'Rezo para que tenham morrido dormindo'

Uma família de quatro pessoas morta sob o Rio Amazonas e outra de oito pessoas renascendo nas mesmas águas. As histórias vêm do mesmo cenário, o naufrágio do Almirante Monteiro, só mudando o alojamento: viajavam dormindo em redes os oito salvos. Os quatro encontrados mortos pelo Corpo de Bombeiros estavam presos em um camarote."Meu Deus, rezo para eles terem morrido dormindo, que não tenham sofrido", desesperava-se Jorgelina da Cruz Nunes, de 45 anos, mãe de Lucas da Cruz Nunes, de 29 anos. Lucas vinha com a mulher Jocilene da Silva Nunes, de 25 anos, e os filhos Lucas Júnior da Silva Nunes, de 8 anos, e Vitor da Silva Nunes, de 5, para visitar sua família. Moravam em Alenquer, cidade natal de Jocilene, e era a primeira vez que viajavam todos juntos."Eu sempre reclamava que os netos não vinham me ver, sempre, sempre reclamava", lamentava Jorgelina, com olhar perdido, como se buscasse um rosto conhecido em meio aos sobreviventes reunidos pelo governo estadual num ginásio de esportes na noite de hoje. Ao ginásio foram encaminhados 49 dos 92 sobreviventes. Segundo a secretária de Ação Social, Graça Prola, os outros ficaram em Itacoatiara acompanhando o resgate de parentes. "São muitas famílias viajando juntas, muitas crianças, muito sofrimento", disse. No ginásio, entre os 49 estavam 21 crianças, com idades variando de 2 até 14 anos. "Eu tenho sete vidas, pode crer, moça", sorria Raí Arruda Farias, de 14 anos, que salvou-se do naufrágio e ainda ajudou dois dos quatro irmãos a pegar bóias e se afastar da força do barco que arrastava para o fundo do rio. "Só arranhei aqui, meu tornozelo", mostrou, enquanto comia com vontade um pedaço de pizza trazido pelas assistentes sociais. Raí, com a família de sete pessoas, moram em Manaus desde 2003, quando se mudaram de Alenquer, no Pará, para tratar sua leucemia descoberta naquele ano. Sem tratamento no interior, vieram em busca de um hospital especializado em tratamento de câncer em Manaus. A mãe de Raí, a dona de casa Francisca Maria Arruda, de 35 anos, foi a responsável pela mudança da família do Pará. "Adoro esses meninos e não ia perder meu mais velho por falta de médico e viemos todos morar em Manaus. Agora, se fosse para todo mundo se salvar, que Deus nos abençoasse como abençoou, todos juntos. Se não, melhor morrer todos juntos como a família do camarote", afirmou. Francisca estava no andar de baixo, dormindo em uma rede próxima às dos dois filhos mais novos, Railson, de 13 anos, e Leandro, de 11."Ouvimos um barulho muito forte e eu logo vi que afundava. Agarrei meus meninos e duas bóias, mas não soltei deles e fui subindo para ver os outros". No andar de cima, o pai, o comerciário Raimundo Nonato Farias Pereira, de 43 anos, estava descendo com a única na família que não sabia nadar, a filha Francieli, de 12 anos, agarrada a seu pescoço. Raimundo contou que estava descendo atrás dos outros filhos e da mulher, mas os encontrou subindo. "Daí encontramos meus pais no caminho e fomos nos afastando do barco, que puxava todo mundo ao fundo com muita força", contou Raimundo. Os pais de Raimundo, Raicilene, de 70 anos, e Romero, de 81, ajudaram a carregar os netos. Romero, com uma sonda, havia sido operado de uma inflamação da próstata na semana passada em Belém, no Pará. "Todo mundo aqui nasceu de novo, do neto começando a vida a mim que sou até bisavô", disse Romero.

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