Falência estratégica

Tornam-se cada dia mais frequentes os comentários cáusticos quanto às deficiências da política externa brasileira. Agora até mesmo por analistas que, no passado, chegaram a tecer elogios rasgados ao que consideravam a promissora diplomacia do governo Lula. E também por comentaristas estrangeiros, que sempre gostaram de ver, com potente lente de aumento, contrastes alegadamente marcantes entre as posturas brasileiras e as posições dos governos populistas vizinhos. Antes tarde do que nunca.

Marcelo de Paiva Abreu*, O Estadao de S.Paulo

14 Dezembro 2009 | 00h00

A mudança de tom parece dever-se ao efeito combinado de dois episódios particularmente penosos para a diplomacia brasileira: a trapalhada hondurenha e as relações calorosas com Teerã. Para não falar em Cuba. Vale lembrar a cínica referência da diplomacia norte-americana a respeito de Vargas, no final dos anos 30: "É uma ditadura mais aceitável do que outras."

A política brasileira é incoerente. Baseia-se ora em Realpolitik, ora em defesa fervente da democracia.

O Brasil se vê em situação de notório desgaste em relação ao tema hondurenho e na incômoda companhia dos líderes populistas na órbita do neobolivarianismo. A relação custo-benefício da operação foi assombrosamente alta. Muitos diriam que infinita, pois só houve custo.

A racionalização da visita de Ahmadinejad a Brasília também continua a desafiar os analistas. Mesmo de um ponto de vista ingênuo, não há viabilização de pleito no Conselho de Segurança das Nações Unidas que a justifique. Lula definitivamente pisou na bola ao questionar a autoridade moral de Estados Unidos e Rússia ao exigirem que o Irã cumpra as determinações da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), pois são potências nucleares. A gracinha foi anotada e, de novo, não valeu a pena. Suscita desconfiança quanto à real posição brasileira sobre a não-proliferação de armas nucleares, já espicaçada quando funcionários brasileiros lamentaram que o Brasil tivesse assinado o Tratado de Não-Proliferação no governo FHC.

Esses episódios, somados ao atolamento no Mercosul e às agruras da cooperação substantiva com as grandes economias do Sul, sublinham a fragilidade da política externa. Será que o presidente gosta de tomar lições da senhora Kirchner sobre o protecionismo brasileiro e as relações assimétricas no Mercosul?

A conclusão que se impõe é que a debilidade da política externa não tem que ver com a sua implementação, mas com a sua formulação estratégica equivocada, isto é, com a sua essência.

As críticas que agora se acumulam em relação à estratégia que baliza a política externa devem ser estendidas à estratégia global do governo, incluindo a vertente econômica. De fato, o governo parece tão satisfeito com os resultados da política externa desastrada que substituiu o responsável pela área estratégica do governo, o controvertido advogado de utopias, professor Mangabeira Unger, por um dos responsáveis pela estratégia da política externa no último setênio, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Dado que não há, no governo, foro de formulação estratégica além do Itamaraty - em sintonia com o Planalto, especialmente para assuntos neobolivarianos - e da Secretaria de Assuntos Estratégicos, o quadro é particularmente preocupante.

Este é um momento em que o Brasil tem efetivas condições de decolar rumo ao crescimento acelerado, depois de quase 30 anos de crescimento muito lento. Para transformar desejos em realidade seria essencial que se definisse estratégia abrangendo amplo leque de temas que permitisse o melhor uso possível do ganho inesperado configurado pelas novas descobertas petrolíferas. Para a formulação dessa estratégia seria essencial um debate amplo quanto a objetivos e instrumentos. Não gritaria de palanque, mas debate sério.

O que se vê, entretanto, é o governo entretido em costurar uma colcha de retalhos de favores fiscais com nítidos objetivos eleitorais, tendo como pano de fundo um perceptível banzo em relação aos bons tempos de proteção alta e muita intervenção estatal.

Infelizmente, a inflação alta é quase sempre vítima da memória seletiva. Embora sejam legítimas as preocupações em relação às consequências de uma taxa de câmbio apreciada persistente, um bom começo seria aceitar que, a menos de um cataclismo, a apreciação cambial está aí para ficar. E vai provocar, sim, significativas alterações na estrutura produtiva do País.

O que pode ser feito é atenuar as flutuações cambiais de longo prazo e criar mecanismos para neutralizar a consequência do aumento de receita de exportações e ingresso de capitais. Além disso, o governo deve tratar de identificar os setores da economia que provavelmente serão atingidos e criar programas de reestruturação de empresas e retreinamento de mão de obra. Em vez de ceder à tentação de criar um mega-hospital especializado em doentes crônicos.

Um amplo espectro de comentaristas, políticos e pré-candidatos tem insistido na necessidade de reverter a apreciação cambial. Já contribuições que façam sentido quanto à forma concreta de assegurar essa reversão são bem mais escassas. O caminho aparentemente mais fácil, segundo muitos, seria por meio de intrépida redução da taxa de juros pelo Banco Central. O que nunca é explicitado é que, a menos que haja corte de gastos, o resultado seria inflação mais alta.

Mas o governo está promovendo expressivo aumento de gastos e redução de impostos. É lento o aprendizado sobre a impossibilidade de alcançar objetivos conflitantes e que, na essência, governar é escolher.

*Marcelo de Paiva Abreu, Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

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