Nota de corte de cotista é 5% menor em cursos de ponta

Diferença média entre cotistas e não cotistas em Medicina, Engenharia Civil e Direito é menor que abismo entre escolas públicas e particulares

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2013 | 02h01

Mesmo com a adoção de cotas para estudantes de escolas públicas nas universidades federais, os cursos tradicionalmente mais concorridos continuam promovendo uma peneira. A diferença das notas de corte do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) dos cotistas e não cotistas em Medicina, Engenharia Civil e Direito era de 5,14%, na média. Em geral, a diferença não acompanha, por exemplo, a distância de desempenho entre escolas privadas e públicas no Enem, que é de 17%.

As notas de cortes do último dia de inscrição do Sisu mostram que para garantir uma vaga como cotista é necessário ter uma nota no Enem bem próxima à da concorrência geral. Nos três cursos analisados, a diferença média é de 36 pontos entre os dois grupos. Os dados foram extraídos do portal do Sisu pelo Estadão Dados.

De acordo com o professor Tufi Machado, do departamento de Estatística da Universidade de Juiz de Fora, em cursos muito concorridos a diferença na notas é pequena. "Com uma distância de 30 pontos praticamente não há diferença entre candidatos do ponto de vista de medida."

A Lei de Cotas exige que, neste ano, 12,5% dos ingressantes de cada curso sejam de escola pública, com critérios de renda e cor de pele. Em quatro anos, esse porcentual deve chegar a 50%.

Uma das críticas à lei é que haveria ingresso de alunos mal preparados. Machado discorda. "Não teremos alunos ruins, assim como as cotas não resolverão nenhum problema social", afirma ele, que diz acreditar que, mesmo quando o índice de 50% for alcançado, as notas de corte serão também próximas.

A distância relativamente pequena entre as notas de corte, apontada pelo Estado na semana passada, chegou a ser comemorada pelo ministro da Educação Aloizio Mercadante (PT). Mas essa diferença não significa que a educação pública vai bem, como o próprio Mercadante indicou. "Não pode ser lido como uma acomodação ou como se o desafio da educação não fosse imenso", disse na ocasião.

Os cursos concorridos tendem a atrair alunos de escolas federais e técnicas de melhor qualidade que as redes públicas normais. Na Universidade Federal Fluminense (UFF), por exemplo, um grupo de vagas é reservado a alunos de escolas públicas que não sejam de federais, militares ou de aplicação. A nota de corte desse grupo é mais baixa que a da concorrência ampla e de outras opções de cotas.

Outra explicação para a diferença de notas de corte não acompanhar, em geral, a diferença de desempenho no Enem entre a rede privada e pública é o número pequeno de vagas reservadas. Em Medicina na Universidade Federal de Viçosa, por exemplo, enquanto 32 vagas estão abertas para concorrência ampla, apenas 8 são reservadas para cotistas. Dessas, só 1 pode ser ocupada por quem estudou em escola pública, independentemente de renda e cor de pele.

Assim, a nota de corte dessa vaga era de 792,82, maior que na concorrência geral. Nesse curso, a distância média das notas de corte de cotistas e não cotistas era de 1,71%.

Em geral, as notas de corte para as vagas destinadas a pretos e com renda de até 1,5 salário mínimo são menores quando comparadas com a concorrência ampla. Indígenas também ficam mais distantes.

No último dia de inscrição, na sexta-feira, Medicina foi o curso que apresentou a menor diferença entre na notas de corte entre os três analisados, mesmo tendo as maiores notas de corte no geral. A distância média era de 4,01%. Em Engenharia Civil era de 5,38% e em Direito, 6,03%.

Neste último estão os cursos com as maiores diferenças. Na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, unidade de Paranaíba, as notas de cotistas são 17,56% menor que o geral. O cálculo considera a média das notas destinadas a indígenas e negros de escola pública - os dois recortes definidos pela instituição. / COLABOROU AMANDA ROSSI

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