Sou mais a flunfa

Com tanta palavra no dicionário, será que existe uma para cada coisa?

Humberto Werneck,

03 de junho de 2012 | 06h42

Claro que existe, disse eu de bate-pronto, e saquei um exemplo:

– Sabem o nome desses pelos dentro do nariz?

Segundos de silêncio eivado de inveja lexicográfica, antes que viesse eu iluminar a ignorância dos presentes:

– Vibrissas.

Arrasei! Só não contava com a volta por cima de um desmancha-prazeres:

– E aquele algodãozinho no umbigo no final do dia?

Algodãozinho? Umbigo? Apanhado no contrapé, o sabichão coçou o imaginário cavanhaque, rosnando para dentro: ah, isso não vai ficar assim! E não ficou mesmo. Tanta coisa urgente me esperando, mas parei tudo – e por muitas horas nada fiz senão escarafunchar o umbigo da língua portuguesa, até estar em condições de anunciar: aquilo tem nome, sim.

Chama-se flunfa.

Não perca tempo folheando o Houaiss ou qualquer outro dicionário, pois nenhum deles sabe o que é a flunfa. Em vez disso, refaça meus passos no Google, onde fui informado de que a palavra não só existe como comparece numa crônica do Verissimo, e já faz tempo, num livro de 1997, A mãe de Freud.

Fui encontrá-la também no Urban Dictionnary, igualmente consultável na internet. Pode ter sido posta ali por algum brasileirinho, mas a raiz do neologismo é a palavra inglesa fluff – “macia massa de fibras de lã e outros materiais, acumulada em lugares onde não é desejada”. No umbigo, por exemplo. Mas disso não sabiam vocês aí, os 206 membros da comunidade “Bolinhas de algodão no umbigo”, criada no Orkut para cultuar semelhante insignificância.

Insignificância? Pois fique sabendo que a flunfa desfruta do status de objeto da ciência, estudada que foi pelo químico austríaco Georg Steinhauser. Durante três anos ele se dedicou à análise de 503 amostras coletadas em seu próprio umbigo, daí resultando um artigo na Medical Hypothesis. Sem usar a palavra flunfa, ou mesmo fluff, o Steinhauser revelou que o depósito umbilical é uma porcarieira em cuja composição entram fiapos de roupa, como já sabíamos, mas também fragmentos de pele morta, gordura corporal, suor e poeira. Coisa demais para nossos despretensiosos umbigos, convenhamos.

Três anos foram pouco, no entanto, para que esse abnegado da ciência elucidasse todas as transcendentais questões postas pela flunfa. Cansado de contemplar sua barriga, o dr. Steinhauser jogou a toalha, legando-nos um desafiador enigma: “Por que certos umbigos coletam mais fiapos do que outros?”

A resposta poderia vir de outro apaixonado pelo relevante assunto, o australiano Graham Baker, que em 17 de janeiro de 1984 (tudo criteriosamente registrado) se pôs a colecionar o conteúdo de seu umbigo, tendo por isso merecido ingresso no Guinness Book.

O problema é que o Baker não chega a ser um cientista, ao contrário do Steinhauser, que antes de ocupar da flunfa já se notabilizara por um estudo sobre a corrosão de sua aliança de ouro durante o primeiro ano de casamento. Como para deixar claro que nem tudo se corrói, dedicou à mulher, Veronika, o trabalho publicado no Gold Bulletin, no qual aprendemos que o principal fator de desgaste, mais do que a jardinagem e a prática do ski, é a areia da praia.

Nenhuma referência ao hábito de pular cercas. Em um ano o anel havia perdido 6,15 mg de ouro – constatação que descortina excitante disputa para saber o que vai acabar primeiro, o casamento ou a aliança.

Não é justo que nenhuma das pesquisas do Steinhauser tenha recebido o prêmio IgNobel, atribuído a trabalhos científicos que se destacam pela bizarria. Nada ficam a dever a estudos premiados que esmiuçaram os momentosos temas da massagem retal usada pela curar soluços, da capacidade que têm os pinguins de defecar a 40 cm de distância, dos suicídios relacionados com o hábito de ouvir música country no rádio ou das dançarinas eróticas que ganham gorjetas mais alentadas quando estão ovulando.

Olha, sou mais a flunfa. E você?

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