OMC decide não convocar reunião ministerial sobre Doha

O diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Pascal Lamy, decidiu não convocar uma reunião ministerial em Genebra neste mês para buscar um avanço nas negociações da Rodada de Doha, disseram diplomatas na sexta-feira. A decisão significa que os ministros não conseguiram responder a um pedido de líderes do G20 feito no mês passado para que um acordo fosse alcançado até o final deste ano, visando ajudar a conter a crise financeira. A medida também promete acarretar em um período de incertezas para o comércio internacional, no momento em que o mundo enfrenta uma forte crise econômica. Lamy claramente decidiu que as perspectivas de sucesso na reunião não são altas o suficiente para convocar os ministros neste momento. Isso formalmente deixa a Rodada de Doha ainda em progresso, mas economistas dizem que será muito mais difícil alcançar um acordo no ano que vem, quando a economia mundial já estará em uma situação muito pior do que hoje. Mas Lamy deixou a líderes políticos, como o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, que pressionou por um acordo, a oportunidade de salvar as negociações durante o fim de semana. "Líderes demonstraram um desejo, mas isso não se traduziu em vontade suficiente nesta etapa", disse Lamy em uma reunião de embaixadores da OMC. "A menos que isso mude dramaticamente nas próximas 48 horas, essa é a realidade de Genebra", disse ele segundo um participante da reunião. Os próximos passos para negociação serão discutidos em uma reunião do conselho geral da OMC em 18 e 19 de dezembro. Para o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, sem um avanço agora, uma conclusão para a rodada, que já tem sete anos, demorará ainda mais tempo. "Seria mais fácil ter isso agora do que daqui a alguns meses. Acho que se esperarmos provavelmente levará anos", disse ele pouco antes do anúncio da decisão de Lamy. Amorim, entretanto, afirmou que o trabalho continuará a ser feito em busca de um avanço nas negociações. "Se não tivermos progresso agora... não vamos nos desesperar. Vamos continuar trabalhando aqui. Isso vai demorar mais, o mundo entrará em uma recessão mais profunda, o comércio não vai ajudar a tirar o mundo da recessão, mas vamos continuar com as negociações", completou. TRÊS QUESTÕES Lamy havia indicado anteriormente que uma reunião poderia ser realizada neste fim de semana. Mas na segunda-feira, depois de se reunir com embaixadores da OMC para discutir os textos revisados de negociação sobre agricultura e bens industriais divulgados no sábado, ele decidiu que são necessárias mais consultas em três questões sensíveis. Uma delas é a proposta para criar zonas livres de impostos em alguns setores industriais como químicos. Outra é para proteger produtores de países pobres do aumento das importações, e uma terceira a respeito de subsídios ao algodão -- todos do interesse dos EUA. Lamy disse aos embaixadores que importantes players comerciais não estão dispostos a gastar capital político para reduzir as diferenças sobre os acordos setoriais e as questões de salvaguardas agrícolas. Lamy passou os últimos três dias em conversas pessoais e teleconferências com ministros e autoridades de Estados Unidos, China, Índia, Brasil e outras potências para tentar reduzir as lacunas dessas questões, disseram autoridades. A Representação Comercial dos Estados Unidos informou estar desapontada por não ter havido consenso suficiente que permitisse a convocação de uma reunião ministerial. O órgão do governo dos EUA disse que persistiam muitas lacunas entre as posições das partes nas negociações da Rodada de Doha. "Estamos decepcionados por o diretor-geral não ter conseguido estabelecer uma base para uma reunião ministerial produtiva que levaria a um resultado ambicioso e equilibrado de Doha", afirmou em comunicado Gretchen Hamel, porta-voz da titular da Representação Comercial, Susan Schwab. Os Estados Unidos mostraram flexibilidade durante as últimas semanas mas "muitas lacunas permaneciam e vários membros da OMC demonstraram preocupação", disse Hamel. "Existia também mais que um punhado de questões na mesa necessitando solução, e todas elas com o potencial de travar a rodada". (Com reportagem de Roberta Rampton, em Washington)

JONATHAN LYNN, REUTERS

12 Dezembro 2008 | 13h30

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