Roteiro original

Ninguém razoavelmente atento aos fatos pode se dizer surpreso com o anúncio do governador de Minas, Aécio Neves, de que não será candidato a presidente em 2010.

, O Estadao de S.Paulo

18 Dezembro 2009 | 00h00

Da mesma forma, ninguém é capaz de afirmar agora com certeza qual será o destino dele: se candidato ao Senado ou a vice na chapa do governador de São Paulo, José Serra.

Essa é uma questão que não interessa ao PSDB resolver neste momento, até porque há prazo suficiente para isso até a convenção do partido em junho.

Ao contrário dos percalços anteriormente previstos, e já vistos em outras épocas de decisões sobre candidaturas entre os tucanos, desta vez o PSDB cumpre o roteiro original, conferindo naturalidade ao processo de indicação do candidato.

Tanto Aécio quanto Serra estão fazendo exatamente o que disseram que fariam, não obstante os lances de efeito que cada um produziu até aqui: o mineiro reforçando seu cacife no mundo político e junto ao seu eleitorado; o paulista disfarçando em público a armação da candidatura que articula meticulosa e ferozmente em privado.

Aécio Neves sempre afirmou que não sairia do PSDB. Não saiu. Disse que se houvesse entendimento não insistiria na realização de prévias. Não insistiu. Avisou que tomaria uma posição em dezembro. Tomou.

Agora só está em aberto a questão do Senado. Pelo histórico, Aécio realmente não aceitará a vaga de vice, pois tem afirmado isso seguidamente. Só que o faz alegando ser mais conveniente ao partido ampliar alianças.

E se, mais à frente, concluir que o mais interessante para o PSDB é a chapa puro-sangue? Não terá mentido. Além disso, para o Senado há um complicador de nome Itamar Franco.

Convidado a entrar no PPS com a garantia de que poderia disputar uma cadeira de senador, Itamar fica praticamente sem chance se Aécio entrar na disputa.

Como há duas vagas em tese a serem divididas entre as duas maiores forças políticas do Estado, PT e PSDB, já que o PMDB deverá ter Hélio Costa como candidato a governador, se Aécio concorrer Itamar será um candidato quase certo à derrota.

A menos que o ex-presidente assuma a vaga de vice na chapa de Serra, o que, pelo menos por ora, está bem distante das cogitações do governador de São Paulo.

No momento sua preferência recai sobre o nome de Aécio.

Mas, como a cada dia a oposição enfrenta uma agonia, a preocupação central de Serra agora é saber como administrar o tempo até o anúncio oficial da candidatura.

Coisa que, apesar da aflição dos aliados, o governador continua disposto a fazer só no prazo originalmente previsto, fim de março, depois de inaugurar o Rodoanel, a linha nova do metrô e completar o prazo legal para a desincompatibilização do cargo.

A rigor, uma mera formalidade, já que o anúncio da "desistência" de Aécio torna desnecessário o ritual da escolha. Como desde o início estava posto, José Serra é o candidato.

Reforço

Antes mesmo de reformulada a redação da sentença do Supremo Tribunal Federal vinculando a decisão do presidente Luiz Inácio da Silva sobre a extradição de Cesare Battisti aos termos do tratado entre Brasil e Itália, o governo italiano já pretendia contestar o presidente no caso da manutenção de Battisti no Brasil.

O STF só deixou mais clara a situação. De todo modo o presidente da República é obrigado a se submeter ao tratado bilateral de extradição sob pena de o Brasil ser denunciado em tribunais internacionais e internamente acusado de crime de responsabilidade por descumprimento de lei federal.

A partir da publicação do acórdão do Supremo o presidente tem 40 dias de prazo (20 prorrogáveis por mais 20) para se pronunciar.

Agenda

Conforme o previsto, a Conferência Nacional de Comunicação virou, mexeu e chegou aonde queria chegar: à retomada da proposta de criação do Conselho Nacional de Jornalismo para dar ao Estado controle sobre as atividades da imprensa.

A boa notícia é que não há a menor chance de o plano prosperar para além das fronteiras do aparelho.

A má é a insistência na discussão do retrocesso. Dá trabalho, custa caro e desqualifica a democracia.

Herança

Descontados os prejuízos futuros contratados pela aprovação da entrada da Venezuela no Mercosul, o maior e único beneficiário é o presidente Lula, que pôde mostrar a Hugo Chávez que controla o Congresso.

Lula cria fatos consumados cujos custos serão mais cedo ou mais tarde cobrados ao País. Como acontece com o aumento dos gastos do poder público e a expansão do tamanho do Estado.

Ele deixa a Presidência no que vem a cavaleiro, pois para todos os efeitos os malefícios serão debitados na incapacidade administrativa e na inabilidade política do sucessor. Ou sucessora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.