Lucas Mendes: Malvinas, Reagan e Tatcher no gelo

30 anos após a invasão, as ilhas ameaçam a voltar esquentar a pauta da ONU.

Lucas Mendes, BBC

29 Março 2012 | 05h36

Neste 2 de abril a invasão das ilhas que os britânicos chamam de Falklands, e os argentinos de Malvinas, vai fazer 30 anos. 74 dias depois, com 649 baixas, "los hermanos" se renderam. Os britânicos perderam 255 militares e 3 moradores da ilha mas o triunfo reforçou o prestígio da primeira-ministra Margareth Thatcher e apressou a queda do regime militar liderado pelo ditador Leopoldo Galtieri.

As Malvinas ainda matam muita gente de tédio, mas a prosperidade e segurança dos seus 3 mil habitantes são invejáveis e custam caro à coroa. Quase tudo é de graça. Para problemas médicos complicados os moradores são levados para hospitais no Chile. Os universitários estudam de graça na Grã-Bretanha. Um cidadão britânico custa ao Estado dez mil libras, um morador da ilha custa o dobro.

Antes da invasão os britânicos queriam fazer um acordo com os argentinos e se livrar daquelas rochas geladas, distantes de manutenção cara. Desde então, encareceu mais ainda, mas os residentes da ilha detestam os argentinos. Querem continuar britânicos.

Quando os militares argentinos decidiram invadir a ilha para recuperar o minguante prestígio da ditadura, uma das fontes de informação dos generais foi o influente diplomata Vernon Walters que desde a Segunda Guerra teve conexões fortes com a América Latina em geral e com o Brasil em particular. O diplomata disse aos militares que se invadissem as ilhas os ingleses iriam rugir e bufar mas não mandariam tropas. Pobre Argentina, pode chorar.

Há poucos dias, numa entrevista para o programa Milênio, passei algumas horas com o professor Richard Aldous que acaba de publicar Reagan e Thatcher: uma relação difícil, muito bem recebido por críticos e historiadores em vários países.

Foi o nono livro de Aldous que tem 42 anos anos e parece dez anos mais jovem. Ele teve acesso a documentos até então secretos e conta detalhes preciosos sobre as relações entre os dois líderes.

As Falklands/Malvinas foi uma das maiores brigas entre Reagan e Thatcher que estavam no período de lua de mel, com o cowboy recém empossado e mulher, ainda não de ferro, em busca de uma liga poderosa.

A inglesa esperava apoio imediato e incondicional à invasão e não se importava com as preocupações do americano com as esquerdas latinas. A embaixadora americana na ONU, Jane Kirkpatrick, não resistia a um ditador de direita e apoiava os argentinos.

Reagan colocou seu secretário de Estado, Alexander Haig, um general, numa ponte aérea entre Londres e Buenos Aires. A mulher ouvia e passava sermões no general. Ia adiante com armada a todo vapor , rumo às ilhas.

Aflito, Ronald Regan pegou no telefone e ligou para o general Galtieri em busca de concessões que pudessem frear Thatcher mas o general estava embriagado. Ligou de volta quatro horas depois. Reagan conta que o porre não tinha passado completamente mas a incoerência de Galtieri não era o maior problema.

Vários generais argentinos davam ordens, ninguém se entendia, as promessas eram feitas e desfeitas em questão de horas.

O presidente Figueiredo, em maio, estava em Washington numa visita oficial. Richard Aldous conta que ele disse ao presidente Reagan que os ingleses planejavam bombardear forças argentinas no continente. O americano pegou de novo no telefone.

Thatcher disse que faria tudo que fosse necessário para proteger seus soldados mas nunca mandou bombardear a Argentina.

A briga entre os dois provocada pelas ilhas foi uma das mais intensas mas não a mais longa. A União Soviética era o principal foco de atritos. A primeira foi sobre sanções econômicas, a mais grave foi sobre desarmamento.

Reagan queria um acordo radical para eliminar todas armas nucleares e exasperava Thatcher porque sem elas nenhum exército europeu seguraria o exército russo.

O desarmamento só não foi adiante porque Reagan insistia na construção do projeto guerra nas estrelas que teria como objetivo destruir mísseis com armas instaladas no espaço.

Nem com a promessa que os Estados Unidos dividiriam todos segredos e recursos do SDI (Space Defense Iniciative) com os soviéticos Reagan conseguiu convencer o time do Gorbachev.

Reagan e Thatcher brigaram sobre orçamentos e redução de impostos e quando Reagan invadiu Granada, parte do Reino Unido, mas na frente das câmeras sempre mantiveram a postura de uma de união perfeita e indivisível.

Richard Aldous conta que durante a juventude os dois tiveram algumas semelhanças na vida, ambos de origens modestas.

Ela, educada em Oxford, se achava moral e intelectualmente superior a Reagan mas as afinidades ideológicas eram profundas. Na velhice ambos tiveram a doença de Alzheimer. Ela ainda está viva. Reagan, já com sinais de demência, terminou o mandato feliz em sair de Washington para o seu "Rancho nel Cielo" na Califórnia. Thatcher nunca aceitou o golpe dos aliados que a tiraram da liderança e nunca se ajustou à obscuridade. O alimento essencial dela era o poder.

A Grã-Bretanha, e as ilhas Falklands ou Malvinas, vão comemorar discretamente o 2 de abril. Mais cedo ou mais tarde, com ou sem petróleo no fundo do mar, a soberania das ilhas geladas vão esquentar a pauta da ONU. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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