Mudanças climáticas aquecem mercado de vinhos ingleses

Pela primeira vez, os vinhos ingleses ganharam mais de 20 medalhas em competição internacional

BBC

09 Julho 2007 | 14h45

Os produtores de vinho da Inglaterra não têm motivos para se queixar do aquecimento global. O aumento das temperaturas vem favorecendo a expansão de um mercado que não desfruta de qualquer tradição e ainda é pouco conhecido entre os ingleses. Em entrevista à BBC Brasil, o presidente do English Wine Producers (Produtores Ingleses de Vinho, em tradução livre), Mike Roberts, disse que "a indústria vem se beneficiando com a elevação nos termômetros", o que faz com que o clima da região sudeste, onde estão concentrados a grande maioria dos 362 vinhedos da Inglaterra, torne-se mais propício para o cultivo. De acordo o Met Office, o serviço de meteorologia do governo britânico, as temperaturas registradas nos últimos três anos no sudeste da Inglaterra estão 1º C acima da média (13,7º C), ideal para as uvas, que necessitam de pelo menos 10 ºC para amadurecer. "Houve um aumento na produção de vinhos nos últimos anos, com destaque para o ano passado, quando a produção média de garrafas saltou de 2,1 milhões para 3,4 milhões", afirma Mike Roberts. Prêmios "Mais importante, porém, do que quantidade, é qualidade", ressalta Roberts, que comemora os prêmios que os vinhos nacionais receberam, em maio, durante a competição promovida pelo International Wine Challenge (IWC), uma das mais reconhecidas da indústria. Pela primeira vez desde que a competição foi lançada, há 24 anos, que os vinhos ingleses ganharam tantas medalhas. Foram 21 no total, o que representa o dobro das premiações obtidas em 2005. "Com os dias mais quentes, as uvas perdem acidez, ganham açúcar, e amadurecem mais rápido, originando um vinho que concentra muito mais sabor", explica Christopher White, diretor da vinícola Denbies Wine State, vencedora da única medalha de ouro entre os ingleses, com o espumante Greenfield 2003, um dos anos mais quentes da história do Reino Unido. Champagne No momento, a produção de vinhos na Inglaterra é maior do que a dos espumantes, mas a situação começa a se inverter. "Por causa da proximidade e, agora, com as temperaturas um pouco mais elevadas, o clima do sudeste está bem similar ao do norte da França, favorecendo o cultivo de uvas mais adequadas para a fabricação dos espumantes", comenta Mike Roberts. Cauteloso, ele diz que é prematuro afirmar que, em dez anos, o espumante inglês será tão bom e famoso quanto o champagne, mesmo porque até lá a produção inglesa não terá sido capaz de se equiparar à francesa. Atualmente, a França produz 300 milhões de garrafas de champagne por ano, enquanto a Inglaterra espera produzir 11 milhões de garrafas de espumantes daqui a uma década. Por enquanto, todo o vinho produzido na Inglaterra é vendido internamente, o que não significa que a bebida goze de boa reputação entre os consumidores. Uma pesquisa realizada pelo instituto Yahoo! Answers mostrou que 40% dos entrevistados nunca haviam experimentado a bebida nacional e, entre esses, um quinto admitiu não ter idéia de que se produzia vinho por essas terras. Alerta Crítico do discurso "catástrofico" sobre o aquecimento global, Mike Hulme, diretor do Centro Tyndall para Pesquisas em Mudanças Climáticas, no Reino Unido, disse que a expansão da indústria de vinhos pode servir como exemplo do "lado bom" do aumento das temperaturas. "É preciso reconhecer que as uvas gostam de um clima mais quente e, nesse sentido, o aumento das temperaturas está certamente ajudando os produtores ingleses." Já a enóloga Lucie Parker, no entanto, lança o alerta. "Se o clima continuar esquentando, a indústria de vinhos poderá enfrentar sérios problemas, como o surgimento de novas pragas, a falta de água, e a necessidade de introduzir novas variedades de uvas".

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