Incidente em Brasília

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2015 | 19h36

"Era final de tarde de uma quarta-feira quando ela me olhou e disse: 'cansei, me sinto sufocada, não aguentou mais a pressão, esse peso todo que isso adquiriu' ". Foi só mais um final de relacionamento, mas pode vir a ser o relato de algum assessor mais próximo de Dilma Rousseff, quando decidir pegar a moto e deixar o Planalto para trás. É o que as tintas carregadas que pintam o quadro político brasileiro dos últimos meses fazem crer. Nem tão ao céu, nem tão ao inferno.

Não é de hoje que o sentimento gelatinoso invade cada casa no País. A Copa do Mundo passou, os elefantes que seguram o horizonte se moveram e o Brasil não acabou. Àquela época, na bica de começar o Mundial, perguntei se o mau humor era fruto de a) um desconforto generalizado com uma polarização artificial na política; b) da necessidade de maior participação nas decisões que nos afetam o dia a dia; ou c) das Jornadas de Junho, como suficientes para motivar mudanças profundas na sociedade que vão além de quatro anos, que vão além da próxima eleição - em outras palavras, se as Jornadas seriam a faísca necessária para a consciência política brasileira.

Seria temerário escolher qualquer uma delas em meio à turbulência. Assim como o é remeter a crise a uma falência do poder presidencial (bem lembrado pelo ex-ministro Ayres Britto como sendo tripartite: chefe do Executivo, chefe de Governo e chefe de Estado) e não ao fato de que em 2013 o contemporâneo sistema político brasileiro foi ferido de morte - todo ele.

As instituições da Nova República, com sua "rainha" Constituição, não souberam e não sabem lidar com um sistema que carrega em sua essência problemas estruturais. Somos tão democráticos quanto é consistente o discurso de miscigenação positiva e não existência de racismo no País. Balela!

Eleições periódicas, organizadas e limpas são o piso para a democracia, o travamento continuado (2013-2015) do sistema político nacional é fruto de uma profunda falta de accountability. Vivemos uma poliarquia, uma oligarquia política, mas não uma democracia. Os grupos de interesse (mais bem abastecidos) competem no - e pelo - mercado político, com uma ampla marginalização de participação da sociedade.

O projeto político petista não traz muito de diferente das históricas necessidades latino-americanas - domar um Estado controlador e apartado da sociedade; transformar um subcapitalismo (ou periférico, como queiram) em capitalismo real e produtivo; e realizar modernizações sociais e econômicas não-superficiais -, seja pela roupagem que for (direta-esquerda, liberais-autoritários, em qualquer das combinações possíveis), que espalhadas pelo continente, sempre tomaram um caminho deliberadamente precário em favor de pequenos grupos das elites políticas e/ou econômicas. Reitero, não é o PT ou o PSDB ou o Partido da Esquina. O tipo de comportamento dirigente está profundamente arraigado na mentalidade da elite em toda a região, da borda Sul do Rio Grande à Terra do Fogo.

Desde 2013, Planalto, base aliada e oposição continuaram escondidos atrás da crônica falta de propostas e respostas aos desafios do País. Preferem rupturas e pequenos acordos de sobrevivência a deliberadamente sentarem-se e, desconstruindo o mito de Estado controlador, chamarem a sociedade - suficiente madura - para o diálogo. Vejam-se os 29 pontos da "Agenda Brasil", um amálgama mal feito que tenta mudar a imagem de fisiológico e abrigo de um franco-atirador para a de sócio confiável do consórcio e garantidor da democracia. Além dos ganhos colaterais sabiamente calculados.

De fato, o que salta aos olhos é que muitos querem e podem ganhar com o caos. Afinal, quando a sensação de desespero se agudiza, a melancolia e o desânimo permitem discursos messiânicos e de salvação que funcionam tão bem quanto àqueles de tempos de euforia.

Diferente do que a histeria faz parecer, Dilma não sangra. Paralisada, mas sem ser o pato manco que vendem. Estou seguro que se o estivesse, faria como os personagens de Érico Veríssimo em 'Um Incidente em Antares', desvelaria todo o paraíso de Brasília. Uma Dilma furibunda seria pior do que Joaquim Barbosa, Sérgio Moro e a Lava Jato juntos. Temos exemplos recentes. O pior que se pode fazer, hoje, é balançar a árvore para que a presidente caia. Jogaria por terra anos de duro trabalho institucional, no País e no exterior, para angariar credibilidade ao Brasil.

O que inquieta já há algum tempo é a falta liderança política, não nos moldes do chamamento de Temer a uma "união do País". 2018 chega a galope para um governo que envelheceu quatro anos em poucos meses, e a situação fica mais nebulosa quando inexiste um projeto interno e externo. O que queremos ser? Para onde vamos?

Acusações pululam de todos os lados. FHC e Lula não têm mais um ao outro para panfletar na porta da montadora. Um Lula abatido, que forjou sua identidade como governo a partir de uma dura polarização com os tucanos, navegou em mar de popularidade e saiu do gabinete ovacionado, e hoje não tem tanta influência sobre a afilhada e sobre a base rebeldes. Mais, o ex-presidente se abate ainda mais por saber em seu íntimo estar face a face consigo mesmo, não tendo mais em quem descontar a frustração de ver seu projeto ruir. FHC se recolheu ao rancor, e os tucanos apontam os bicos em muitas direções.

A luta contra o regime autoritário passou, a estabilização econômica venceu a hiperinflação e a inclusão de milhões ao mercado formal foi bem-sucedida, e agora, o que nos falta fazer? Continuar uma polarização tacanha não é mais a estratégia, tampouco torcer o nariz com ar de superioridade, muito menos estampar no rosto uma esfinge e vestir (novamente) a fantasia de fiel da balança. Com a fusão dos discursos gerencial-social democrático-progressista o cabo de guerra tende a se reduzir a menos que retórica.

Os pessimistas dirão para que eu me cale e continue nos Antípodas, como entreguista ou um tipo neogringo. O lado otimista dirá que tudo se resolve, com alguma bagunça, pizzas e jeito. Prefiro pensar que vivemos um momento histórico, onde o capitalismo gambiarra-patrimonial-patriarcal, alimentado pela corrupção que sustenta elites políticas e econômicas sangra, e começamos a construir uma sociedade que não baixa a cabeça ao Leviatã.

Se as elites procuram um discurso, um primeiro passo é reconhecer que o peso do travamento do jogo comprime o dia a dia do brasileiro e não o carpete do Congresso.

O software da Nova República precisa de atualizações urgentes. Caso contrário, ainda prefiro um pato manco, sangrando, a um pato morto. De volta à Terra, é bom lembrar que o sobrenome da presidente é Rousseff, não Youssef.

* Pesquisador do Australian National Centre for Latin American Studies da Australian National University. Doutor pela Universidade de São Paulo. E-mail: fabricio.chagasbastos@anu.edu.au

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