Lei rígida garante calma em votação boliviana

País para em dia de eleição, quando até mesmo veículos são proibidos de circular

Adriana Moreira, ENVIADA ESPECIAL, LA PAZ, O Estadao de S.Paulo

07 Dezembro 2009 | 00h00

Foi como se alguém tivesse apertado um botão. O sábado de trânsito intenso e buzinas incessantes deu lugar à paz e ao silêncio assim que o relógio marcou meia-noite. Em dia de eleições na Bolívia, o país praticamente para. Não há voos, transporte público nem serviços básicos. Só se sai de casa mesmo para votar - e a pé. Para os automóveis circularem, até mesmo os táxis, é preciso uma autorização especial.

Para os bolivianos, é algo normal. Ninguém vive longe de seu lugar de votação. As determinações fazem parte de uma lei chamada de Auto de Bom Governo, da década de 1950. Ninguém pôde consumir bebida alcoólica (nem mesmo em casa) desde a meia-noite de sexta-feira. Casas noturnas também não têm permissão para funcionar - não há exceções.

A polícia faz um controle extensivo e prende quem desobedece à determinação. Para sair, só pagando multa, que varia de US$ 28 a US$ 140.

Em praticamente todos os locais de votação da cidade, o clima era tranquilo, com filas longas, porém organizadas.

O domingo ensolarado fez com que a Avenida Prado, a principal de La Paz, se transformasse em um grande parque. Foi dia de levar o cachorro para passear, de andar de bicicleta e de tomar um sorvete nas poucas casas que permaneceram abertas.

A Igreja de São Francisco, no centro, ficou livre das barracas de camelôs. Assim, o pátio pôde se transformar em um campinho de futebol improvisado. Nada de protestos ou manifestações na Praça Murillo, onde fica o Palácio do Governo. Ali, o dia foi destinado a alimentar as pombas e a aproveitar o sol.

CONTRASTE

A calmaria que vigorava ontem em La Paz contrastava com o caos que tomou conta do país há um ano, durante um período de instabilidade política que deixou a Bolívia à beira da guerra civil. Em setembro de 2008, os líderes opositores do Departamento (Estado) de Santa Cruz lideraram e coordenaram uma série de manifestações, tomando prédios governamentais e fechando dezenas de estradas.

O Auto de Bom Governo segue em vigor por 12 horas depois do fim da votação. As medidas seriam para evitar qualquer tipo de fraude eleitoral. É por isso, aliás, que depois de 6 dezembro todos os bolivianos terão uma mancha no dedo mindinho. Depois de votar, é preciso colocar a mão em uma tinta que não sai por vários dias para que não haja risco de ninguém votar duas vezes.

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