Salve Marta, cheia de graça!

Como foi sua ceia? Espero que tenha corrido tudo bem e que você esteja com espírito, estômago e fígado em paz ao folhear o Estado de hoje. Para quem acredita, o Menino Jesus é o personagem central de data tão importante - e, como creio, a ele com humildade devoto fé e esperança eternas. Assim, abro coluna com um feliz e sereno Natal a todos. E vamos à nossa breve conversa das sextas-feiras.

Antero Greco, O Estadao de S.Paulo

24 Dezembro 2009 | 00h00

Aproveito o dia especial, de ritmo mais relaxado, para dedicar este espaço para Marta, a maior boleira de nossa história. A moça joga demais e o reconhecimento internacional veio na segunda-feira, ao vencer pela quarta vez consecutiva o prêmio de melhor do mundo oferecido pela Fifa. Uma reverência descaradamente justa e que, pelo jeito, não vai parar por aí. Já antevejo o penta para o final de 2010.

Marta tem tudo o que se espera de um craque no futebol: técnica, autocontrole, velocidade, garra, ousadia. E sobretudo "fantasia", como os italianos se referem à criatividade. Todas essas características formam um conjunto único, em que a leveza feminina torna mais acentuado o toque de gênio. Marta flutua em campo, coloca adversárias a seus pés - e nada mais justo que lhe façam reverência.

Marta não fica a dever para marmanjos badalados, guardadas as proporções se equipara aos grandes reis dos gramados. Quando arranca para o gol, lembra Ronaldo nos melhores dias; nas conclusões pode ser implacável como Careca ou sutil como Ademir da Guia; nos deslocamentos evoca a eficiência de Tostão; nas explosões e broncas, equivale a um Dunga ou, para quem é mais nostálgico, a um Zito.

Estou a exagerar? Claro que sim e é exatamente o que pretendo. Gastamos litros de tinta, dezenas de bobinas de papel, incontáveis megabites e quilos de incenso para falar de astros que nem sempre são lá grande coisa. Por que não encher a bola de uma fora de série e que além de tudo é guerreira? Marta merece elogios esparramados, desmedidos. A categoria dela é um despautério, como diria Odorico Paraguaçu. Vai jogar bola assim na Cochinchina, emendaria Toninho Cazzeguai, lendário peladeiro das várzeas do Bom Retiro.

Marta deveria ser musa de poema de Vinicius, de música de Chico Buarque, de sinfonia de Beethoven, de crônica de Rubem Braga, de romance de Machado de Assis, de comentário de Armando Nogueira, de estudo de Mário de Andrade, de escultura de Michelangelo, de pintura de Picasso. E o sorriso dessa moça? Você já reparou? Tão simples e bonito que Leonardo da Vinci encontraria nela o modelo para a Monalisa. Gol de Marta só deveria ser narrado pelo Cid Moreira, com trilha sonora do Morricone! E encher a tela do Canal 100.

Não estou a fim de economizar em imagens. É pra gastar o verbo com ela. Um barbado que jogasse como a Marta teria o passe disputado por dezenas de milhões de euros pelos magnatas da bola. No entanto, a garota se desdobra, como uma cigana, para manter-se em atividade - e o futebol feminino, principalmente aqui, fica com as migalhas, vive de iniciativas de mecenas esporádicos ou de ocasião. Ou de um ou outro lunático que acredita em duendes. E duendes existem - taí a Marta que não me deixa mentir. Com Marta em campo, todo dia é Natal.

Ave, Marta, os súditos te saúdam!

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