Parada gay de Madri faz campanha sobre escolas 'sem armários'

Grupos de defessa de direitos de gays na Espanha querem que ensino adote aulas sobre homossexualidade.

Anelise Infante, BBC

22 Junho 2009 | 11h57

A Parada do Orgulho Gay em Madri comemora 40 anos nesta semana com uma nova reivindicação: aulas sobre homossexualidade nos colégios para acabar com as discriminações. O lema da manifestação será "Escolas sem armários".

A campanha do lobby gay espanhol - que já conseguiu a aprovação de leis que permitem os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, adoção de menores por casais gays, ajuda aos transexuais para mudança de sexo - agora pretende provocar uma revolução nas salas de aula.

Baseados em pesquisas sociológicas que denunciam casos de marginalidade e perseguição a estudantes homossexuais, a Federação Estatal de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais (FELGTB) exige mudanças no sistema educativo para incluir nas escolas uma disciplina ou temáticas que abordem a homossexualidade.

"O sistema educativo não pode deixar de lado tantos jovens que estão crescendo se sentindo perseguidos, marginalizados, culpados ou estranhos. É uma questão de resolver cedo os problemas de discriminação através da educação", disse à BBC Brasil o presidente da FELGTB, Antonio Poveda.

"Parece mentira que no século 21 ainda haja casos de menores ridicularizados nos pátios escolares chamados de marica e tratados de forma pejorativa. Por isso vamos levar esta campanha às ruas declarando 2009 como o ano da diversidade afetivo-sexual na educação."

Campanha

Para criar o lema "Escolas sem armário" a organização da parada do orgulho gay usou como referência dois relatórios que concluíram que a discriminação contra menores de idade gays provoca marginalidade, problemas de saúde e até abandono escolar.

O informe sobre homofobia e discriminação na União Europeia, divulgado em março de 2009 pela Agência Europeia de Direitos Fundamentais, mostrou exemplos de rejeição nos colégios onde alunos são ridicularizados, marginalizados e perseguidos por causa de sua orientação sexual.

Segundo esta pesquisa feita em 18 países da UE, existe uma "situação de isolamento dos estudantes gays" e os professores "raramente são treinados, preparados ou inclinados a discutir sobre o tema da sexualidade".

O relatório indicou ainda que há instituições religiosas e esportivas em que o tema homossexualidade é um assunto tratado como tabu.

Esta também foi a conclusão de outro informe espanhol encomendado pela FELGTB.

Uma pesquisa entre estudantes espanhóis indicou que 85% dos entrevistados de ensino médio não souberam citar nenhum nome de personalidade histórica conhecida também por ser gay.

O poeta espanhol Federico García Lorca, assassinado durante a guerra civil espanhola, acusado de subversivo e homossexual, foi reconhecido como gay por apenas 7% dos alunos que responderam à pesquisa.

Lorca será o homenageado da parada gay deste ano, "porque sua condição de homossexual marcou sua vida, obra e morte", disse Poveda.

"Durante décadas, essa opção sexual foi invisível para muita gente, não aparecia em nenhuma biografia. O que fazemos agora é uma reparação histórica porque o mundo precisa de referências como ele."

A FELCTB criou no início do ano um projeto piloto em uma escola madrilenha, onde uma vez por mês um homossexual conversa com alunos e esclarece dúvidas sobre o cotidiano, preconceitos e hábitos de saúde nas relações sexuais.

Os eventos do Orgulho Gay em Madri vão ocorrer entre os dias 25 de junho e 5 de julho, com a parada principal marcada para o dia 4 de julho.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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