Mais antigo cinema do Rio festeja 100 anos

Comemoração teve bolo e presença de Marília Pêra, mas dona do Cine Íris quer apoio para centro cultural

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

O mais antigo cinema em funcionamento no Rio, o Cine Íris, completou ontem 100 anos, com festa, bolo de 15 metros e a presença da atriz Marília Pêra. Mas o presente esperado por Neyde Brilho Cruz, neta do fundador da casa, ainda não chegou - um parceiro para restaurar o prédio e transformar o Íris em centro cultural.

O local abriu como o Cinematographo Soberano, com 2 mil lugares - com algumas das cadeiras cativas para personalidades ilustres, como Ruy Barbosa. Ao longo dos anos, foi arrendado para cadeias como Severiano Ribeiro e Bruni. Nos anos 80, o cinema foi retomado pelos filhos de João Cruz Júnior, seu fundador. "Ainda tentamos passar filmes do grande circuito, mas eram distribuídos para as grandes cadeias e chegavam aqui depois. Também exibimos seriados de kung fu e de caubói. Não deu certo. Só saímos do vermelho quando começamos a oferecer programação para maior de idade", diz Neyde.

A tal programação consiste em filmes pornôs, interrompidos três vezes por dia por shows eróticos ao vivo dirigidos pelo transformista Lady Ágatha, um ex-professor de português, com 25 anos de carreira na noite. São nove bailarinas que se apresentam, de segunda a sábado, em "shows de strip-tease, sem vulgaridade", atesta Lady Ágatha.

O ingresso custa R$ 9, com meia-entrada para estudantes, deficientes e idosos - o maior público do Íris. "O show de 15h30 é o mais cheio, o preferido dos aposentados", diz Ágatha, que faz um número cômico. O ingresso é válido para o dia inteiro. Lady Ágatha conta que alguns espectadores são tão assíduos que chegam pela manhã e, na hora do almoço, encomendam a refeição para comer no Íris. "A gente tem até um cantinho para eles, com mesas, no segundo andar."

A bilheteira Cristina Clara dos Santos, de 50 anos, confirma que "todo tipo de gente" frequenta o lugar. "Vem do boy ao executivo. Mas todos muito educados, respeitam os funcionários. Tive receio quando comecei aqui, há quatro anos, mas descobri que a preconceituosa era eu", afirma a bilheteira, orgulhosa do emprego. "Aqui, minha carteira de trabalho foi assinada pela primeira vez."

No prédio centenário - construído num terreno da Ordem da Penitência, que a família só conseguiu comprar em 1997 - funcionam apenas a sala de exibição e o primeiro andar, alugado para festas, uma das fontes de renda da família. Três andares estão desativados. "Já disse que não vendo para a Igreja Universal, nem para supermercado. Ainda acredito que o Íris será restaurado e vou ver o projetor voltar a funcionar", afirma Neyde. Ela explica que hoje passa filmes em vídeo.

O plano dela é manter a sala de cinema e abrir as salas dos pisos superiores para escolas de teatro e balé. No terraço funcionaria restaurante ou café. A restauração incluiria a recuperação da fachada, modernização das instalações elétricas e reforma do mobiliário.

A direção do Íris já esteve em negociação com o ator Miguel Falabella, que estaria interessado em abrir ali uma escola de teatro. A ideia não prosperou. "Ele estava ocupado com os projetos dele e acabamos perdendo o contato. Mas ainda esperamos que empresários voltem os olhos para nós", afirma Teresa Cristina Repsold Paixão, bisneta do fundador.

Marília Pêra, que frequentou bailes de carnaval ali nos anos 70, se disse emocionada em participar da comemoração, oferecida pela Sociedade dos Amigos da Rua da Carioca (Sarca). "Minha avó, Dinorah Marzullo Pêra, apresentou-se como bailarina aqui. Torço muito pela restauração."

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