Guerra não é opção para a Colômbia, diz vice-presidente

Francisco Santos diz que, no entanto, que 'única coisa que governo pode fazer é atuar'.

Márcia Bizzoto, BBC

06 de março de 2008 | 13h55

O vice-presidente da Colômbia, Francisco Santos, afirmou nesta quinta-feira, em entrevista à BBC Brasil, que a possibilidade de uma guerra como conseqüência da crise diplomática entre Colômbia, Equador e Venezuela "não é uma opção" para os colombianos."O governo colombiano não cairá nesse tipo de provocações", disse o vice colombiano, ao comentar a declaração do presidente do Equador, Rafael Correa, de que a possibilidade de uma guerra não está descartada.Santos avalia que a solução para a crise "passa pela eliminação dos acampamentos das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no outro lado das fronteiras e, principalmente, do apoio explícito e da aliança que as Farc têm com o presidente (da Venezuela, Hugo) Chávez".O vice-presidente também justificou a operação de forças colombianas contra as Farc em território equatoriano e disse que, quando tem pistas sobre um importante membro do grupo rebelde, "a única coisa que o governo pode fazer é atuar".Leia abaixo a entrevista concedida por Francisco Santos, em Bruxelas, à BBC Brasil.BBC Brasil - O presidente do Equador, Rafael Correa, disse no Brasil que não descarta a possibilidade de uma guerra.Francisco Santos - Não acredito. Acho que isso, pelo menos para os colombianos, não é uma opção. O governo colombiano não cairá nesse tipo de provocações. Mas temos claro que a solução à crise passa pela eliminação dos acampamentos das Farc no outro lado das fronteiras e, principalmente, do apoio explícito e da aliança que as Farc têm com o presidente Chávez.BBC Brasil - A Colômbia voltaria a entrar em território de seus vizinhos para combater as Farc?Francisco Santos - Vamos proceder com muitíssima cautela. Mas quero deixar bem claro que a solução para o problema passa pelo fim dos acampamentos das Farc no outro lado das fronteiras e pelo fim do apoio do presidente Chávez às Farc.BBC Brasil - Como se conseguiria isso?Francisco Santos - Não sabemos. Vamos desenvolver estratégias e explorar os mecanismos legais e jurídicos existentes. Mas queremos ter absoluta convicção de que não existem esses acampamentos e não existem esses apoios. Não sei se por meio de uma comissão de verificação que permita poder discutir essas denúncias que ainda não foram resolvidas, porque não são novas. Levamos muitos anos perguntando ao presidente Chávez onde estão os acampamentos das Farc em Venezuela. Desde 2004, morreram 20 soldados e policiais (colombianos) em ataques vindos do outro lado da fronteira com Equador. Atuamos com muita prudência, mas a verdade é que a raiz da crise é essa.BBC Brasil - O senhor acredita, então, que a ação colombiana em território do Equador está justificada?Francisco Santos - Quando se adverte... Nos dois últimos anos mandamos mais de 20 informes à chancelaria equatoriana e à comissão internacional bifronteiriça dizendo que as Farc estavam lá, contando tudo e pedindo que verificassem. Quando temos informação de que existe um alto comando, a única coisa que o governo pode fazer é atuar. Consideramos que é importante que a resolução da OEA não seja apenas sobre o incidente fronteiriço, mas sim que analise qual é a causa raiz que causou esse incidente. Não podemos separar um do outro e acho que a investigação (da OEA) tem que determinar com claridade que o que existe aí é uma presença das Farc desde muito tempo, que gera instabilidade na fronteira.BBC Brasil - Existe a possibilidade de que o Exército colombiano realize novas incursões em territórios vizinhos?Francisco Santos - Não quero entrar em especulações sobre isso.BBC Brasil - Que garantias a Colômbia pode dar ao Brasil de que seu território também não será invadido?Francisco Santos - O Exército brasileiro, e o Brasil, é muito contundente na atuação contra a presença das Farc em seu território. O Brasil é um país que controla muito bem suas fronteiras e que tem muita experiência contra a presença de grupos ilegais.BBC Brasil - Qual teria sido a reação da Colômbia se um país vizinho, como a Venezuela, realizasse ações militares em seu território?Francisco Santos - Primeiro de tudo, não temos grupos que ameacem a estabilidade da Venezuela. Cada vez que existiram dúvidas por parte da Venezuela, nós entregamos informações. Não deixamos que nenhum bandido atue do nosso lado da fronteira para ameaçar aos venezuelanos, nem aos equatorianos, brasileiros, peruanos ou panamenhos. Somos responsáveis, somos um Estado de direito que não permite que utilizem seu território para nenhum ato dessa natureza. Nisso, há uma diferença radical.BBC Brasil - O senhor acredita que a imagem internacional da Colômbia se deteriorou em razão dessa crise?Francisco Santos - É preciso que a comunidade internacional entenda a ameaça que as Farc representam não apenas para Colômbia, mas também para outros países. Encontramos fotos de Raúl Reyes com jovens chilenos e mexicanos que estavam sendo doutrinados militarmente para que retornassem aos seus países não sabemos com que propósitos. Com isso, as Farc se convertem em uma ameaça continental.BBC Brasil - Antes de realizar a ofensiva em território equatoriano, o governo colombiano avaliou se essa ação poderia prejudicar as negociações para a libertação de novos reféns por parte das Farc?Francisco Santos - Não. Nenhuma pessoa, se é membro se uma organização terrorista, está protegida por participar de uma negociação humanitária. Não é sempre que temos a oportunidade de capturar um alto comando das Farc e não podíamos desperdiçá-la. Em 40 anos, Reyes foi o primeiro membro do secretariado da guerrilha capturado ou, nesse caso, morto.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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