Temperatura no reator é 10 vezes maior que a do Sol

Alguns fatos e números ilustram bem o enorme desafio para a realização de um projeto como o Iter. Por exemplo: por não poder reproduzir a enorme pressão do núcleo das estrelas, provocada pela gravidade, para os átomos de hidrogênio realizarem a fusão nuclear a saída é elevar a temperatura.

Livio Oricchio, Enviado especial, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h04

Enquanto no núcleo do Sol 15 milhões de graus Celsius são suficientes para ocorrer a fusão, por causa da eleva pressão, no reator do Iter, o tokamak, é preciso elevar a temperatura a 150 milhões de graus Celsius, ou dez vezes mais que no núcleo do Sol.

E para os supercondutores transportarem a energia elétrica para as bobinas do tokamak criarem os campos magnéticos necessários para transformar os átomos de hidrogênio em plasma a temperatura exigida se aproximam do zero absoluto, algo como 270 graus Celsius negativos. As temperaturas envolvidas, portanto, se deslocam de um extremo ao outro.

Os campos magnéticos criados pelas bobinas mantêm o plasma a 150 milhões de graus Celsius suspenso dentro da câmara do tokamak. Não pode tocar nas suas paredes, pois nenhum material suporta tamanha quantidade de calor. Volume da câmara: 840 metros cúbicos, imensa.

Outro guerra que deve ser vencida para ocorrer a fusão e que também explica a necessidade da temperatura impensável é a repulsão magnética entre os átomos de hidrogênio. Na realidade, para a obtenção da fusão é preciso contar com isótopos de hidrogênio, o deutério e o trítio. Isótopos são variações de um elemento químico. Têm o mesmo número de prótons, mas diferente número de nêutrons. O deutério tem um próton e um nêutron. É abundante na natureza, como na água do mar.

Já o trítio possui um próton e dois nêutrons e precisa se produzido, o que pode ser feito no próprio tokamak. Tanto o deutério quanto o trítio se repelem por terem carga positiva, a carga do próton. O nêutron não possui carga. Para fazer com que o deutério e o trítio se choquem, superando a força de repulsão magnética, é preciso lhes oferecer grande quantidade de energia, suprida pelo calor. Vale lembrar a temperatura na câmara: 150 milhões de graus Celsius.

O tokamak do Iter terá 60 metros de altura, equivalente a um edifício de 20 andares, e seu peso somado ao da fundação antiterremoto chegará a 400 mil toneladas. A construção do tokamak consumirá muito aço: 23 mil toneladas. A torre Eiffel, para se ter uma ideia, necessitou 7.300 toneladas.

Para alguns componentes do tokamak serem transportados do porto de Marselha até Cadarache, sede do Iter, o governo francês teve de reconstruir parte da estrada de 104 quilômetros que os separa. O mais pesado terá 900 toneladas, incluindo o veículo, e o mais alto, 10,6 metros, sendo que alguns atingem 61 metros de extensão.

O Iter está exigindo operações de guerra para gerar o que pode ser a saída para as carências futuras de energia.

 

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