Por dinheiro, dupla abala a vida de 4 milhões de jovens

Com exame em mãos, os dois homens pediram R$ 500 mil para entregar a prova do Enem

Renata Cafardo e Sergio Pompeu, O Estadao de S.Paulo

02 de outubro de 2009 | 00h00

Os dois homens que derrubaram o exame que custou cinco meses de preparação para mais de 4 milhões de jovens brasileiros sabiam da importância do material que tinham em mãos: as duas provas do Enem que seriam aplicadas neste fim de semana. "Isso aqui derruba um ministério." Viram ali a chance de ganhar um bom dinheiro. "Queremos R$ 500 mil." Mas a estratégia parecia primária.

Em nenhum momento eles deram seus nomes ao Estado e por isso serão identificados no texto como "Informante" (a sugestão partiu dele mesmo) e "Sócio". Os dois tentaram o tempo todo posar de bons moços. "Já participei de concursos, também fico revoltado com essas coisas. Meu irmão, de 16 anos, vai fazer a prova", disse o Informante. "Isso (a prova) já está na mão de um monte de filho de parlamentar lá em Brasília", completou Sócio.

O primeiro contato com a redação foi feito pelo Informante, às 15h30 de anteontem. "Tenho uma informação sobre o Enem", disse, num telefonema. "Tenho a prova toda, 180 questões, já impressas."

Deixou bem claro que queria "negociar". Deu um número de celular.

A reportagem falou quatro vezes com o Informante durante a tarde. Ele exigiu um encontro em um local público, quando mostraria a prova e daria detalhes de como a conseguiu. Indicou que cor de roupa usaria, uma jaqueta preta. Aceitou o lugar indicado pelo Estado, um café na zona oeste, mas o horário foi mudado duas vezes. Por fim, ficou determinado que seria às 19h15.

A equipe do jornal (os autores do texto e o repórter fotográfico Evelson de Freitas) chegou ao local com antecedência. Enquanto esperava, Informante telefonou duas vezes: tinha se perdido. Avisou que teria o apoio de pessoas que ficariam do lado de fora do café. Mas o primeiro a aparecer foi um homem moreno, aparentando 30 e poucos anos, vestido com uma jaqueta amarela, com capuz. Era o Sócio.

A primeira providência de Sócio foi perguntar se os jornalistas tinham levado gravador. Enquanto isso, Informante chegou e sentou-se à mesa. Também moreno, de olhos claros, vestia a tal jaqueta preta e usava boné. Levava uma pasta de material sintético.

"Uma pessoa do Inep, do MEC, tirou isso lá de dentro e passou para uma pessoa que a gente conhece", disse Sócio. "Chegou por acaso",

completou Informante.

Ele garantiu que não teve acesso ao responsável pelo vazamento da prova. "Não é nosso trabalho, eu sou funcionário público, ele (Sócio) também trabalha. Não tem nada a ver com a gente isso aí. A gente tá meio perdido."

AS QUESTÕES

A reportagem pediu para ver a prova. Mesmo sem nenhuma garantia de que haveria pagamento, Informante tirou o caderno de prova de uma pasta e o colocou na mesa. Não se importaram em falar baixo ou se havia outras pessoas ao lado.

Passou primeiro a folha de rosto, com instruções gerais sobre o tempo de prova, o preenchimento do gabarito e outras informações para o candidato.

Tinha os logotipos do MEC e do Inep, no canto inferior esquerdo,

a relação das empresas do consórcio contratado para a realização da

prova e um número 2: era o exame de domingo, com 90 questões de Linguagem e Matemática.

A dupla se recusou a mostrar aos repórteres a folha com o tema da redação. "Se não, amanhã você escracha no jornal", disse Sócio.

Um pequeno lacre que provavelmente identificaria a numeração da prova havia sido recortado.

A reportagem pediu para ver as questões. Informante permitiu ao Estado folhear o caderno por uns dois minutos. Tempo mais que suficiente para identificar meia dúzia de questões e memorizar itens associados a eles.

O primeiro item do Enem reproduzia uma tira de história em quadrinhos da personagem Mafalda. Nas folhas seguintes estavam os dois itens apontados horas depois pelo presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, como a comprovação de que o exame era verdadeiro: o poema Canção do Exílio e uma imagem da bandeira do Brasil com o verde suprimido, simbolizando o desmatamento.

A prova também tinha um texto da revista Veja sobre o filme Touro Indomável, uma tira do gato Garfield, uma questão que mencionava o MSN (sistema de mensagens online) e outra que citava os versos de Carlos Drummond de Andrade: "No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho".

"Agora já viu demais", decretou Sócio. Era hora de falar de dinheiro. Os dois bateram o pé no meio milhão de reais. Diziam que o dinheiro seria dividido entre cinco pessoas. A reportagem tentou argumentar que denunciar o vazamento da prova era uma questão de utilidade pública.

"Utilidade pública não paga meu salário", retrucou Sócio. "É grana,

é grana."

Informante, sempre mais educado, tentou mostrar que a transação valia o que os dois pediam. Disse que o jornal receberia os originais das provas de sábado e domingo, cópias dos exames registradas em cartório e até uma breve descrição de como o material chegara até eles. Explicou que tinham a assessoria de um advogado que também os orientaram a comprar um chip de celular para os contatos.

"Tudo isso que a gente tá fazendo é com orientação jurídica",

disse Informante.

Ele queria o pagamento em dinheiro e mencionou até um contrato que garantiria o "sigilo da fonte" - entendimento jurídico de que o jornalista tem o direito de preservar as fontes de suas informações.

Durante a conversa, Sócio citou a questão do sigilo como argumento para a escolha de veículos de imprensa para a venda das provas.

"A última coisa que a gente vai fazer é bater na porta do PSDB. Ano de eleição. A última saída vai ser essa",

completaram. Com a negativa do Estado em comprar o material, o encontro terminou em pouco mais de 40 minutos.

A reportagem então decidiu informar o MEC. Nada seria publicado até que houvesse a confirmação do governo.

A reportagem enviou um e-mail ao ministro da Educação, Fernando Haddad, com exemplos de questões e em quais páginas apareciam na prova.

O próprio ministro informou à reportagem sobre toda a movimentação em Brasília para confirmar a autenticidade do exame.

Nem o ministro nem o presidente do Inep tinham visto a prova, até então.

Três funcionários foram levados ao Inep para abrir o cofre em que estavam guardadas as questões. Não havia uma prova impressa e, sim, as 180 perguntas digitalizadas.

Cerca de quatro horas depois do primeiro contato da reportagem com o ministério, por volta da 1 hora de ontem, o presidente do Inep ligou para o Estado e confirmou que a prova tinha vazado.

"Há fortes indícios de vazamento, 99% de chance." O Enem estava cancelado.

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