Líder é favorito, mas futuro é incerto

Quatro anos depois de sua posse, o presidente boliviano Evo Morales está prestes a ganhar mais um mandato como presidente. Se conseguir, será o primeiro mandatário boliviano reeleito para um mandato consecutivo em 45 anos. O último foi Víctor Paz Estenssoro, protagonista da Revolução de 1952, que estabeleceu o voto universal e ampliou o acesso à educação para favorecer os indígenas.

Carlos Mesa*, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

Reeleito para um terceiro mandato em 1964 (dos quatro que exerceu, pois voltou a ser presidente de 1985 a 1989), Paz Estenssoro foi tirado do cargo três meses mais tarde. As duas histórias - a de Evo e a de Paz Estenssoro - não são paralelas porque, embora ambos tenham promovido importantes conquistas para os indígenas, as de Paz Estenssoro se tornaram mais simbólicas.

Mesmo os críticos mais ferrenhos de Evo reconhecem que sua vitória é quase certa. As razões não são muito difíceis de adivinhar: ele representa a estabilidade e todos sabem que, uma vez na oposição, seria capaz de abalar qualquer governo e de voltar à política das barricadas de rua.

Além disso, sua força na Bolívia já se tornou uma mistura de símbolo e mito. Evo também satisfaz uma comunidade internacional maravilhada pelo fato de, num país indígena, haver um presidente indígena, esquecendo de que quase 50% da população boliviana não é indígena.

No entanto, há algo que favorece ainda mais o presidente: uma situação econômica muito favorável. Nos últimos seis anos, o Produto Interno Bruto (PIB) boliviano dobrou, transformando o crescimento econômico do país no mais alto do hemisfério.

A renda per capita, que até 2003 era inferior a US$ 1 mil, ultrapassará os US$ 1.400, em 2009. Entre 2007 e 2008, a Bolívia registrou seu primeiro superávit fiscal depois de mais de 70 anos e não há nada que indique mudanças nesta situação em 2010.

No entanto, quanto desse avanço pode ser considerado mérito de Evo e quanto deve ser creditado à conjuntura internacional favorável, especialmente a alta dos preços das matérias-primas exportadas pela Bolívia?

É claro que Evo beneficiou-se de uma média de preço do petróleo de US$ 90 o barril durante seu mandato, em comparação a menos de US$ 25 em governos anteriores. Além disso, o aumento dos impostos cobrados das empresas petrolíferas é o resultado de um plebiscito realizado um ano antes de sua ascensão ao poder. Por fim, a "nacionalização" do gás, que elevou ainda mais estes impostos, não nacionalizou nada.

É inútil dizer que o governo adota uma política energética péssima. Ironicamente, a Bolívia dispõe de uma receita maior, mas produz quase 23% menos gás em relação a 2005 e deixou de ser um participante estratégico no fornecimento de energia no Cone Sul.

Igualmente, seria inútil dizer que a pobreza aumentou dois pontos porcentuais desde sua posse e os indígenas, com exceção da distribuição de dois vales para crianças em idade escolar e para as mães de família, não se beneficiaram com políticas estruturais de investimento social nas áreas rurais de extrema pobreza.

Também seria pouco lucrativo do ponto de vista eleitoral denunciar a destruição quase total do estado de direito e o "golpe" que eliminou o Tribunal Constitucional do país, há mais de três anos.

Por outro lado, a Bolívia tem uma nova Constituição, ratificada em um plebiscito que incorporou duas bandeiras oficiais - além da já conhecida, nas cores vermelha, amarela e verde, há agora a wimphala, bandeira multicolorida que representa somente os povos aimara e quíchua, o que faz com que uma parte da população (a andina) imponha seu símbolo às demais.

Com Evo, a Bolívia deixou de ser uma república e hoje denomina-se "Estado Plurinacional", com cinco graus de autonomia e 36 "nações indígenas-camponesas". Abaixo, em uma categoria inferior, estão os bolivianos de comunidades interculturais e os afro-bolivianos. Sem dúvida, são categorias pitorescas do ponto de vista conceitual, mas que expressam a complexidade da nova proposta.

A oposição, que em 2008 fracassou em seu intento de desestabilizar Evo de maneira não democrática, acabou encurralada pela identificação emocional da maioria com o presidente.

O principal opositor nas eleições de hoje, Manfred Reyes Villa, pertence à velha política. Ele foi aliado dos ex-presidentes Hugo Banzer e Gonzalo Sánchez de Lozada, mas também foi prefeito e governador de Cochabamba.

Reyes Villa, repetindo o mesmo argumento de Jorge Quiroga, o líder anterior da oposição ao atual governo, uniu de modo precário figuras conservadoras e velhas elites, especialmente respaldado por Santa Cruz e Tarija, os dois departamentos que mais resistem a Evo.

A base da proposta de Reyes é: "Evo nunca mais", uma proposta medíocre e com o ranço do passado. Se, inicialmente, a ideia era forçar um segundo turno, hoje sua modesta aspiração é bloquear o eventual controle dos dois terços da nova Assembleia Plurinacional por parte do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo.

O terceiro candidato é Samuel Doria Medina, empresário de centro que também é procedente das fileiras políticas do passado. Foi ministro e candidato à vice-presidência na chapa do ex-presidente Jaime Paz Zamora, em 1997. Doria, cuja falta de carisma é um obstáculo difícil de superar, decidiu fazer uma campanha com base no discurso econômico.

FAVORITISMO

Ninguém diz, mas a oposição respira um ar derrotista. Como consequência, a Bolívia vive a campanha mais tediosa e anódina dos últimos 30 anos. A crônica já está escrita, resta apenas ajustar os detalhes.

Seria tudo muito simples, não fosse o fato de o futuro ser bem mais complexo do que os últimos quatro anos. Seria simples não fosse o fato de os desafios para a aplicação da Constituição serem gigantescos.

Além disso, em abril, haverá uma eleição para governadores que desenhará um novo mapa regional. Para complicar ainda mais, existem pontos de tensão essenciais que não foram superados.

Apesar do resultado previsível, o futuro do país é incerto. No que se refere ao presidente Evo, tem-se a impressão de que, hoje, na eleição, ele abrirá as portas de seu paraíso.

*Carlos Mesa é jornalista e foi presidente da Bolívia entre 2003 e 2005

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