Política externa brasileira vive semana de derrotas

Depois de atrito com EUA, Itamaraty experimentou fiascos na Cúpula Amazônica e na reunião da Unasul

Tânia Monteiro e João Domingos, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Até o momento, a diplomacia brasileira em Honduras colecionou derrotas. Ao aderir à causa do presidente deposto, Manuel Zelaya, e abrigá-lo na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, o Itamaraty perdeu a oportunidade de liderar um processo que pusesse fim à crise política criada com o golpe que depôs o presidente em junho passado.

Na semana passada, o Brasil virou espectador de um processo erosão no apoio à ideia de que Honduras não deveria fazer eleições antes de devolver o poder a Zelaya. Como revelou o Estado na terça-feira, o Itamaraty enviou no dia 17 uma emissária a Washington para convencer a Casa Branca a apoiar uma proposta de adiamento das eleições. A proposta não teve resposta.

No mesmo dia, Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República, critica a política diplomática do governo Barack Obama. Na quarta-feira, o chanceler Celso Amorim foi obrigado a vir a público para atenuar as críticas que Garcia fizera à diplomacia dos Estados Unidos.

"GOLPE PREVENTIVO"

Diante da falta de apoio da Casa Branca e do crescimento do número de países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) que aceitam a legitimidade das eleições como solução para a crise hondurenha, Garcia disse que o governo Obama está "equivocado" e transformou-se em uma "decepção" pela forma como está se relacionando com os países latino-americanos.

Apesar da sessão panos quentes promovida pelo chanceler Amorim, Garcia voltou à carga no dia seguinte, afirmando que a política americana para Honduras sinaliza que os EUA querem introduzir na América Latina o princípio do "golpe preventivo".

Para encerrar uma semana desastrosa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contabilizou ainda o fiasco da Cúpula Amazônica, em Manaus, e do encontro da Unasul, em Quito. As duas reuniões foram esvaziadas pela ausência de chefes de Estado.

Na essência, lembra o cientista político americano David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), a política externa do governo Lula tem sido coerente com a diplomacia de todos os outros governos anteriores. De acordo com ele, a diferença agora está "no fator Chávez".

"Por causa da agressiva atuação do presidente venezuelano, o Brasil, às vezes, é levado a reboque e obrigado a entrar onde não pretendia estar", disse Fleischer. A crise de Honduras expôs também as mudanças na condução da diplomacia brasileira, que agora fala em "atenuação do princípio da não-intervenção".

Um ministro da equipe do Planalto admitiu ao Estado que a orientação do Itamaraty é mesmo neutralizar as ações de Chávez quando elas levam a "um indesejável radicalismo". No caso de Honduras, o Brasil estaria assumindo a posição de "país moderado". O problema é que Zelaya é próximo de Chávez.

PARAGUAI

O Brasil já funcionou anteriormente como fator de conciliação política em crises internas de países latino-americanos, mas sempre a partir de uma evidente neutralidade. Em abril de 1996, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o País ajudou a abortar um golpe de Estado contra o presidente paraguaio Juan Carlos Wasmosy.

A ação conjunta ameaçou expulsar o Paraguai do Mercosul caso o golpe fosse consumado. O gesto foi o primeiro passo para a inclusão da cláusula democrática, feita por meio do Protocolo de Ushuaia, dois anos depois.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.