Entenda as acusações feitas ao presidente do Paraguai

Opositores dizem que Fernando Lugo apoiou movimentos de esquerda irregularmente; missão da Unasul é vista como intervenção em assuntos internos

Marcia Carmo, BBC

22 de junho de 2012 | 00h24

ASSUNÇÃO - Os parlamentares paraguaios defenderam o impeachment do presidente Fernando Lugo a partir de cinco acusações formais. Elas devem ser analisadas nesta sexta-feira, 22, no Senado, que votará o assunto.

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Lugo é acusado de vínculos com movimentos sociais do país e de falta de ação, por exemplo, contra a invasão de terras.

O deputado José López Chávez, do partido opositor UNACE, criticou uma manifestação de jovens de esquerda no Comando de Engenharia das Forças Armada, em 2009. Afirmou que o ato político teve apoio de Lugo e foi financiado com recursos da hidrelétrica de Yaciretá.

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Já o parlamentar Jorge Ávalos, do PLRA (Partido Liberal Radical Autentico), disse que na gestão de Lugo militares foram "submetidos às ordens" dos sem-terra - conhecidos como "carperos" - na localidade de Ñacunday, no início deste ano.

Segundo ele, militares teriam sido obrigados a receber ordens dos "carperos" e levado insegurança aos fazendeiros, cujas terras eram medidas. "Foi indignante ver como oficiais vestindo o glorioso uniforme das Forças Armadas recebiam ordens de carperos como se fossem soldados rasos", disse o legislador.

A terceira acusação foi feita pelo deputado Carlos Lisera, do Partido Colorado. Ele responsabilizou o presidente pelo aumento da "onda de violência" no país. "Lugo não teve a inteligência e a capacidade para enfrentar a delinqüência no país", afirmou. Ele disse ainda que Lugo não teve vontade política para combater os guerrilheiros do EPP (Exército do Povo Paraguaio).

Lisera também responsabilizou o presidente pelas mortes registradas na sexta-feira passada em uma reintegração de posse uma fazenda no interior do país - fato que desencadeou o pedido de impeachment.

Contudo, fontes do governo afirmaram que projetos de Lugo, incluindo os de combate à insegurança pública, não teriam tido apoio no Congresso Nacional, onde a maioria é amplamente opositora.

Intervenção

Uma questão de política internacional também faz parte da lista de cinco acusações dos parlamentares da oposição contra Lugo. Eles criticaram a decisão do presidente de ratificar o chamado protocolo de Ushuaia 2, de dezembro de 2011, que prevê intervenção externa caso uma democracia esteja em perigo.

Para o deputado Clemente Barrios, o texto "viola abertamente a Constituição" paraguaia e substitui o documento chamado Ushuaia 1, que é o protocolo do Mercosul de defesa da democracia regional.

Nesse sentido, o desembarque de uma missão da Unasul, na noite desta quinta-feira em Assunção, não foi bem vista por setores da oposição que interpretaram que a destituição de Lugo é uma "questão interna".

Ainda em relação à questão da violência por questões de terra no país, o deputado Oscar Tuma , do Partido Colorado, responsabilizou Lugo pelas mortes em Curuguaty, na semana passada, dizendo que o presidente foi "nefasto" para o país. E justificou "negligência" do presidente no caso. Segundo ele, os manifestantes que ocupavam a fazenda preparam uma "emboscada" contra os policiais.

"O incidente foi premeditado e ocorreu graças a cumplicidade e falta de ação de Lugo", afirmou.

Na noite desta quinta-feira, um grupo de bispos católicos esteve com o presidente na residência presidencial. Após o encontro, o grupo divulgou comunicado defendendo sua renuncia de Lugo para evitar violência no país.

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