Janaína Ribeiro/Estadão
Janaína Ribeiro/Estadão

Trocas de carro com retorno em dinheiro crescem nas concessionárias

Clientes optam por ficar com veículos mais simples para poder quitar dívidas ou fazer pé-de-meia

Arthur Cagliari, Hermínio Bernardo, Igor Costa e Renato Alban , Especial para o Estado

08 Agosto 2015 | 03h00

Faz troca com troco? Essa é a pergunta mais ouvida nas concessionárias do Brasil em 2015. A ponto de esse tipo de venda já representar 35% das negociações de algumas lojas de automóveis do País. Segundo especialistas, não é incomum a procura pela modalidade crescer em tempos de crise. Mas o que nunca se viu foi esse porcentual identificado pelo Estado em pesquisa com as 20 principais revendedoras do País, nas cidades com as maiores frotas: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba.

O que torna essa prática atraente é o troco, a diferença em dinheiro recebida na troca de um carro por outro de modelo inferior. Em geral, o valor é de até R$ 10 mil, mas pode ultrapassar esse limite. O gerente de banco Thiago Torres, de 30 anos, conseguiu R$ 17.900 ao abrir mão de um carro 1.8 por um 1.4. “Serviu para quitar algumas dívidas e ficar mais tranquilo.” Torres também isso pensando em gastar menos na hora de abastecer, já que o novo modelo é mais econômico. 

A procura pelo troco aumentou em 15 de 20 lojas consultadas, entre unidades Ford, Fiat, Volkswagen e Chevrolet. Em nove concessionárias, o número de trocas com troco dobrou ou mais que dobrou em relação ao total de vendas. É o caso da maior concessionária Volkswagen em São Paulo. A cada 100 carros negociados em 2014, 15 foram com troco. Em 2015, o número subiu para 35. “O carro virou uma ferramenta para quitar dívida”, afirma o gerente Orlando Chodin. 

Prevendo dificuldades no setor em que trabalha, o revendedor de blindex Carlos Augusto Ribeiro, de 58, se adiantou para não se endividar. Ele faz parte dos 56% dos brasileiros que acreditam que a situação financeira do País vai piorar, segundo pesquisa da SPC Brasil. Por isso, pretende poupar. Ribeiro substituiu um Citroën C4 por uma Montana e R$ 10 mil, em uma loja da Chevrolet da capital paulista. O que recebeu vai direto para uma aplicação no banco. “É bom ter essa reserva agora.” 

Pessoas temerosas com o futuro, como Ribeiro, dão volume à busca pela troca com troco, mas os responsáveis por tornar a operação a mais procurada nas concessionárias são os endividados. “Essa prática sempre existiu, mas a procura se intensificou nos últimos meses por clientes que querem quitar dívidas”, diz o gerente-geral da loja da Ford em Belo Horizonte, Rodolfo Mendes. Na loja, 20% das vendas têm retorno em dinheiro. 

Opções. A modalidade mais comum entre endividados é a permuta de carros quitados por financiados. Funciona como um empréstimo com juros baixos: enquanto as taxas de financiamentos de veículos no Brasil variam de 0,81% a 3,77% ao mês, nos empréstimos bancários chegam a 20,48%. O Banco do Brasil, por exemplo, lançou uma linha só para operações de troca com troco que movimentou R$ 74 milhões apenas no primeiro semestre.

Para os que ainda estão devendo o financiamento do carro, a troca com troco pode ser útil para diminuir o valor das parcelas do veículo. Isso acontece quando o cliente substitui o carro que está parcelando por outro, também financiado, só que mais barato. Antes de fazer a troca, no entanto, o cliente pode tentar uma estratégia mais tradicional: negociar. 

“O diálogo tem sido muito usado e está dando bastante resultado”, diz Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). Para ter sucesso no pedido de refinanciamento, o cliente deve estar munido de informações do próprio orçamento. “O banco ou refinanciadora tem de saber que o financiado vai conseguir pagar.”

Seja com o carro quitado, seja com o financiado, pensar em soluções como a negociação é fundamental. Especialistas afirmam que a troca com troco é um recurso alternativo para quitar dívidas. “Só vale a pena se a pessoa estiver muito desesperada”, diz o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) Emilio Alfieri. Segundo ele, o valor que as concessionárias pagam no carro é menor que o de mercado. Como oferecer crédito não é o negócio das revendedoras, a margem de lucro é alta, avisa o professor da FGV especializado no setor automotivo, Antonio Jorge Martins. “De maneira geral, os clientes perdem dinheiro.”

A economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) Ione Amorim faz outro alerta. “São muito frequentes as reclamações de consumidores que fizeram a troca e não tiveram o cuidado de transferir a dívida e o veículo.” Caso a concessionária não assuma a dívida, o cliente terá seu nome negativado por falta de pagamento, além de responder por qualquer ocorrência envolvendo o veículo, como uma multa ou um acidente.


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.