suas piadas escrachadas, podem ter sido os verdadeiros pais do besteirol. E, numa época de forte repressão política e militar - durante a ditadura de Médici -, eles eram, por si sós, uma afronta ao regime.

Por tudo isso, como não imaginar que os Dzi Croquettes seriam um prato cheio no imaginário de Raphael Alvarez? Com Tatiana Issa, ele assina o documentário sobre os Dzi que terá hoje sua primeira exibição na Mostra. No Festival do Rio, integrando a Première Brasil, o filme recebeu duplamente o prêmio de melhor documentário - selecionado pelo júri e votado pelo público. É uma produção do Canal Brasil, que no ano passado já fez história com outro resgate musical/cultural no documentário Loki, sobre o ex-mutante Arnaldo Batista. Raphael nasceu e cresceu no Rio. Ainda criança, participou de comerciais, peças de teatro e novelas da Globo, como A Gata Comeu e Partido Alto. Anos mais tarde, decidiu ir para Nova York, para se aprimorar como ator. Matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas, onde estudou atuação, teatro e produção. Atraído pela Broadway, participou de musicais. Tudo isso poderia levá-lo aos Dzi Croquettes, mas o fator decisivo foi sua parceira, Tatiana Issa. Ambos estarão hoje na estreia em São Paulo.

São amigos há 25 anos e sócios há quatro na empresa que fundaram para viabilizar seus projetos, a Tria. Tatiana iniciou a carreira aos 7 anos. Aos 9, já estava na televisão. Ela morou em diversos lugares do mundo (atualmente, reside em Nova York). Foi em Paris que conviveu com os Dzi Croquettes. Seu pai, o cenógrafo Américo Issa, fazia parte da equipe técnica da trupe e ficou amigo de seus integrantes. Tatiana tinha apenas 2 anos e achava que eram palhaços, por causa da maquiagem, conforme declarou no Rio. Mais tarde, ela acabou trabalhando com eles em vários espetáculos. Virou uma "filha" dos Dzi, assumindo parte - a totalidade, pela ousadia, seria difícil - do seu comportamento libertário. Tatiana terminava um documentário sobre Parintins quando retomou o que já era uma "velha" conversa com Raphael. Ambos chegaram à conclusão de que era um absurdo que as novas gerações não conhecessem os Dzi. Surgiu daí a ideia do resgate dessa história. Como gosta de dizer, o filme obrigou Tatiana a um mergulho - "Fui fundo na minha memória de criança, de adolescente, de mulher. Na minha relação com meu pai e com eles. Fui criada de uma maneira muito bonita e foi bom lembrar isso."

O filme conta a história dos Dzi de vários ângulos, desde o dos integrantes que ainda estão vivos até o dos que foram influenciados por eles. Marília Pêra, Gilberto Gil, Nelson Motta, Ney Matogrosso, José Possi Neto, Claudia Raia, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, todos, de alguma forma, são crias. Ajudaram a suprir a precariedade de informações de Tatiana e Raphael. Eles pesquisavam na internet e nada encontravam. As entrevistas começaram a dar uma luz. Encontraram fotos, mas não imagens em movimento. Por meio de Claudio Tovar, chegaram a um raro vídeo na Alemanha (que foi preciso restaurar). Por meio de Tovar, também chegaram a Paulo Mendonça, no Canal Brasil - sem esse apoprte, não teriam conseguido finalizar Dzi Croquettes. Com as entrevistas vieram as revelações e as histórias - algumas lindas, sobre como os Dzi foram salvos por uma tiete, Liza Minnelli. Outras tristes. Vários dos Dzi foram assassinados - a dupla de diretores sabia disso, mas desconhecia os detalhes bárbaros e cruéis. É o que faz a riqueza de DziCroquettes, o filme - por intermédio desses artistas é possível retratar o próprio país, na sua complexidade.

Serviço

Dzi Croquettes (Brasil, 110 min.)

Unibanco Arteplex 1 - Hoje (sábado), às 19h30

Cinesesc - Domingo, às 13h30

Cine Bombril 1 - Terça, às 14 h

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