Em busca da identidade perdida

Escritores haitiano e cubana participaram da mesa O Avesso da Pátria, na Flip, para discutir o exílio e a liberdade como essência da literatura

ANTONIO GONÇALVES FILHO , ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h01

A escritora cubana Zoé Valdés não segue a tradição dos autores de seu país, como Lezama Lima, que nunca saíram dele e acabaram sendo identificados como monumentos da literatura nacional. O escritor haitiano Dany Laferrière tampouco teve tempo de pensar no assunto.

Ambos vivem fora de seus países. Zoe, autora de A Eternidade do Instante, sobre um chinês que vai para Cuba atrás do pai e assume nova identidade, vive exilada na França desde 1995. Laferrière, autor de Como Fazer Amor Com Um Negro Sem Se Cansar, morou em Montreal nos anos 1970, passou pelos EUA e voltou ao Canadá, onde reside. Se a experiência de ambos é semelhante, não poderiam existir dois exilados mais diferentes entre si.

Eles foram reunidos pela organização da 10ª Flip numa mesa chamada O Avesso da Pátria. Quando a mediadora perguntou a Laferrière se, exilado, adotou a mãe como pátria, ele pediu que lesse a dedicatória de seu livro O País Sem Chapéu, que diz: "Para minha mãe, que não deixou seu país nem por um minuto".

Não se julgue precipitadamente que o autor tenha nostalgia do Haiti. "Minha mãe não deixou seu país porque ela está doente há anos e talvez imaginasse ser imoral abandonar um moribundo sequer por um minuto". Já Laferrière não sente a menor culpa. É a pátria, diz ele, que deixa as pessoas doentes. Já o sexo é, para o escritor, o verdadeiro caminho para a descoberta da identidade, "por ser um canto de guerra, o primeiro passo para a transgressão", essencial, segundo o escritor, para a construção de uma cultura autônoma e independente de valores ditados pela tradição. Religiosos, inclusive.

Em seu primeiro romance, Como Fazer Amor com Um Negro Sem se Cansar, de 1985, Laferrière conta a história de dois amigos que dividem um minúsculo e imundo quitinete em Montreal. Um passa o dia ouvindo Charlie Parker e lendo o Corão. Outro, a fazer sexo com loiras e invertendo o jogo racial. Por ser um atleta na cama, ele se julga superior às branquelas. A lógica de Laferrière fez o público da Flip rir muito.

Já Zoe Valdés é muito séria. Para a escritora, o sexo não pode ser visto sob um olhar sexista. Flaubert pode se assumir à vontade como madame Bovary, mas nunca será uma mulher. O mistério do orgasmo feminino é o que interessa a Zoe. E ele só pode ser desvendado por uma mulher. Ao contrário do que diz Caetano Veloso, a pátria não é a língua e ela nunca foi a parte decisiva da constituição de uma cultura. Talvez as partes íntimas sejam mais importantes. Bem, a língua também, claro. Em todo caso, Zoe e Laferrière concordam que o exílio serviu para que descobrissem que a liberdade é a essência da literatura, como lembrou a cubana. "Não lemos por causa do nacionalismo", diz ela. "Somos animais que ruminam informações". Não se perde um território, conclui. Ganha-se o mundo.

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