PERFIL-Ex-bastião da ética, Demóstenes pode perder mandato

Visto até março deste ano como uma reserva moral e defensor da ética no Senado Federal, Demóstenes Torres (sem partido-GO) corre o risco de perder o mandato nesta quarta-feira, caso 41 de seus colegas considerem que ele quebrou o decoro e decidam cassá-lo por suas relações com o empresário Carlinhos Cachoeira.

EDUARDO SIMÕES E MARIA CAROLINA MARCELLO, Reuters

11 de julho de 2012 | 10h12

Em seu segundo mandato como senador e promotor de Justiça de carreira, Demóstenes costumava ser uma das primeiras vozes do Senado a se levantar quando surgiam denúncias de irregularidades na imprensa.

A chegada de seu nome às manchetes de jornais este ano, acusado de usar seu mandato para beneficiar Cachoeira, causou surpresa em colegas e o levou a denunciar uma campanha na mídia para atingi-lo.

"O Senado vai escolher que futuro pretende, se de insegurança jurídica, em que qualquer de seus integrantes terá de ser eliminado para atender a sanha acusatória, ou um amanhã justo, respeitando-se os direitos dos representados, sem pressa", disse o parlamentar em seu último discurso no plenário da Casa antes da votação secreta que selará seu futuro.

Visivelmente abatido e mais magro, o parlamentar goiano de 51 anos tem reunido esforços, às vésperas de seu julgamento político, para salvar o mandato e manter o foro privilegiado. Desde a semana passada, tem subido à tribuna para se defender e chegou a pedir perdão nominalmente a diversos senadores.

Entretanto, ele não parece mais gozar do prestígio que tinha junto aos colegas em março, quando surgiram as primeiras denúncias. À época, Demóstenes subiu à tribuna para prestar esclarecimentos e recebeu apartes de senadores históricos, do governo, da oposição e independentes -casos de Eduardo Suplicy (PT-SP), Pedro Simon (PMDB-RS) e Álvaro Dias (PSDB-PR).

"Senador Demóstenes, vossa excelência pode prescindir de defensores. Não precisa defender-se. Sua defesa está na sua trajetória, na sua história, na sua postura republicana de todos os momentos. Queremos manifestar, em nome do PSDB, nossa confiança absoluta em vossa excelência", disse Dias em aparte a discurso de Demóstenes no início de maio.

A vice-presidente do Senado, Marta Suplicy (PT-SP), também reconheceu que as denúncias contra o parlamentar foram uma "surpresa gigantesca".

"Tantas vezes ficamos impressionados com sua capacidade, com seu brilhantismo como opositor e com sua defesa da ética e da correção no lidar com as coisas públicas", afirmou a senadora, durante sessão recente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Para ela, a tentativa do parlamentar de "manipular" os colegas com os discursos demonstra uma "patologia".

Escutas da Polícia Federal sugerem que Demóstenes teria viajado em um avião pago por Cachoeira, e que utilizava um aparelho de rádio e telefone fornecido pelo empresário.

Em depoimento ao Conselho de Ética, Demóstenes negou envolvimento com jogos ilegais, mas assumiu ter uma "relação de amizade" com Cachoeira, que está preso desde o início do ano acusado de comandar uma rede de jogos ilegais.

O senador, que já foi procurador-geral de Justiça de Goiás, presidente do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais de Justiça e secretário de Segurança Pública de seu Estado disse ter aceitado o telefone por "comodidade" e que usava o aparelho para se comunicar com "várias pessoas"

As relações de Cachoeira com empresas e políticos são o foco de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista no Congresso. Demóstenes foi convocado para depoir à CPI, mas optou por se manter calado.

Eleito senador pelo DEM em 2002, o senador deixou o partido neste ano após a legenda decidir abrir processo de expulsão contra ele por conta das denúncias. Na época, Demóstenes disse ter sido pré-julgado pelo partido.

PALADINO

O senador goiano, que até a eclosão das denúncias era um atuante parlamentar da oposição, encabeçou uma campanha por uma CPI para investigar denúncias contra o governo, na esteira de escândalos divulgados pela imprensa que provocaram a queda de sete ministros da presidente Dilma Rousseff no ano passado e início deste ano.

A chamada CPI da Corrupção não chegou a ser criada, mas na página de Demóstenes no microblog Twitter, ainda está exposto o slogan, "CPI da Corrupção, eu assinei", da época em que militava para recolher assinaturas de seus pares e instalar a comissão.

A biografia do parlamentar em seu site informa que ele "participou de diversas CPIs e não deixou acabar em pizza as que foi relator".

Demóstenes, natural de Anicuns (GO), também foi relator na Comissão de Constituição (CCJ) da Lei da Ficha Limpa, que define uma série situações que tornam candidatos inelegíveis.

A proposta foi aprovada em 2010 pelo Congresso. Mal sabia o senador que seria vítima, tempos depois, da lei que suspende os direitos políticos daqueles que forem condenados por órgãos colegiados por crimes de corrupção ou que renunciarem em processos de cassação, por exemplo.

Se o plenário decidir pela cassação do mandato nesta quarta-feira -são necessários 41 votos-, Demóstenes ficará oito anos inelegível, contados a partir de 2019, quando se encerraria o atual mandato. Dessa forma o senador só poderá se candidatar em 2027.

Caso seja cassado, será o segundo senador a perder um mandato num julgamento realizado pelos seus pares na Casa. Até hoje, somente o ex-senador Luiz Estevão (DF) perdeu o mandato no plenário, em 2000, acusado de envolvimento no desvio de verbas destinadas à construção da sede do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo.

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